Feliz dia das mulheres

Esta é uma história ficcional e qualquer subsunção do texto à vida real é mera coinciência.

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Luz, o elfo belo, justo e sonhador, acabara de voltar do seu nobre trabalho.

elfo

O dever que lhe incumbia era indispensável para os desígnios de todos os seres vivos do “Mundo das fadas”: mover guerra contra os orcs invasores, brutais e violentos; poluídores das florestas e dos rios, devastadores das árvores milenares e comedores de indefesos animais silvestres e de fadas virginais.

Estafado depois de mais um longo dia de batalhas e de luta pelo belo e pela preservação ambiental, bem como das criaturas doces daquela terra, mas sem demonstrar qualquer sinal de arrependimento ou de dúvida pelo caminho que escolhera trilhar – lutar contras as forças do mal e contra a violência gratuita -, o virtuoso e belo elfo, que cumpria seu mister com dedicação ímpar e eficiência iniguálavel; o paladino da justiça, da sustentabilidade e do amor; a notável criatura cuja perfeição iluminava mesmo os olhos mais negros e obscuros, exceto os dos orcs, entrou em sua bela casa entalhada dentro de uma grande árvore morta – pois elfos preservavam as árvores que ainda viviam e jamais habitariam o tronco de uma ainda viva -, onde morava com outras centenas de elfos – obviamente cada um em seu núcleo habitacional, como se aquela imensa árvore fosse um imenso condomínio edilício (prédio com apartamentos). A ideia era ocupar o menor espaço possível para que as funções da natureza fossem preservadas ou pelo menos conservadas. De fato, os elfos e natureza precisavam viver em harmonia. Viviam em simbiose e mutualisticamente.

O herói cujas virtudes transbordavam pelos olhos bondosos e profundos dirigiu-se esperançoso para junto de uma pequena tigela de água e, por meio dela, entrou em contato com a namorada, uma bruxa má que morava a muitos quilômetros dali.

– Alô! – Disse a bruxa má, cuja face aparecia na superfície da água cercada de negras nuvens.

bruxa má

– Oi, meu amor. – O coração bondoso e luminoso do elfo se encheu de alegria e bateu mais forte. – Tudo bem? Já cheguei do trabalho. – Avisou delicadamente e feliz por ouvir a voz da amada.

– E como foi seu dia? – Perguntou curiosa a bruxa má, chamada Escuridão, para o alvíssimo elfo que brincava cândido com seus bichinhos domésticos de estimação aos quais destinava um amor infinito e um zelo sem igual, próprio de benfeitores e amantes da vida.

– Foi tudo o bem. Lutei bastante e obtive muitas vitórias para o lado do bem… Preciso te ver. Estou com saudade. – Sentiu um friozinho na barriga. Os elfos expressavam o que sentiam e nem por isso deixavam de ser másculos. Luz, ao expressar os sentimentos que o acometiam, buscava atender às exigências femininas.

– Eu também estou com saudade. – Respondeu automaticamente Escuridão.

– Paixão, minha razão de viver, onde a dama do meu coração está? – Questionou angustiado o apaixonado e carente Luz. Tinha certeza que ela estava próxima da árvore que lhe servia de residência, um local de fácil acesso, pois ficava bem no centro do Mundo das fadas. – Daqui duas horas preciso treinar novos recrutas e aprender novas artes da guerra e da diplomacia com os elfos anciões, bem como macetes da sabedoria. – Observou confiante Luz, convicto que aquelas atividades fariam um bem danado não só para ele, mas para todos os habitantes daquele mundo.

– Eu ainda estou em casa. – Escuridão morava na ilha de Lesbos, a milhares de quilômetros do mundo das fadas. Mesmo a vassoura voadora da bruxa má levaria quase uma hora para chegar ali.

– Mas recanto de amor imperscrutável, segundo havíamos combinado, tu a estas horas já deveria estar a dez minutos de vôo da minha casa. – Luz estava decepcionado. Mal tinha tempo para compartilhar com Escuridão e quando conseguia, ela se atrasava. Quem dera ele pudesse atrasar as incumbências que sobre os ombros élficos caíam… Ficaria sem a criatura que lhe roubara o coração por muito tempo ainda –  cada minuto sem Escuridão, representava uma eternidade para o elfo apaixonado.

