Luz e Escuridão – Telefone

Luz, o sempre objetivo, direto, conciso, pontual, claro, preciso e nada prolixo elfo, general do Mundo das Fadas, responsável pela monitoração dos movimentos dos orcs, inimigos crueis, implacáveis, violentos, desordeiros, embusteiros e traiçoeiros, chegou para mais um dia de trabalho.

elfo Luz

As águias gigantes do mundo das fadas eram incumbidas de enviarem informações e de transmitirem em tempo real a movimentação do inimigo. Luz, o poderoso e invencível guerreiro, quando não havia guerra, porque muito prestativo, adaptativo, determinado, solidário e trabalhador, auxiliava, gratuitamente, sempre pensando no bem estar do povo élfico, a agência de inteligência daquele mundo. Interpretava dados, apontava soluções e invariavelmente antecipava os movimentos do inimigo, isso porque era muito atento, observador, reflexivo e introspectivo.

Como naquele dia havia chegado um minuto antes de iniciar seu turno, resolveu usar este exíguo tempo para mandar um alô, breve, para a adorável Escuridão, a bruxa má. Educado, responsável, atencioso e apaixonado que era, queria marcar presença e demonstrar que sempre estaria ao lado de sua musa, e que nem na hora do trabalho, nem na hora de maior responsabilidade, nem mesmo na hora de zelar, tutelar, proteger, cuidar dos corações e almas daquele mundo, a esquecia. Evidentemente, tal ligação não era necessária, pois Luz e Escuridão se falavam, se comunicavam e se viam todos os dias, às vezes várias vezes ou por horas a fio. Luz ligou para o amorzinho porque gostava de ouvir a voz aguda e irritante da amada bruxa, mesmo que fosse brevemente, como exigia aquele momento. Sim, para infelicidade do adorável, porém responsável e antenado Luz, aquela ligação desnecessária, todavia charmosa, deveria ser muito, muito breve mesmo, menos de um minuto, pois, afinal de contas, a segurança do Mundo das Fadas exigia pontualidade e atenção extremas.

Luz discou o número do telefone da amada (666 666 666):

– Alô! – A bruxa má atendeu a ligação.

– Alô, docinho, só estou ligando para saber se está tudo bem. Dar um alozinho, sabe? Em vinte segundos começa meu turno e… – Respondeu o rápido e veloz elfo.

– Está sim, mas estou um pouco cansada. Sabe o que aconteceu? – Indagou a bruxa má.

– O quê?! – Perguntou Luz enquanto se sentava à frente do monitor, uma espécie de bolha mágica flutuante feita pelas fadas. Para sua tristeza, Luz percebeu que havia um movimento estranho de tropas orcs nas proximidades do leste do Mundo das Fadas.

– Então, tudo começou há três dias. Pela manhã vi uma notícia fantástica. Um torneio de bruxaria havia sido invocado. Mas eu precisava de inúmeros livros mágicos para estudar. Ai Luz, nem te conto. Sai igual uma louca atrás…

– Amorzinho, eu… – Luz tentava prestar atenção na movimentação do inimigo enquanto a beldade iniciava o épico.

Sem ouvir o namorado, Escuridão continuou empolgada:

– … de livros e poções mágicas. Havia prazo para eu me habilitar no torneio, competição, certame. Eu precisava correr, então tomei café. Asas de morcego, sangue de trolls, olho de urubu e… não, não era isso, espera… deixa eu lembrar. Eu comi…

Luz estava ficando angustiado. Infelizmente, o elfo sagrado só não tinha uma habilidade: a múltipla função. Não conseguia prestar atenção em duas coisas ao mesmo tempo.

– Escuridão… – Disse o elfo, mas mais uma vez não foi ouvido. Escuridão havia engatado a quinta marcha.

– Testículo de porco, isso, foi isso que eu comi, não foi olho de Urubu. Viu? Viu? Minha memória é boa ou não é? – Luz pensou em responder, mas Escuridão continuou:

– Voei até Hogwarts e nossa, tive que carregar vários livros, mas antes disso quase tive um piripaque. Você acredita que o bruxo não queria liberar os livros? Ficou assistindo ao jogo de quadribol na hora do expediente? Mas vê se pode! É uma pouca vergonha mesmo! Ainda bem que…

Em tom de voz alto, embora educado e paciente, como de rigor, Luz perguntou:

– Tá, mas o que aconteceu, você conseguiu tudo e voltou para a casa?

