Luz e Escuridão em: o conv…bilhete de ônibus

Não obstante as diferentes opiniões e a distância que (ainda) os separava, o elfo Luz e a bruxa Escuridão haviam afinal conseguido juntar suas economias e comprado o que seria seu futuro lar no mundo das fadas – a meio caminho entre suas respectivas antigas residências (lembremos que o fogoso elfo vivia numa grande árvore morta e entalhada num local privilegiado, bem no centro do mundo das fadas, onde viviam centenas de outros elfos, enquanto a pobre bruxa má vivia a muitos quilômetros dali, num local ermo e periférico, o que condizia com sua condição social, altamente desvalorizada, de bruxa-mestra. Apesar de detentores de saberes milenares, os bruxos-mestres eram absurdamente depreciados, tripudiados e até motivo de chacota naquele tipo de sociedade, que privilegiava a aparência ao invés da essência).
Luz, de início, se demonstrou frio e até meio entediado com relação ao negócio que selaram, mas felizmente logo percebeu que o local era um verdadeiro Paraíso, com direito à cantoria constante dos mais belos seres plumados. Escuridão não podia usufruir de tal comodidade por ora, pois seu ofício a levara para ainda mais longe, Bruxulândia, onde atuaria provisoriamente, codividindo seus saberes, leituras, encantamentos, feitura de poções, dentre tantos outros espantosos talentos com jovens que a desprezavam e ali se encontravam apenas e tão somente pelo mero futuro título de sub-bruxos.
bruxa escuridão =p

 

Agora, meses após terem adquirido conjuntamente o primeiro imóvel, marcaram a data do evento mais importante que aconteceria no mundo das fadas no ano seguinte: seu enlace matrimonial.

 

