Conto de natal… Não indicado para crianças e pessoas que acreditam no espírito natalino!

Papai Noel morava sozinho.

O velho na noite passada comeu toda a farta ceia de Natal.

– “Bah! Já pago salário mínimo para esse bando de duendes vagabundos. Não vou levar nada para eles.” – Pensou Papai Noel.

Passou mal a noite inteira.

– Quem precisa de Mamãe Noel? Posso viver sozinho. – Concluiu Papai Noel.

Precisou tomar vários remédios para aliviar a azia e o mal-estar.

O obeso Papai Noel rolou na cama para se levantar. Caiu no chão e lá ficou por algum tempo.

papai noel gordo

Finalmente levantou-se. Sem se dirigir ao banheiro, colocou sua roupa amassada de trabalho. Era véspera de Natal. Papai Noel precisava distribuir os presentes. Pegou o chicote gasto.

Lá fora, sob uma forte nevasca, estavam presas as renas do Papai Noel (Rodolfo, Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e Relâmpago), todas gripadas, mal alimentadas e doentes. Trovão, ao ver o Papai Noel, tentou atacá-lo, mas logo tomou uma chicotada.

– Você lembra o que aconteceu com Rodolfo, não é Trovão? Nunca se esqueça o porquê do nariz vermelho piscante dele! – Papai Noel apertou o chicote entre as mãos ameaçadoramente.

A rena recuou e se apaziguou sem esperança. Não queria que seu nariz fosse alvo do chicote.

– Ótimo, não tenho outro nariz piscante para te colocar. – Alertou Papai Noel.

O gordo Papai Noel subiu com muita dificuldade no carro puxado pelas renas e partiu para a fábrica de presentes onde trabalhavam vinte horas por dias os duendes Askasleikir, Bjugnakraekir, Faldafeykir, Stekkjarstaur, Gattathefur, Giljagaur, Gluggagaegir, Ketkrokur, Kertasnikir, Pottasleikir, Skyrjarmur, Stufur e Thvorusleikir. Como estava atrasado, pois preferiu ficar na cama se masturbando por horas, e como as renas estavam vagarosas em razão dos maus tratos, deu várias chicotadas nos bichanos durante a viagem.

Lá chegando, Papai Noel entrou na fábrica e todos os duendes se amedrontaram. O silêncio foi absoluto. Todos voltaram correndo para suas atividades. Muitos tremeram. Alguns queriam chorar, não aguentavam mais o assédio moral e o desrespeito aos direitos trabalhistas.

– Askasleikir, aquele carregamento de brinquedos vindos do oriente está pronto?

– Sim, Papai Noel. Está. Mas tivemos que vistoriar cada presente, pois percebemos que em alguns deles havia cartas de escravos pedindo socorro. Foi um árduo trabalho. Fizemos hora extra. Passamos dias sem dormir. – Revelou o exausto duende.

– Não pedi para fazerem isso e, portanto, não vou pagar horas extras.

Bjugnakraekir gritou desesperado:

– Eu vou te denunciar para o Ministério Público do Trabalho, cretino! Estou há um mês sem ver minha família. Eu tive que viajar por vários países para comprar alguns brinquedos usados e produzidos por mão de obra escrava ou de empresas que sonegavam impostos. – Caiu o duende doente aos pés do Papai Noel. O pequenino chorava copiosamente.

– Está demitido por justa causa e se me denunciar para o Ministério Público do Trabalho fecho essa fábrica, mando embora todos os seus amigos e sumo com todo o dinheiro sem deixar pistas. As crianças de todo mundo vão te agradecer, filho da puta.

papai noel do mal

E Papai Noel deixou Bjugnakraekir chorando no chão.

– Mas Papai Noel. – Interveio Faldafeykir espantado. – Se Bjugnakraekir sair, eu e os demais precisaremos trabalhar 23 horas e 20 minutos por dia para compensar essa saída.

– Reclame com Bjugnakraekir. A culpa por tudo isso é dele. Stekkjarstaur, Gattathefur e Giljagaur, venham para minha sala.

Papai Noel passou pela noelete de plantão, aquela que havia passado com louvor pelo teste do sofá.

noelete

– Algum recado?

