Dia das mulheres – 08 de março

Sabe, as pessoas mudam e o mesmo vale para as bruxas, pelo menos eu penso assim. Vou contar minha história. Tive uma infância difícil. Meu avô Perses batia na minha avó Astéria enquanto ambos cuidavam de mim. As agressões gratuitas ocorriam como se eu não estivesse ali. E tudo isso havia começado com simples xingamentos e com o desrespeito ao corpo de minha avó. Astéria era inferiorizada pelo simples fato de ter o mesmo sexo do que o meu. Fiquei traumatizada. Passei a odiar o sexo masculino. Seus representantes são brutos e machistas. Menosprezavam o sexo feminino apenas por ser e pensar diferente deles.

 

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Meu avô também não respeitava a vocação de minha mãe: a bruxaria. Queria que Hécate fosse como Apolo ou Ártemis, primos dela, filhos de Leto. Segundo ele, se ela podia manifestar poderes divinos, por que ser uma bruxa? O velho dizia que era ridículo minha mãe ser a deusa protetora das famílias, mas ser solteira. Nossa, que paradoxo! Um verdadeiro absurdo! Ironias à parte, Perses era intolerante e estúpido. Quando brigava com Hécate cuspia milhares de gotículas na face dela com seus berros. Que nojo!

 

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Quando cresci e entrei na puberdade, percebi outra vertente nefasta do sexo masculino: os deuses e os homens olhavam para mim como um objeto. Parecia que só meus peitinhos empinados existiam. E meus sentimentos?! Ficava constrangida, pois notava que eu não existia ou não era importante para eles. Usava sutiãs bem apertados para que eles não pudessem vê-los empinados. Porém, meus peitos doíam e toda essa situação contribuiu para eu odiar ainda mais o sexo oposto. Menosprezava os garotos. Os jovens machos não eram dignos de minha atenção. Eram bobos e oportunistas, olhavam-me como se eu fosse um mero pedaço de carne e pensavam devagar. Burros! Fiquei com mais asco. Afastei-me por completo dos garotos. A ignorância deles era tão grande que me chamavam de lésbica, gay, homo, emo, esquisita e metida.

 

Não, eu não era metida, oras! Eu tinha minhas razões. Minha mãe me convenceu a dar uma chance para o sexo oposto. Aproximei-me do menos idiota e nojento e comecei a conversar com ele. Gostei e me afeiçoei ao rapazola. O pau dele fazia mágica quando eu estava chateada. Já fazia planos para compartilhar minha vida com aquele rapaz e cheguei a admitir que estava errada com relação ao sexo masculino. Pelo menos um se salvava. Passei a defender a tese de que não podíamos generalizar e blá blá blá. Abri-me e contei tudo sobre mim para ele. Contei até coisas que nem mesmo para minha mãe eu contava. Eu me sentia segura com ele. Estava apaixonada.

 

Entretanto, um dia notei que o comportamento dele mudou. Estava mais arredio e por vezes fugia de mim. Era evasivo. Investiguei-o e descobri que ele estava saindo com uma sereia de fartos seios, muito mais bonita do que eu. Aquelas sereias tinham péssima reputação. Ser trocada por uma vagabunda eu não admiti. Os bruxos deveriam pensar com o coração, não com o pau. Bandido!

 

Queria me vingar de alguma forma. Era uma vontade que vinha de dentro. Corri para a biblioteca da minha mãe e estudei magia negra. Descobri uma mágica bem interessante. Ela transformava pessoas em animais. Dependendo do caráter que cada pessoa tinha, ela seria convertida em um determinado animal. Assim, por exemplo, se Adônis fosse vítima da magia, seria transformado em um tigrão, se fosse um maloqueiro o objeto da magia, seria convertido em um gambá, se fosse um homem inteligente, seria transformado em um golfinho, se fosse um herói, seria transformado em um leão, e se fosse um homem que pensasse com o pau, seria transformado em um porco. Dito e feito. Meu namoradinho transformou-se em um porco. Pensava com o pau. Pouco se importava com os meus sentimentos. Lamentável.

 

Depois disso, sobreveio uma profunda depressão e quando dela me recuperei, declarei guerra ao sexo oposto. Fundei entidades feministas, publiquei livros teóricos feministas, fiz grupos de estudos, queimei sutiãs e persegui sereias vagabundas – só parei de importuná-las quando fiquei sabendo que elas devoravam seus parceiros depois que deles se enjoavam. Virei fã das sereias.

 

sereia

 

Eu não aceitava que mulheres, ninfas ou deusas se comportassem como vagabundas, com exceção das sereias. Criei uma doutrina e manuais de instruções para mulheres, ninfas e deusas. Não queria dar moleza para homens, centauros e deuses. Todo ser com um pênis deveria respeitar o sexo feminino e tratá-lo igualmente e com respeito. Não seríamos mais vistas como um mero par de seios. Eu queria colocar mulheres, náiades e bruxas em cargos políticos, no controle das famílias e de atividades privadas, como a mercancia e a guerra, à razão de 50%, pelo menos. Eu queria que a riqueza fosse partilhada igualmente ou que houvesse uma compensação pelos últimos milênios de opressão.