decoração
Certa da importância da família na vida de ambos, e depois de uma longa espera, Escuridão finalmente foi conhecer as raízes do belo e justiceiro noivo. Passou um fim de semana (de quarta a sexta, mas para ela pareceu um fim de semana, tamanho foi o prazer!) na afastada – moravam num jardim em meio a uma floresta de pinheirinhos – residência dos Luzes (eles eram conhecidos como Iluminati, mas consideravam este nome deveras pedante, tendo adotado um equivalente, o mais popular do mundo das fadas). Tal visita foi extremamente bem-sucedida, repleta de conversas agradáveis, risos, fotografias (Escuridão ficou simplesmente encantada ao ver um Luzinho fofo, amável, socializando com outras crianças-elfo, brincando, fingindo ser musculoso, andando de biciclelfo, segurando a irmãzinha menor no colo, pentelhando a outra…) e bolo de chocolate, do jeito que Escuridão amava! O tempo ali parecia passar mais devagar, os dias rendiam e eram muito gostosos, ainda mais por estar novamente ao lado do ser amado e das pessoas que ele mais amava.
elfo luz =)
Mas, como tudo o que é bom eventualmente acaba, também estes dias chegaram ao fim, e o casal enamorado precisava retornar à rotina corrida e cinzenta do centro do mundo das fadas. Luz retomaria a vigia e caça aos orcs; Escuridão, por sua vez, passaria as próximas semanas (supostamente de “férias”) correndo para cima e para baixo providenciando os preparativos para o grande dia do ano seguinte – sempre acompanhada pela mãe, a brelfada-mor do reino, Nácar, pois Luz considerava-se talentoso demais para lidar com coisas tão mundanas (tsc, tsc). Por conta de tantos compromissos casamenteiros – e apesar, ou por causa!, da falta de interesse do elfo -, Escuridão havia adquirido um novo hábito, comum a mulheres assoberbadas (as assoberbadas pelas tarefas domésticas só falam do lar; aquelas que tornaram-se mães recentemente falam muito, senão exclusivamente, sobre os filhos, e assim por diante): falava o tempo todo sobre coisas relacionadas a casamento, chegando inclusive a trocar uma palavra – ingresso – por outra, relacionada ao universo “casamentício”: convite. Bastou um pequeno deslize, uma única vez em que seu sobrecarregado cérebro falhou, para que Luz empregasse uma das características mais marcantes de sua personalidade: a pentelhice😛 Agora tudo tornara-se “convite”: bilhete, ingresso, etiqueta, nota, carta, mensagem, aviso. Escuridão teria que ter paciência pelos próximos…vários anos! Oras, ela não tinha culpa se fazia de tudo para que as coisas saíssem a gosto – cuidou inclusive para que o salão de festas ficasse relativamente aconchegante e escuro – pois Luz, apesar do nome, adorava a escuridão!, enquanto Escuridão preferia e desejava ambientes que irradiassem fulgor até cegar. Fez questão de que o local onde casar-se-iam fosse preenchido por bambus mussos e árvores fênix, novamente pensando no bem-estar do amado, que adorava a fênix, a natureza e que provavelmente sentir-se-ia claustrofóbico num ambiente sem janelas.
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Bom, voltando ao que interessa: o pai de Luz teve a cortesia de levá-los até a floresta mais próxima em que houvesse resquícios de civilização, para que, de lá, os pombinhos pudessem pegar um ônibus rumo ao mundo das fadas. Chegando ao local propício para tal, perceberam não apenas que teriam que gastar uma hora de suas preciosas vidas aguardando o próximo veículo – Escuridão, entretanto, não se importava com isso, desde que estivesse ao lado de Luz -, como ainda por cima teriam que viajar separadamente, pois não havia dois assentos juntos. Nada pior do que viajar apartada do ser amado, mas bruxa tampouco se importou com isso, pois no mundo dos elfos, bruxas e fadas felizmente há flexibilidade suficiente, sempre se pode conversar com terceiros e pedir para que alguém ceda um reles lugar para um casal apaixonado.
jeitinho brasileiro três
Para sua felicidade, ao adentrar o ônibus – ugh, tinha ar artificial ao invés de janelas com brisa natural – Escuridão logo notou dois assentos vagos, um ao lado do outro, exatamente como havia desejado! Ela era foda, seus desejos se tornavam realidade mesmo quando estava longe de seu caldeirão, feitiços e livros. Sentou-se leve e feliz como uma borboleta no local predestinado a ser do par quando, de repente…
– “Sai daí, sua bruxa!!!!”
Não, não era um estranho, um mal-educado qualquer nem algum tipo de ser mal-humorado que se dirigia a ela em tom tão ríspido. Completamente boquiaberta, Escuridão não sabia como reagir frente à grosseria do amado. Não entendeu nada.
– “Amor…sente-se aqui, olha, podemos finalmente viajar juntos pela primeira vez…”