– Espera, espera que eu não terminei! Essa parte é interessante. – Respondeu Escuridão empolgada. – Tinha outra pessoa … mimimi mimimi (…) mais (…) mimimi.

Luz bocejou. O que fazer?

– No dia seguinte, madruguei. Você acredita que eu acordei às seis da manhã? Nem eu! – Escuridão respondeu à própria pergunta. – Estava cansada, não estou dormindo direito e ainda não chegou meu material. – Repentinamente, Luz ouviu outra voz ao fundo: era a mãe de Escuridão. Ambas começaram a discutir, pois havia controvérsia a respeito da chegada do material. Conversa vai, conversa vem, passaram-se cerca de cinco minutos. Luz dizia:

– Alô? Alô? Escuridão? Estou aqui! – Mas a bruxa má não o ouvia. Havia afastado o fone do ouvido. Luz teria que aguardar a discussão – que agora versava sobre um bolo – acabar. E assim ficou por mais alguns minutos até que em um momento de extrema felicidade, o elfo vistoso ouviu a bruxa má e a mãe tomarem fôlego ao mesmo tempo e deu um berro:

– OI!!! ALÔ!!! – Só então Escuridão se lembrou do amado. Voltou a falar de onde havia parado:

– Só que não é apenas este torneio, processo seletivo, prova, disputa. Há outro e estou ficando louca, maluca, doida, psicótica, lelé da cuca… Adoro sinônimos! Há outro torneio em Tristam e na Transilvânia. Não! Não! Eu falei Transilvânia, eu errei, viu? Viu? Estou ficando fora do ar! É na Tessália. Ah!!! É na Tessália. Onde eu estava com a cabeça? Me perdoa?! Me perdoa?!

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Luz pretendia perdoá-la e aproveitar para pedir que a ligação se encerrasse logo, pois a movimentação orc o preocupava, mas Escuridão não esperou a resposta dele e continuou a falar:

– Mimimi mimimi mimimi (…) Fiquei presa em um congestionamento (…) mimimi mimimi mimimi (…) Li Shakespeare enquanto esperava (…) mimimi mimimi mimimi (…) Perdi a bolsa (…) mimimi mimimi mimimi (…) Voltei desolada (…) mimimi mimimi mimimi

Luz largou o fone por alguns minutos. Precisava ver se a movimentação orc era perigosa ou não.

Caso fosse, coordenaria um ataque preventivo dos Paladinos da Noite. Os orcs pareciam se dirigir a uma das pontes que ligava Kalimdor ao Mundo das Fadas, entretanto, passados alguns minutos de angústia, constatou que não era nada de grave e pegou novamente o telefone. Escuridão ainda falava. Estava na sexta marcha.

– Mimimi mimimi mimimi (…) Ah, esqueci um detalhizinho (…) mimimi mimimi mimimi.

E o elfo místico passou a concordar com Escuridão, mesmo não prestando atenção no que ela dizia, enquanto pensava porque a bruxa má tinha necessidade de contar tudo, nos mínimos detalhes:

– Ãh (…) Tá (…) Ok (…) Hummm (…) Legal (…) Sim, sim, você tem razão… – Murmurava o elfo entre um intervalo e outro da fala de Escuridão, enquanto olhava para o relógio. – Havia passado quase uma hora.

– Mimimi mimimi mimimi (…) Mas ainda bem que eu fui boazinha com aquele hobbit, pois depois me ajudaram também. Vou contar, nos mínimos detalhes, o que aconteceu. É só uma digressãozinha (…) mimimi mimimi mimimi.

Luz tirou um cochilo:

elfo dormindo

Repentinamente e milagrosamente, Escuridão questionou:

– Seu turno já começou, né? Você deve estar com fome e precisando monitorar os orcs, né?

Luz imediatamente saiu do estado entorpecido em que se encontrava e se afobou:

– SIM!!! SIM!!! ESTOU COM FOME!! PRECISO MONITORÁ-LOS!!!!

Escuridão estranhou a reação do namorado, mas nada comentou sobre ela, apenas se despediu:

– Tá bom. Beijinhos! Amanhã a gente conversa mais. Ainda não terminei. TU TU TU

Bardo Assustado

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6 pensamentos sobre “Luz e Escuridão – Telefone

  1. Aurora disse:

    kkkkkk!!!!!! Tinha esquecido desta!!!! Quero ler mais histórias hilariantes do Luz e da Escuridão, meu par favorito de seres mágicos 😀 Talvez uma história que seja contada do ponto de vista da Escuridão fosse interessante 😉

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