– Sim, eu sei. Mas eu preciso lavar os cabelos. – Declarou seca e insensível a bruxa má.

O elfo ficou confuso. “Cabelos?!”

– Não, não precisa lavar os cabelos! – Desesperou-se o angustiado e carente, mas positivo elfo, ansioso por ter a musa que conquistou seu coração nos braços.

– O quê?! – Escandalizou-se a manipuladora de magia negra.

– Venha rápido, pois tenho que sair em pouco tempo. – Implorou confiante o esperançoso Luz.

– Tá. – Afirmou ríspida e negativa a bruxa má. – Tchau!

– Tchau! – Sorriu aliviado a criatura élfica. Logo estaria envolto pelos braços da bruxa má.

Mais de oitenta minutos depois, quase na hora do elfo sair para cumprir o nobre destino que a consciência límpida e transparente havia lhe reservado, a bruxa má bateu na porta do elfo.

Luz, emocionado, pois ainda poderia ficar um pouquinho com a bruxa má que amava, correu atabalhoadamente em direção à porta e quando abriu…

mulher brava feminista

– Oi. – Disse ela ríspida. Estava com os cabelos molhados. Escuridão deu um beijinho forçado na face do elfo frustrado. Empático, entretanto, Luz percebeu que algo não estava bem, mas, inocente e puro que era, desconhecia a causa da frieza da bruxa má.

A bruxa má andava vagarosamente pelo aposento, em silêncio, de um lado para o outro. O elfo ficou perplexo com a situação. Escuridão averiguava a casa como se nunca houvesse estado ali, embora frequentasse semanalmente aquela moradia. Ora olhava indiferente para a coleção de miniaturas do namorado, ora lançava olhares de desprezo e de raiva para a dulcíssima criatura élfica.

– Está tudo bem? – Perguntou o elfo premido pela agressividade da parceira, pela necessidade do tempo, pela carência e pelo amor destinado à bruxa má.

– Tudo. – Espumou raivosa a bruxa má.

– Eu fiz alguma coisa de errado? – Indagou o desgraçado elfo cujo sentimento de culpa acometia a honrosa alma do imortal.

– Elfo nenhum fala quando eu devo lavar os cabelos ou não. Macho nenhum manda em mim. – Explodiu ameaçadoramente a bruxa feminista.

– Mas…

– Nada de mas. Um macho mandando em mim? Jamais! Nós fêmeas sempre fomos excluídas, abusadas, impedidas de exercer todo nosso potencial, mas hoje as coisas são diferentes, eu não dependo de nenhum macho, pois sou moderna e independente. Lavo os cabelos quando quiser e não é você quem dirá quando eu devo fazer isso ou aquilo. Não preciso dar satisfação para ninguém.

“Do que ela está falando?” Perguntou-se perplexo e surpreso o elfo paladino.

– Não estamos mais nos tempos das cavernas. Nós, fêmeas, lutamos por direitos iguais há séculos e agora que conseguimos não vamos retroceder. Bruxas, fadas, mulheres, nós somos livres para fazer o que bem entender, sair com quiser e lavar os cabelos quando bem entendermos. Precisamos acabar com essa sociedade machista!

“Machista? Ela acha que eu sou machista?” 0.0

– Amor, você estava atrasada novamente e eu tenho hora marcada, por isso eu… – Tentou intervir Luz.

– Como eu já disse, não tenho que dar satisfação para nenhum machão, eu só preciso avisar quando estou atrasada e você deve esperar ou fazer outra coisa, não tenho culpa por seus compromissos. Aqui todo mundo atrasa! Para que ser pontual? Dá um jeito no serviço enquanto me espera, enrola, passeia, sei lá. Eu moro longe, sabe? Por isso sempre chego atrasada e está fora de cogitação sair mais cedo, entendeu? Eu nem sei porque estou dizendo tudo isso, atchim, desculpe-me.

– Estava ventando lá fora, o cabelo mol…

– Mais uma vez falando do meu cabelo?! Meu cabelo, minhas regras! Lavo quando bem entender. Sou bem crescidinha e esclarecida. Sei o que quero e o que é bom para mim. Decido quando é melhor fazer ou não fazer algo. Atchim!

