Deuses primordiais (em construção)

Caos

Os gregos conheciam diversas lendas sobre a origem do Cosmo. Homero considerava o titã Oceano a origem dos outros deuses (Il. 14.200 e 246); as doutrinas órficas[1], a julgar por testemunhos tardios (Dam. Pr. 124), mencionavam Nix como o princípio de todas as coisas; para Hesíodo, tudo havia começado com Caos e Gaia (Hes. Th. 116). Outras fontes mencionam, ainda, a origem a partir de um “ovo primordial” (Ar. Av. 693-703).

Ferécides de Siros (séc. -VI), por sua vez, sustentava que Zeus, Crono e Gaia haviam existido sempre e, portanto, não teria ocorrido propriamente uma criação (D.L. 1.119). De qualquer modo, para os gregos todas as forças que haviam atuado no momento da criação eram, em qualquer uma das versões conhecidas, essencialmente divinas.

A cosmogonia de Hesíodo

A versão da Teogonia de Hesíodo (116-53) é, dentre todas as cosmogonias gregas, uma das mais coerentes e bem estruturadas, além de didática. É, também, a mais conhecida:

  Caos
  |
  +--------+--------+--------+--------+
  |        |        |        |        |
    Gaia   Tártaro    Eros    Érebo     Nix

No princípio, existia apenas o Caos (gr. Χάος), vazio primordial e escuro que precedeu toda a existência; depois, surgiu Gaia, a “mãe de todos”, e a seguir vieram Tártaro e Eros e, então, Érebo e Nix.

Essas quatro poderosas divindades primordiais começaram a existir, aparentemente, a partir de simples “desdobramentos”, sem a ajuda de qualquer união sexual. Mais tarde, graças ao aparecimento de Eros, tais uniões tiveram lugar.

As linhagens de Tártaro e Eros foram pouco produtivas; Nix, Érebo e Gaia, por outro lado, deram origem aos deuses propriamente ditos, seja através de mais “desdobramentos” ou, então, “unidos em amor”… (Hes. Th. 125).

Iconografia e culto

Caos era uma entidade abstrata, de função puramente genealógica; não foi tema da arte grega e nem objeto de culto.

Notas
  1. O orfismo era um culto de mistérios tradicionalmente associado ao poeta trácio Orfeu, considerado pelos seus adeptos ainda mais antigo do que Homero. A literatura órfica, que remonta ao século -VI, difundiu-se amplamente durante o Período Helenístico.

RIBEIRO JR., W.A. Gênese: caos e ordem. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. Disponível em http://www.greciantiga.org/arquivo.asp?num=0656. Consulta: 10/01/2013.

Chronos (não é o titã!)

Érebo

No princípio, aparentemente, não havia luz; os primeiros momentos da criação ocorreram no escuro. Da linhagem de Érebo e de Nix, entidades originadas pelos “desdobramentos” do Caos primordial, viriam tanto a luminosidade como diversas outras divindades sombrias e abstratas, de grande influência na vida dos mortais.

Essas duas divindades primordiais, as últimas a emergir do Caos, simbolizam de diferentes formas as trevas primitivas. Érebo (gr. Ἔρεβος) era, aparentemente, a escuridão profunda que se formou no momento da criação, e mais tarde ficou localizada no mundo subterrâneo. Nix (gr. Νύξ), a noite, representava a escuridão situada logo acima de Gaia.

Da escuridão, a luz

Inicialmente, Nix uniu-se a Érebo, e dessa união nasceram Éter e Hemera, as primeiras entidades luminosas de um mundo até então totalmente escuro. Éter (gr. Αἰθήρ) era a luminosidade pura e brilhante da região superior da atmosfera, próxima à abóbada celeste; Hemera (gr. Ἡμέρα ) personificava o dia, isto é, a luz que brilha logo acima da terra.

Posteriormente, Nix gerou outros descendentes, como as Moiras, Hipno, Tânato e Éris, entre outros, mas sem o auxílio de Érebo.

Literatura, Iconografia e culto

Nix inspirou um dos mais belos e sombrios poemas de Álvaro de Campos (Dois Excertos de Odes, 1914).

Eurípides descrevia Nix como uma deusa alada, que vestia negro e utilizava uma carruagem acompanhada, em seu caminho, por estrelas (E. Or. 175-6 e Ion 1150)[1]. Em raras imagens de vasos, porém, e também nos relevos do altar de Zeus em Pérgamo, era representada por uma simples figura feminina, sem atributos específicos. Pausânias refere que havia uma estátua dela em Éfeso (10.38.3) e que ela tinha um oráculo na acrópole de Mégara (1.40.1).

Não há evidências de que Érebo, Éter e Hemera tenham sido representados, ou que tenham sido cultuados.