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– “NÃO!!! Saia já daí. Não podemos sentar aqui. Larga a mão de ser igual a todos os cidadãos do mundo das fadas e sente-se no lugar correto, demarcado na sua passagem!”
Mais confusão na mente da bruxa…ela não era cidadã do mundo das fadas? Claro que sim. Por que ele desejaria que ela se comportasse de modo estrangeiro? Já não bastava a temporada de 6 meses passados no exterior? E por que tanta agressividade? E qual o problema?
-“Mas…não tem ninguém aqui…”
– “Não interessa. Sentar aqui não está de acordo com a lei!”
– “Lei?? Mas…tem lei falando que não se pode sentar onde não tem ninguém?”
– “Escuridão, você está errada e ponto final, vamos, saia!”
A bruxa começou a sentir uma onda de sentimentos familiar…no pior sentido. Tentou, mais uma vez, fazer Luz compreender seu ponto de vista:
– “Amor…você está me fazendo sentir mal com relação a algo banal. Não estou fazendo nada de errado.”
O que Luz não sabia – e nem deveria saber – é que Escuridão Já havia tido discussões similares antes…com seu pai. E com o ex-namorado gringo. Ela compreendia – mas não aceitava – que para alguém de outra cultura esse tipo de coisa talvez fosse incompreensível, mas agora estava tendo um momento déjà-vu com um elfo nativo?!? E justamente a respeito de um aspecto que parecia irrelevante, mas que a irritava profundamente pois se tratava de algo maior do que simplesmente um assento no ônibus…o elfo continuava insistindo:
– “Claro que está! É moralmente errado. Aliás, é errado moralmente, psicologicamente, criminalmente e em todos os outros sentidos!!! Se sentarmos aqui seremos foras-da-lei!!!!! Isso é inconcebível para um ser superior como eu, defensor da lei e da ordem, da moral e do progresso”.
– “Mas…já que você não quer ficar aqui porque na próxima parada vai entrar um monte de gente, é só conversar com alguém agora, explicar que somos um casal, pedir para alguém ceder um lugar para nós…eu já fiz isso incontáveis vezes, e nunca morri por isso! Inclusive já viajei em uma vassoura extremamente desconfortável porque um casal pediu a minha emprestada…”
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– “Foda-se!!!!! Sou orgulhoso! Não vou pedir favores. Muito menos a estranhos! Não vou me rebaixar conversando com gentalha!”
– “Tá. Mas qual o problema de a gente ficar aqui? Quando – ou se! – chegarem as pessoas que compraram estes assentos, explicamos direitinho…”
– “NÃO!!!!! E se for um casal também??? Não vamos separá-los!!!!”
– “Mas talvez não seja um casal…talvez seja mãe e filho, mãe e filha, pai e filho, pai e filha, duas amigas, dois amigos ou, ainda, duas pessoas totalmente desconhecidas! Vamos nos separar por causa de estranhos, ou de pessoas que não fazem questão de viajar juntas?”
– “SIM!!!! Compramos estes dois assentos separados porque eram os únicos disponíveis. Aceitamos isso ao comprar e ponto final!!!!”
A cada minuto que passava, Escuridão ficava mais perplexa e revoltada com relação ao elfo. Ele estava mostrando seu lado ogro mais uma vez – eram raras as vezes, mas ela odiava esse lado dele, o lado obscuro, ditatorial, arrogante, anti-social e absolutamente inflexível. Estava prestes a chilicar, a conjurar os piores feitiços para fazê-lo calar-se ou mudar de opinião por força bruta, mas lembrou-se dos sermões de sua mãe, durante os quais a matrona-mor reiterava que chilicar não leva a nada; que devemos racionalizar as coisas e nos manter frios e calmos ao invés de retrucar verbalmente de modo rude, por mais que estejamos certos, pois ao partir para a ignorância perdemos a razão; que aspectos negativos de relacionamentos fracassados devem servir de lição para que os futuros dêem certo; que moças devem ser fofas e educadas e, finalmente, que comparar pai ou ex-amado a amado atual não tem cabimento, etc. etc. etc. Apesar de não concordar com todos os pontos levantados pela mãe, sabia que precisava aprender a controlar-se melhor, e que Luz, apesar de aparentemente calmo e aparentemente racional, estava se comportando de modo totalmente irracional e adorava barraco. Não ia dar esse gostinho a ele, ainda mais agora, momento em que ele estava arruinando a primeira viagem do casal, viagem esta que deveria ser tranquila e romântica, pois estavam, enfim, a sós. Desistiu de chilicar ou passar sermão nele. Aliás, desistiu de qualquer coisa, inclusive de viajar ao lado dele. Pensava consigo mesma: “Não faz questão de sentar ao meu lado??? Ótimo, porque agora quem não quer se sentar ao seu lado sou eu!” – a bruxa estava fumegando de raiva por dentro. Sorte que havia resolvido não se metamorfosear em dragão…
