Dia das mães – Feliz dias da mãe (macabro) – Proibido para mães e pessoas sensíveis

Dia das mães.

Um grande alvoroço tomou conta da próspera cidade de Corinto.

– O palácio do rei está pegando fogo! O palácio do rei está pegando fogo! – Gritavam dez entre dez pessoas nas ruas da cidade grega. – Salvem nosso querido rei!

Duas crianças, em meio ao caos urbano, desceram correndo uma das ruas periféricas da cidade e entraram quase sem fôlego em uma das casas.

– Mamãe, mamãe, o palácio pegou fogo! Estávamos lá esperando a princesa se vestir e quando percebemos… – As crianças estavam agitadas, suadas e cobertas por fuligem.

– Xiuuuuu.

A mãe, tranquila, silenciou delicadamente a fala do filho que tentava explicar o ocorrido. Pousou o dedo indicador direito sobre os lábios da criança mais velha.

– Vão para cama. Precisam descansar. Vou pegar um remédio para que se desintoxiquem e um pano molhado para limpar a fuligem do rosto.

Antes de pegar o unguento e o pano úmido, a mãe fechou a porta da casa e depois olhou pela janela. Viu o palácio arder em chamas no topo da colina, de onde podia ser visto por toda Corinto.

A mãe, em seguida, pegou duas xícaras com o remédio e as levou até os filhos. Estes, apesar do gosto ruim, tomaram rapidamente o líquido. Estavam sedentos. Depois a mãe se levantou, molhou um pano grande e voltou para junto dos filhos ainda aturdidos.

– Vou lhes contar uma história. – Disse a mãe calmamente enquanto passava o pano molhado sobre a face das crias.

“Era uma vez, uma jovem e bela princesa, filha de Eetes, rei perverso da cidade de Cólquida, um lugar pequeno e decadente. A donzela, versada em feitiçaria, sentia-se muito infeliz e deprimida naquele fim de mundo, pois jamais encontrou alguém que a amasse, que lhe desse carinho, atenção e que não amaldiçoasse as artes mágicas que dominava. A solidão era a sua companhia e sabia que ela a levaria à morte, como normalmente acontece com pessoas solitárias.”

Tirou as camisas dos filhos e os deitou na cama, de forma a facilitar a limpeza. Haviam enfrentado graves apuros no palácio que agora era consumido pelas chamas.

“Entretanto, um dia, soube que um robusto e valente herói chegou à cidade em busca de um tesouro guardado pelo pai e por um dragão perigoso naquele fim de mundo.”

“Curiosa. Foi de encontro ao herói no porto em que estava ancorado o famoso navio do estrangeiro. Quando chegou ao ancoradouro, o herói e a tripulação estavam prestes a ser mortos pela vasta guarda real, quando a feiticeira interveio e, sabe-se lá porque artes, apaziguou os ânimos. Determinou que a guarda recuasse e que deixasse os estrangeiros em paz até o dia seguinte, data em que deveriam ir embora. O herói a agradeceu de inúmeras formas. Ele foi tão gentil e delicado que a dama resolveu escutá-lo mais e mais. Passaram horas conversando e o herói lhe contou as inúmeras aventuras porque tinha passado e contou porque precisava tanto daquele tesouro. Entre uma fala e outra, entre um olhar e outro e entre um gole e outro, ao final do dia, ambos se apaixonaram e se amaram. O herói fez juras de amor para a princesa.”

 

“Naquele dia, a moça perdeu a virgindade e jurou jamais ser vítima da solidão. Viveria em função daquele garanhão.”

A mãe olhava para o vazio.

“A nobre, na mesma noite, resolveu ajudar o herói a furtar o tesouro guardado naquela cidade.  E assim foi feito. Dirigiram-se para o local onde o gigantesco dragão guardava o tesouro. Chegando ao destino, a princesa fez o monstro dormir. Ao herói coube a árdua tarefa de matar o dragão. Pegaram o objeto colimado e partiram. À comitiva do herói se juntou além da princesa, o príncipe daquela cidade. Este jurou defender a irmã fugitiva, a quem sempre quis ser útil.”

Medeia e Jasão

– Mãe, não estou passando bem. – Disse uma das crianças.

– Está com febre. – Observou a mãe.

“Já em alto mar, a princesa e o herói tiveram outras tórridas relações sobre o aveludado tesouro dourado subtraído de Cólquida. A moiçola jamais fora possuída como naquela viagem. Tudo eram alegrias, tudo era bonito e feliz. O céu era mais azul, o mar mais brilhante, o vento mais quente, o sol mais luminoso… Todavia, a paz e o amor perfeito do casal foram rompidos, pois, no horizonte, surgiu a grande armada de navios de Cólquida. Liderando a esquadra assassina estava o rei, pai da filha e do filho fugitivos.”