Notas
  1. Frederico Lourenço, em sua tradução do Íon de Eurípides (Lisboa, Colibri, 1994, p. 97) notou uma certa semelhança entre a descrição de Eurípides e os vv. 1-5 do poema de Álvaro de Campos:
    Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
    Noite Rainha nascida destronada,
    Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
    Com as estrelas lantejoulas rápidas
    No teu vestido franjado de Infinito.

RIBEIRO JR., W.A. Nix e Érebo. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. Disponível em http://www.greciantiga.org/arquivo.asp?num=0658. Consulta: 10/01/2013.

ÉreboErebus e Hemera

Éter

Na mitologia grega, Éter (do grego Αἰθήρ, Aithêr, derivado de aíthein, “queimar”, “fazer brilhar”, pelo latim Æther) ou Acmon, Acmão (do grego Ακμων, Akmôn, derivado de akmê, “zênite” ou de akmatos, “incansável”), era um dos deuses primordiais. Personificava o brilhante céu superior, a envolver o Cosmos e separá-lo da confusa escuridão do Tártaro. Na Teogonia de Hesíodo, Éter é filho de Érebo e Nix e irmão de Hêmera, mas Higino o considera filho de Caos e os poemas órficos o fazem filho de Chronos e Ananke e o consideram a alma do mundo, da qual toda a vida emana.

Para os poetas Calímaco e Alcman e para Cícero, Éter ou Acmon era pai de Urano, chamado por eles Acmônida, assim como seus descendentes. Higino o considera pai de Gaia, Urano e Talassa, nascidos de Hêmera e também de Algos (dor), Dolos (dolo), Lissa (ira), Pento (luto), Pseudólogo (mentira), Horco (juramento), Poine (Vingança), Intemperança, Anfilogia (altercação), Lete (esquecimento), Aérgia (Preguiça), Deimos (medo), Soberba, Incesto e Hismine (pugna), todos nascidos de Gaia. Aristófanes o considera pai das Néfelas.

A cada dia, Hêmera dispersava as brumas escuras de Érebo, arrastadas dos abismos profundos do Hades pela sua mãe Nix, para trazer o dia ao mundo. Uma bloqueava a luz de Éter (“brilho”, “céu azul”) e a outra a revelava. Nessa antiga concepção cosmogônica, noite e dia eram vistos como independentes do Sol: o brilhante Éter e não o astro-rei era a fonte do dia. O Éter era também o brilhante e puro ar superior que os deuses respiram, em contraste com o ar incolor e espesso (grego Ἀήρ, latim aer) respirado pelos mortais e com o ar inferior e escuro do Érebo. Era ainda visto como a muralha defensiva de Zeus, a fronteira que separava Tártaro do resto do cosmos.

Como Tártaro e Érebo, Éter tinha santuários mas não templos e provavelmente não era cultuado.

Eurínome

Euríbia

Euríbia (em grego Εὐρυβία, Eurybia, “força ampla”) era uma titânide, filha de Ponto e Gaia, casada com Crio, com o qual teve três filhos: Astreu, Perses e Palas. Hesíodo a menciona na Teogonia (273 ss. e 375 ss) como “a de coração de pedra”. É também mencionada pelo pseudo-Apolodoro, na Biblioteca (1.10 e 2.8).

Ela parece ter presidido as forças externas que influenciam o homem, incluindo o movimento das constelações, as estações e o poder dos ventos. É casada com Crios, associado à constelação de Áries, que marcava o ano novo e todos os seus netos têm poder sobre o mar.

Fanes

Gaia (veja Gaia aqui)

Hemera

Nesoi

Nix

Nix é a Noite. Foi a primeira Deusa helénica a ser cultuada por bruxas e feiticeiras. Assim com Gaia e Urano, Nix também gerou toda uma grande linhagem, a linhagem da Noite. Nix é a mãe do Dia (Hémera) e do entardecer (Hespérides), elas ajudam Nix a manter o ciclo diário. Enquanto Hémera rege o Dia, e as Hespérides regem a Tarde, Nix rege toda a Noite.

Nix: Com Érebo ou por partenogénese gerou Tânato (a Morte), Hipnos (o Sono), Éris (a Discórdia), Hémera (o Dia), Hespérides (a Tarde), dentre vários demónios que representam virtudes e antivirtudes humanas. A linhagem de Nix é o espírito, a razão

Nix, Hypnos e Tanatos Sleep_death_children

Ofion

Óreas

Physis

Pontos

 Pontos: Com Pontos, Gaia gerou monstros e criaturas do mar. Gerou também Nereu, Euríbia, Taumante e o monstruoso Fórcis que com o monstro marinho Ceto gerou vários monstros, como as górgonas. A linhagem do mar também há inúmeras divindades relacionadas ao mar e inúmeras ninfas marinhas. A linhagem de pontos é a alma, o sentimento (oposto à razão).

Tálassa

Talassa era representada nos mosaicos do período romano como uma mulher meio submersa no mar, com patas de caranguejo à guida de chifres, vestida com faixas de algas e segurando um remo de navio.