– Ai chefinho, só sua ex-esposa deixou recado. Ela quer…

– Mamãe Noel quer o valor da pensão alimentícia atrasado e quer que eu entre em acordo sobre a divisão de bens. Sei bem o que a vadia quer. Aquela acomodada não vai ter nada de mim, a não ser o inferno. Ela que levante aquela bunda gorda e velha e vá trabalhar. – Interveio ríspido e amargo Papei Noel.

Papai Noel Stekkjarstaur, Gattathefur e Giljagaur entraram no escritório. Logo os três duendes discorreram sobre as práticas comerciais da fábrica e sobre projetos de novos brinquedos.

– Projetei esta boneca de pano e fiz alguns milhares de exemplares. É feita com material bom e barato, ecologicamente correto. Espuma… – Descrevia empolgado Stekkjarstaur quando foi bruscamente interrompido pelo interlocutor.

– Não! Nossos fornecedores contrabandistas não vão gostar. Precisamos de uma marca forte. As crianças de hoje só gostam de brinquedos “de marca”. Precisamos fazer um investimento de longo prazo para isso. Não estou disposto a mudar toda a linha de produção por conta disso. E bonecas de pano são coisa do passado. Jogue todas as bonecas no mar. – Determinou indiferente à questão ambiental.

Então foi a vez de Gattathefur:

– Papai Noel, eu retirei os controles dos vídeos games e os vendi no mercado informal, como você me orientou.

– E as fontes, CDs de jogos e cabos, você também retirou? – Questionou pedagógico Papai Noel.

– Ah é! – Exclamou o esquecido Gattathefur.

– Não se esqueça de fechar bem as embalagens. Não podemos deixar que as crianças percebam que já foram abertas. E também não se esqueça de depositar o valor da venda desses anexos na minha conta pessoal naquele paraíso fiscal… você sabe qual.

Chegou a vez de Giljagaur:

– Papai Noel, alterei as embalagens, os pesos e as medidas de alguns de nossos presentes para menos, sem alterar a indicação padrão nas informações sobre os brinquedos. Estendi também o prazo de validade de alguns presentes e diminui a indicação apropriada de idade de todos os presentes em um ano. Assim, podemos ampliar nosso campo de atuação e ganhar mais prestígio. Como fazemos milhões de brinquedos e presentes, mesmo pequenas alterações na quantidade e qualidade deles nos faz economizar muito no final de todo o processo. Você irá ganhar milhões!!! O Governo terá muitas dificuldades em fiscalizar tudo e quando tentar nos punir, terá passado tanto tempo que qualquer crime contra o consumidor estará prescrito.

– Ótimo. Giljagaur é o funcionário do ano. Vou colocar uma plaquinha lá na linha de produção. Agora volte ao trabalho e pense em outras formas de aumentar nosso prestígio e diminuir os gastos. Preciso comprar umas casas no Caribe.

papai noel mal

Logo apareceu Gluggagaegir portando o plano de voo de Papai Noel.

– Chefe, o plano de voo está traçado! – Afirmou Gluggagaegir confiante.

– Deixa eu ver. Não, não está bom.

– O quê? O que está errado.

– Não interessa. Chame Ketkrokur. Ele é mais competente.

Gluggagaegir saiu ultrajado da sala se perguntando o que tinha feito para merecer aquilo.

Ketkrokur entrou no gabinete já sabendo do que se tratava e em que ponto o seu amigo Gluggagaegir havia errado.

– Ketkrokur, refaça esse mapa, rápido. – Determinou imperativo Papai Noel.

Ketkrokur riscou do plano de voo de Papai Noel todos os países tropicais e pobres do mapa e assim terminou seu trabalho.

– Ótimo. – Afirmou satisfeito Papai Noel. – Ketkrokur faz jus ao salário mínimo que recebe.