“Os inimigos se aproximavam rápido da embarcação capitaneada pelo amor da princesa. Logo estariam todos mortos. A tripulação do herói se preparava para uma morte heróica, mas a mulher teve uma ideia. Esta se voltou para o irmão, que se chamava Absirto, e perguntou-lhe:”

 “- Jurou me defender. Manténs a palavra?”

“Absirto respondeu convicto que sim e imediatamente, a corajosa princesa sacou um punhal e enterrou no coração do irmão. Ele não teve tempo para reação. Enquanto Absirto agonizava, a jovem empunhou um pesado machado e esquartejou o irmão sistematicamente. Banhada de sangue e sem ajuda dos inúteis homens da embarcação, lançou as partes do corpo do irmão no mar, não sem antes beijar os lábios da cabeça decepada em sinal de agradecimento, pois finalmente ele havia conseguido lhe ser útil.”

medeia e o irmão

“A garota sabia que o pai respeitava as leis divinas. Sabia que certamente daria um enterro ao filho, apesar de também ser um fugitivo. Para cumprir o ritual fúnebre a que estava obrigado, o rei precisaria recolher os restos mortais espalhados pelo mar, cessando, portanto, a feroz perseguição. A princesa, o herói e a tripulação do navio, então, conseguiram fugir.”

“A princesa de Cólquida, assim, salvou o herói pela segunda vez, sem contar que o levou até o tesouro de que tanto precisava. Mas para ela, isso não signifacava nada, pois o que importava realmente era o amor que sentia pelo herói e que ele sentia por ela, algo que nunca teve. Nada era demais para tê-lo perto de si, tudo era insignificante quando confrontado ao amor”.

“Dias depois, ainda em alto mar, a tripulação do navio Argos passava desavisada perto da ilha de Creta, quando uma criatura metálica monstruosa atirou uma pedra contra a nave. Não fosse a perspicácia da donzela, que rapidamente empunhou o timão e mudou a direção do navio, o barco teria sido atingido e todos, consequentemente, teriam morrido esmagados ou afogados. Talos, a criatura metálica, irritada, pois não costumava errar, preparava-se para atirar outra pedra gigante nos forasteiros inoportunos, quando a princesa feiticeira, célere e para salvar não a si própria, mas ao companheiro, invocou os favores da deusa Hecate. Logo surgiram cãos infernais do fundo do mar. Os canídeos rapidamente atacaram e destruíram Talos antes que este pudesse lançar o derradeiro e letal ataque. Mais uma vez, a princesa havia salvado o herói e a tripulação de marmanjos.”

medeia e talos

– COF, COF.- O outro filho tossiu. Cospiu sangue. A mãe imediatamente limpou e continuou a história.

“Logo o casal, separando-se da tripulação, partiu para Iolco, na Tessália, onde o herói deveria entregar o tesouro, o Velocino de Ouro, e finalmente conquistar o trono de rei, coroando como rainha a prestativa companheira. Todavia o herói foi enganado e banido da ilha pelo tio. O velhaco chamava Pélias. Este havia matado os pais do herói e usurpado o poder.“

As crianças estavam ficando sem ar. Queimavam de febre.

“Todavia, a amorosa namorada do herói tomou para si as dores daquela vergonhosa e nefasta traição. Fez uma visita noturna às filhas do rei. Valendo-se de suas artes mágicas, a feiticeira, diante dos olhos atentos das filhas adolescentes de Pélias, matou um velho e esquálido cordeiro, esquartejou o bicho e jogou os restos mortais em uma caldeira. Depositou alguns condimentos mágicos no vasilhame e mexeu. Minutos se passaram e logo surgiu do caldeirão um jovem e robusto cordeiro. Cheio de energia e vigor. Belo e viril.”

medeia e Pélias lenda

Uma das crianças vomitou todo o remédio que havia tomado.

– Minha barriga, mãe. O medicamento.. – Tentava dizer inocente, enquanto lutava contra a dor insuportável no estômago.