bruxa escuridão
Por isso, quando, após terem deixado os dois assentos vazios e tomado seus assentos “corretos”, em fileiras diferentes, um atrás do outro, Escuridão não mexeu um dedo para trocar de lugar com alguém. A esta altura estava feliz, pois a última pessoa com quem queria contato visual – ou qualquer outro tipo de contato, aliás – era o elfo. Ficou ainda mais feliz – pois o elfo veria que ela estava coberta de razão – quando o ônibus parou, e no assento em que haviam estado, sentou-se uma mocinha. Após um minuto, veio outra mocinha e pediu licença à primeira. Eram completas estranhas. Teriam compreendido perfeitamente e se bobear teriam sorrido se tivessem deparado com o casal em seus assentos. Mas não, Luz não quis porque era “errado”.
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Pombas, o que era o conceito de “errado” para ele?? Para a bruxa, errado era matar, roubar, trapacear, trair, ser infiel…atravessar fora da faixa de pedestres quando não havia carro não era errado. Atravessar a rua com o farol de pedestres vermelho sem sinal de carro algum em lugar algum não era errado. Sentar-se em lugar diferente do delimitado no cinema, no ônibus ou no avião não era errado, desde que a pessoa a que o assento estava originalmente destinado não objetasse. A demarcação de assentos, a faixa de pedestres, o farol, são meras convenções, e ainda por cima recentes, cujo objetivo é ordenar a vida e/ou torná-la mais segura, mas que são completamente inúteis em certas condições – como na ausência de pessoas ou de carros! Sem contar que convenções são infinitamente menos importantes que pessoas – então quer dizer que tudo bem se um carro passar por cima de um pedestre porque ele está fora da faixa? Tudo bem matar um ser humano porque o farol está verde para você e vermelho para ele, afinal, você está seguindo a lei, e ele não???? Escuridão viu em Luz a mesma característica que havia observado nos habitantes do país estrangeiro em que havia habitado anteriormente: total e completa inflexibilidade. Foi essencialmente isso que a fez desistir do relacionamento anterior, e a fez perceber que não havia gostado tanto assim do país estrangeiro…pois ali tinha um quê de fanatismo, autoritarismo, fascismo. Foi ali que percebeu o quanto amava sua terra natal. Sim, é verdade, essa terra, o mundo das fadas, tinha e tem milhares de problemas, a maioria dos quais decorrentes de falta de educação e do desrespeito às leis e às convenções, decorrentes da corrupção e de pessoas que se consideram exceções às regras e que acham que não tem problema agir assim, de modo desonesto…mas nada disso se aplicava a tantas e tantas situações vividas e observadas na terra brasilis(antigo nome do mundo das fadas). O bacana aqui era a percepção de que as pessoas são mais importantes que qualquer lei, regra ou convenção. Leis, regras e convenções não são “naturais”, são elaboradas por pessoas e para pessoas, e não contra elas! E, sobretudo, podem e devem ser revogadas ou modificadas constantemente, conforme a situação exigir, e sobretudo, se as partes envolvidas forem adultas, responsáveis e dialogarem entre si.
jeitinho brasileiro
Escuridão pensava nessas e em outras questões, e em como – ou se – iria abordá-las e compartilhá-las com seu amado. Ela se sentia magoada…sabia que Luz havia pensado mal dela. Era provável que ele estivesse mentalmente comparando-a a pessoas mal-educadas e aproveitadoras, que querem tirar vantagem dos outros, pessoas que seriam capazes de tudo para se beneficiar, nem que para isso precisassem prejudicar outrem…Escuridão nunca foi assim, e ele deveria saber disso. Estavam prestes a se casar e ele ainda não a conhecia? Estavam prestes a se casar e ele não fazia questão de passar tempo ao lado dela? Justo agora, que estavam morando em lugares diferentes e se viam tão pouco? Tudo bem, a viagem seria de curta duração, uma ou duas horas, mas mesmo assim…o que mais doía era pensar que, mesmo se o ônibus inteirinho estivesse vazio, Luz teria feito questão de que sentassem em seus respectivos – e separados – lugares. Ai, que raiva!!!! A bruxa bufava internamente. E aí…
elfo luz lindo
…sentiu uma mão que acariciava sua cabeça. Como num toque de mágica, todas as questões, a mágoa, a raiva, tudo sumiu e só restou o amor que sentia por ele. Devolveu as carícias por cima do banco do ônibus, e assim permaneceram até o destino final.
bruxa escuridão ...
Texto escrito pela colaboradora: aurora

3 pensamentos sobre “Luz e Escuridão em: o conv…bilhete de ônibus

  1. Adonis disse:

    uma bela defesa do jeitinho brasileiro kkkkkk

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