Thalassa

Tártaro

Urano

Urano é filho e marido de Gaia. Ele fecundava a Terra (Gaia) com a chuva. Somente com Gaia possui descendentes. Porém, quando seu filho, Cronos, cortou-lhe os testículos enquanto ele copulava com Gaia, seu sangue se espalhou, gerando as fúrias, as melíades, e, dos testículos que caíram no mar, foi gerada a belíssima Deusa Vênus (Afrodite), nascida das espumas do mar numa concha de madrepérola. Urano foi um tremendo tirano. Durante o seu reinado ele mantinha presos todos os filhos que tinha com Gaia no Tártaro (profundezas da Terra). Gaia, que já não aguentava a dor de ver tantos filhos presos em seu útero, insinuou seus filhos Titãs a se revoltarem contra o pai, e esses foram, liderados pelo mais jovem, Cronos (Saturno). Cronos, com uma foice que sua mãe lhe deu, cortou os testículos de Urano enquanto este estava copulando com Gaia. Das espumas dos testículos de Urano que cairam no mar surgiu Afrodite (Vênus).

Na teogonia hesiódica, Urano (gr. Οὐρανός) é a personificação do céu estrelado; emergiu de Gaia e imediatamente a recobriu em toda a sua extensão, tornando-se seu consorte. A partir da união entre o céu e a terra (sc. Urano + Gaia) o mundo começou, efetivamente, a tomar forma e nesse ponto a mitologia grega concorda com outras tradições antigas[1]. Urano foi a primeira divindade a assumir o controle o mundo.

A princípio, Urano gerou divindades poderosas, selvagens e incontroláveis, que obedeciam apenas sua própria natureza: os ciclopes e os hecatônquiros. Mais tarde ou até antes, segundo Hesíodo (Th. 132-3), gerou os titãs, ancestrais dos deuses olímpicos e dos mortais.

Os primeiros filhos

Os ciclopes (gr. κύκλωπες) eram três gigantes com um único olho no meio da testa e grande habilidade manual: Brontes, o trovão; Estérope, o relâmpago; e Arges, o raio.

Os hecatônquiros (gr. ἑκατόγχειρες) também eram três, igualmente gigantescos, poderosos e dotados de cem braços e cinquenta cabeças: Coto, Briaréu e Gigues.

Os hecatônquiros e ciclopes participam, basicamente, da titanomaquia; um dos hecatônquiros, Briaréu, ajudou Zeus durante a revolta dos olímpicos.

Titãs e titânides

Os titãs (gr. Τῑτᾶνες), um pouco menos selvagens que os irmãos, mas igualmente poderosos, eram Oceano, Ceos, Crios, Hipérion, Jápeto e Crono; suas irmãs, as titânides (gr. Τῑτανίδες), eram Réia, Téia, Febe, Têmis, Mnemósine e Tétis.

A linhagem dos titãs é a mais importante das duas, pois foi um deles, Crono, que destituiu o pai e assumiu o controle do Universo.

O pai desnaturado

Urano detestou todos os filhos desde o começo (Hes. Th. 155-6); provavelmente, também os temia. À medida que nasciam, mantinha-os sob a terra, não os deixava ver a luz, e “se deliciava com essa obra maligna” (Hes. Th. 158). Assim, após um começo enérgico, a formação do mundo havia chegado a um impasse: o potente Urano, embora tivesse gerado novas e poderosas divindades, não permitia que deixassem o interior de Gaia.

Titãs, ciclopes e hecatônquiros, presos no interior da mãe, temiam o pai e nada faziam. Gaia, porém, incomodada com a potência inútil de Urano, atulhada e ofendida, começou a conspirar contra o próprio marido.

A destituição de Urano

Um belo dia, a mãe de todos finalmente se cansou das loucuras de Urano e urdiu um astucioso plano para libertar os filhos e ao mesmo tempo se livrar do incômodo vigor do marido. Criou, em suas entranhas, o ferro mais resistente, fez com ele uma afiada foice e pediu ajuda aos filhos. Somente Crono (gr. Κρόνος), o mais novo, de “pensamentos tortuosos” (Hes. Th. 168), que odiava o pai e não o temia, concordou em ajudá-la.

Armado da foice, Crono se escondeu e à noite, quando Urano recobriu Gaia, decepou com um só golpe os genitais do pai e lançou-os no mar. Libertou, a seguir, todos os irmãos presos no interior da terra.

Urano continuou a cobrir Gaia diariamente, mas sem tocá-la: privado da capacidade geradora, “aposentou-se” e não procriou novamente. Mas esperma que caiu dos genitais cortados produziu, ao atingir o mar, a espuma de onde saiu a deusa Afrodite. O sangue de sua ferida, ao cair sobre a terra, gerou as ninfas melíades, as erínias e, posteriormente, os gigantes.

RIBEIRO JR., W.A. Urano. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. Disponível em http://www.greciantiga.org/arquivo.asp?num=0659. Consulta: 10/01/2013.

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