“Depois do alvoroço e da surpresa das garotas, a bruxa e as moças acordaram que fariam o mesmo com o caquético Pélias. As jovens queriam ver o velho remoçado, pois caso ele morresse, o que não demoraria, face à avançada idade, haveria uma guerra civil em Iolco e o futuro delas seria incerto. Muita discussão, medo e insegurança acompanharam o sombrio grupo até o quarto de Pélias, mas a feiticeira manteve as garotas firmes no propósito, lembrando que elas seriam as maiores beneficiadas pela manobra. Chegando ao quarto, sob a luz fraca de uma vela, viram as expressões acabadas daquele velho moribundo. Todas empunharam um machado e, então, fizeram picadinho do velho. Logo, correram até o caldeirão e jogaram os restos mortais do velho ali. As garotas banhadas de sangue se retiraram. Pretendiam estar limpas e cheirosas para receber o pai revigorado e remoçado, mas quando voltaram, a maga não estava mais lá e do caldeirão nada saiu a não ser uma caveira assassina. A amante havia vingado o amado herói.”

Medeia e pÉlias

Convulsão.

“Jasão e a princesa chegaram ao exílio: Corinto. Lá viveram felizes por alguns anos. Tiveram dois filhos. Entretanto, um dia, o rei de Corinto ofereceu, por razões políticas, a bela e jovem filha, Creusa, em casamento a Jasão, bem como terras e o direito de o suceder. Além disso, deveria Jasão repudiar Medeia e os dois filhos. O cretino concordou. Chegou em casa e mandou a mulher embora com os filhos. Não o incomodou o fato de a companheira não ter para onde ir. Não o incomodou o fato de que uma mulher com duas crianças pequenas não teria chance alguma naquele mundo grego hostil, bélico e dominado por homens movidos por guerra. Acusou-a de diabólica e assassina. Chamou-a de relaxada, pois Medeia jamais conseguiu voltar a ter o corpo que tinha antes da gravidez. Não deixou que a furiosa esposa o agredisse. Derrubou-a no chão. A contragosto, jogou no piso poucas moedas para que a companheira e as crianças tivessem como partir imediatamente daquela cidade, asseverando que não se responsabilizaria pelas consequências da desobediência.”

A mãe pressionava a cabeça dos filhos contra a cama para que não caíssem no chão, visto que se debatiam de dor.

“Medeia, depois de ter se entregado a Jasão, depois de ter traído o pai e a terra natal para ficar ao lado daquele que amava, depois de ter matado o irmão, depois de ter salvo Jasão tantas vezes, depois de ter tomado suas dores, depois de o ter vingado, depois de ter dado dois filhos ao maldito, agora estava sendo repudiada. A demônia, assim, chegou à óbvia conclusão: vingança. Acabaria com os sonhos de Jasão, destruiria tudo que lhe fora prometido, dar-lhe-ia um futuro pobre e decadente diferente do que o cretino buscava e extinguiria os frutos do ingrato.”

Medea_by_stabstabstab

Os olhos dos garotos ameaçavam pular pelas órbitas.

“No dia seguinte, mandou que os filhos levassem um vestido para a filha do rei de Corinto e que só saíssem do palácio quando a jovem tivesse vestido o presente. Assim que Creusa colocou a roupa desgraçada, chamas surgiram e envolveram todo o belo corpo da jovem, bem como se espalharam por todo o palácio, matando os moradores, inclusive o rei de Corinto.”

 

A morte de Creusa

Veias negras, que partiam da barriga dos garotos, tomaram conta de todo o corpo. Subiam pelo pescoço, alastravam-se pelos membros. As crianças verteram lágrimas de sangue. A respiração era precária e angustiante. Gritos e gemidos se sucediam.

 

“Os filhos de Medeia voltaram correndo e assustados para a casa. A mãe, porque não queria que restassem quaisquer resquícios da passagem de Jasão pela Terra, porque temia que os filhos fossem esfolados e mortos pela população revoltada daquele até então próspero reino e porque ela havia dado a vida àquelas crianças, sentiu-se no direito e no dever de tirá-la. Fim”

Silêncio e inércia.

Medeia, mãe e filhos

Feliz Dia das Mães!

dia das mães gifmãe e filhodia das mães coração feliz dia das mãesdia das mães gatinhosdia das mães amor de mãedia das mães

5 pensamentos sobre “Dia das mães – Feliz dias da mãe (macabro) – Proibido para mães e pessoas sensíveis

  1. Aurora disse:

    Já que é proibido comentar via email (affff…): achei surpreendentemente e bacana, viu!!! não conhecia direito essa história. E sua ideia de espelhar – contar a história dentro da história – foi muito boa! Pena que vc. queira comentários de no mínimo 10 linhas, nao vou escrever mais que isso😉 kkkkkk

  2. Aurora disse:

    Quando eu me tornar mãe, escreverei uma história decente em homenagem ao dia das mães, aí sim, seus leitores descobrirão o que é um texto para datas comemorativas😛

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s