“Só porque eu falei para não lavar o cabelo ela está dizendo tudo isso? Será que ela está de TPM ou é o instinto de autoproteção inerente ao sexo feminino e o de insatisfação perene das fêmeas falando mais alto que a razão e o bom senso?”

– Não preciso de um elfo, de um macho, para dizer o que tenho que fazer. Não tolero influências ou comentários. Eu só lavei o cabelo para ficar bonita para você.

– É que hoje tenho horário… –  Buscava Luz ser racional e descomplicado, além, é claro, de tentar acabar com toda aquela discussão impertinente e desagradável. Ainda pretendia passar alguns bons momentos com a bruxa má verborrágica antes de cumprir com os deveres de cidadão e de guardião do Mundo das fadas.

– Você não dá a mínima para mim, né? Só pensa nos seus horários! Eu me esforço, venho até aqui, fico bonita para você e não recebo um elogio. Também puderas, tive que sair correndo por sua causa, que não sabe esperar. Por isso o cabelo não está lá essas coisas. Mas você nem liga, só pensa em peito e bunda mesmo.

“Eu gosto dos cabelos também, mas os peitos e a bunda são insuperáveis. O resto é supérfluo e indiferente para a ótica masculina.” – Pensou sincero o elfo do coração bondoso.

– O cabelo está bonito. –  Tentou ser agradável o indefeso e encurralado elfo.

– Nem sei porque te dou atenção, você não me merece. Eu sou uma bruxa má independente, moderna e sofisticada e você um machista tosco que acha que pode interferir na minha vida e dizer o que tenho que fazer. Saiba que não vou aceitar isso, saiba que não vou ser submissa. – Parou, tomou fôlego e continuou. – Vou sair nas ruas e convocar todas as mulheres a lutarem contra a opressão, contra os padrões de beleza, contra a inferiorização do trabalho da mulher…

feminista

(meia hora depois)

… e contra as piadinhas machistas sobre as mulheres. Lembre-se que não somos objetos! Vamos sair às ruas…

“Será que ela vai mostrar os peitos na rua? Será que vai queimar sutiãs? Será que vai bater panela?” Perguntava-se constrangido o pobre elfo sem saber como se defender daquele conjunto de presunções, jargões, clichês, argumentos irracionais e lugares comuns. Naquele momento já não entendia o que a bruxa má vitimizada dizia.

– Sabe o que vou fazer? – Ameaçou Escuridão. – Vou te transformar em um porco, porque todo macho não passa de um porco! Circe já sabia disso há milênios atrás.– Berrou a bruxa má que partia do pressuposto que todo macho era machista.

A bruxa má invocou vários encantamentos e magias negras e antes que pudesse lançar o feitiço…

Morgan_le_Fay_(by_Gonzalo_Ordonez)_2

– Eu só queria ficar o máximo de tempo possível com meu amor. – Afirmou o sincero, romântico e tristonho elfo, vítima da fúria implacável do feminismo que vê maldade em tudo e que contaminava os pensamentos de Escuridão.

Envergonhada, Escuridão, que nunca perdoava ou esquecia antigas mágoas, pediu penitência e o distinto, clemente e bondoso Luz a concedeu.

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7 pensamentos sobre “Feliz dia das mulheres

    • Aurora disse:

      uma coisa hei de reconhecer: o Luz (seria o Jesus Luz da Madonna? :P) tem colhões…vamos ver por quanto tempo!!! *ao longe ouve-se a risada maligna de uma bruxa* 😉

    • Aurora disse:

      O que tem a ver o Harlem Shake com a história? A bruxa má parou de falar com o elfo e começou a dançar e sacudir os cabelos molhados? 😛

  1. Álvaro disse:

    Isso foi… machista.

    • Aurora disse:

      Nããão, imagiiiiinaaa…é tudo coisa da sua cabeça, você deve ter sido enfeitiçado pela bruxa má!!!! Ou então você, como ela, está com os pensamentos “contaminados pela fúria implacável do feminismo que vê maldade em tudo” *rs*

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