Ketkrokur não sabia se Gluggagaegir era teimoso ou se esquecia de não colocar países pobres e tropicais no plano de voo do chefe. Papai Noel era xenófobo e odiava trabalhar no calor. Esnobava o fato de que aqueles países quentes e pobres comemorassem o Natal da mesma forma que os países ricos e frios. Sempre ria quando via sua figura polar em meio ao verão brasileiro, por exemplo. Gargalhava quando observava que pessoas de países onde sequer havia pinheiros naturais cultivavam o hábito de colocar pinheiros de plástico em suas residências. A tradição era alemã, oras!

feliz natal inverno

Enquanto Papai Noel meditava sobre a idiossincrasia dos países tropicais, Kertasnikir e Pottasleikir entraram no escritório e o primeiro sugeriu ao chefe:

– Papai Noel, com licença, tomamos a liberdade de vir para cá sem sermos chamado, pois tivemos uma ideia que talvez valorize ainda mais esta data.

– Diga. – Resmungou impaciente Papai Noel.

– Poderíamos dar livros para as crianças ao invés de presentes.

– HUAHUAHAUHAUHAUAHUHAUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA

– O quê?! – Surpreendeu-se Kertasnikir com a reação de Papai Noel.

– Crianças são burras, estão pouco cagando para livros.

– Mas livros são eternos e estimulam a mente. Fazem as crianças pensar e conhecer ou criar novos mundos. Fazem-nas crescer e descobrir. Aguçam a curiosidade e a inteligência. Brinquedos são supérfluos, não duráveis e enjoam facilmente. São muito limitados e não expandem tanto a inteligência como um livro. – Advogou Pottasleikir.

– HUAHUAHAUHAUHAU. – Gargalhou mais um pouco. – VAZA!!!!

Fora da fábrica, sobre uma nevasca terrível, Skyrjarmur cuidava das pobres renas antes que elas partissem para a árdua jornada. Cuidava das feridas abertas nas costas dos bichos, alimentava as companheiras e remendava o nariz vermelho da rena Rodolfo com fita crepe, pois Papai Noel se recusa a fornecer material novo para cuidar do singular nariz.

– Fiquem calma amigas. Ketkrokur já refez a rota. Vocês só vão passar pelos países ricos e vão ter que pousar apenas sobre as casas em que houver chaminés largas. A viagem será mais rápida do que era há alguns anos.

– De fato, o número de casas vem diminuindo, mas o tempo de trabalho não. Temos que esperar ele fazer aquelas “coisas” dentro da casa, enquanto os pais das crianças dormem… – Sussurrou envergonhado Cometa.

papai noel

Depois de jogarem apressados todos os presentes no trenó, os duendes Stufur e Thvorusleikir, exaustos, ainda precisaram levantar o velho obeso para que ele pudesse tomar assento na carruagem. Ambos tiveram muito trabalho para erguer a bunda flácida e fedorenta do Papai Noel, mas, enfim, conseguiram. Assistiram, então, Papai Noel decolar para mais uma feliz noite de natal.

trenó do papai noel

Feliz Natal!

feliz natal efeliz natal

A inspiração para este post, retirei daqui, rs. Não sei quem fez, mas ficou legal!

papai noel

Veja outro conto de Natal aqui.

7 pensamentos sobre “Conto de natal… Não indicado para crianças e pessoas que acreditam no espírito natalino!

  1. Clara disse:

    “Nunca se esqueça o porquê do nariz vermelho piscante dele!”

    AUHHUAHUAHUAUHAUHAUHHU!!

  2. arthurmelee disse:

    o alguem pode me dar um exemplo de panteão menor?

    • Adonis disse:

      Eu entendo por “panteão menor” aquele pouco estudado ou popular como o gaulês, o inca, alguns do leste europeu (ex: armênia), de aborígenes ou indígenas etc.

      Veja: http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_mitologias_conforme_a_origem

      • arthurmelee disse:

        ata eu entendo por uma mitologia que poucas pessoas conhecem depois eu vou ler com mais calma e que eu tolendo as cronicas dos kane e depois vou ler melhores historias da mitologia egipipcia e depois vou ler as melhores historias da mitologia japonesa e agora eu to passando quase a tarde toda na picina na casa da minha vó

      • Adonis disse:

        É isso garoto! Leia e estude bastante hoje que será um grande homem no futuro.
        Abraços!

  3. Aurora disse:

    isso, aproveite este belo período da vida lendo livros à beira da piscina na casa da vó, você vai sentir falta disso um dia…é um privilégio que poucos têm, ou tiveram.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s