 

Entretanto, minhas convicções acabaram afastando de mim várias mulheres, mesmo aquelas que eu defendia e que no início me apoiaram. Chamaram-me de radical e mulher-macho; mal comida! Ninfas e nereidas diziam que bastava a liberdade e refutavam totalmente a doutrina feminista. Diziam que meu feminismo era apenas o reverso do machismo. Então eu respondia que não, pois o nosso feminismo não matava ninguém. Nada adiantou. Sem apoio, apelei. Tirei a camisa e fiz protestos mostrando os peitos. Só assim consegui chamar a atenção de milhões para minha causa. Mas o tiro saiu pela culatra. A sociedade pudica me condenou. Os seres femininos me olhavam com reprovação e não aderiram à causa. Tinham inveja dos meus belos seios. Os seres masculinos paradoxalmente eram o meu maior público, mas não entendiam uma só palavra do que eu dizia. Apenas olhavam para meus seios. Ficavam hipnotizados. Fui presa várias vezes.

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O efeito dos seios expostos passou e nada mais produziu a não ser dor de cabeça para mim. Voltei para a minha ilha e me fechei para o mundo.

 

Mesmo isolada e mal vista, eu mantive a certeza de que eu estava certa e de que toda a sociedade estava errada. E tal convicção foi arrimada por dados que eu própria colhi em minha ilha, Eana. Décadas e séculos se passaram e milhares de homens desembarcaram em minha ilha. Eu enfeitiçava todos. A princípio eu queria bichinhos de estimação. Precisava de muitos animais para enfrentar a solidão da ilha, pois não gostava de machos e as fêmeas não me atraíam sexualmente. Infelizmente quase todos se transformavam em porcos. Fiquei estarrecida e decepcionada, mas isso me deu uma ideia.

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Já que todas as minhas manifestações feministas anteriores não deram certo, resolvi dar ares científicos para meu feminismo. Fiz um levantamento sobre o assunto com o fim de publicá-lo em todos os templos da Grécia. Cerca de noventa e nove por cento dos homens se transformavam em porcos!

circe e porcos

Um dia antes de concluir e entregar meus estudos para publicação, minha mãe, Hécate, chegou à minha ilha acompanhada de cem mulheres, de diferentes partes do mundo. Disse para eu fazer o encantamento nelas. Fiquei constrangida. Eram mulheres! E como mamãe sabia dos meus estudos científicos? Tentei resistir e argumentar. “Mãe, eu sei que haverá muitas mulheres convertidas em porcas, mas a proporção será ínfima. Somos melhores que os homens e deuses ou qualquer criatura do sexo masculino.” Mamãe mesmo assim sugeriu que eu fizesse o experimento com as mulheres. Disse que meu trabalho de ciências estaria mais completo e seria imparcial. Asseverou que tanto um sexo como outro deveria ter um tratamento parelho.

 

Pois bem. Fiz como mamãe sugeriu. Enfeiticei todas as cem mulheres. Para minha felicidade, nenhuma se transformou em porca. Mas para a minha infelicidade, trinta e duas viraram galinhas, outras vinte e duas se converteram em antas, mais vinte em víboras e outras vinte e cinco se transformaram em bichos preguiça. Apenas uma se transformou em coruja.

 

Minha mãe demonstrou que a proporção era a mesma e que apenas um por cento das criaturas, independente do sexo, eram distintas e faziam diferença para a humanidade. Explicou-me, entretanto, que essa proporção aumentaria com a elevação do grau de instrução da Humanidade e arrematou dizendo que eu havia trilhado o mesmo caminho da intolerância e sexismo de muitos machistas por aí. Minha mãe concluiu que só a educação pode acabar com a violência, a intolerância e as desigualdades entre os sexos, as raças e os credos.

 

Mamãe parecia ter razão. Certamente ela se transformaria em uma coruja caso fosse atingida por minha mágica. A lição de minha mãe me fez cair em depressão novamente, pois cheguei à conclusão de que fui muito idiota por muito tempo… Só consegui sair desse estado depressivo depois que descobri uma nova magia. Esta convertia suas vítimas em objetos que elas próprias escolhiam. Resolvi testar tal magia nos navegantes que sempre apareciam por ali, a esmagadora maioria masculina. Perguntava para homens e ciclopes que objetos eles gostariam de ser. Alguns diziam que se transformariam no que eu quisesse, principalmente quando eu estava com um decote profundo. Outros diziam que seriam meu banquinho, meu penico, minha calcinha, meu sutiã ou mesmo o meu vibrador. Passei a admirar a imaginação dos homens e a particular característica de não pensarem quando estavam excitados. Um disse que queria ser meu absorvente hahahaha.

 

No começo fiquei reticente, mas com o passar do tempo e como os visitantes insistiam muito, mesmo sendo avisados por mim de que eu era uma feiticeira e que eles realmente se transformariam em objetos, passei a atender o desejo deles e assim mobiliei toda minha casa e a de minhas amigas também; depois acabei abrindo uma loja de R$1,99. Também abri uma rede de lojas só de móveis. Não me olhem com essa cara! Não tenho culpa que eles não acreditaram em mim e que pensaram com a cabeça de baixo, oras bolas.

 

Não sabia que tinha tanto poder assim entre minhas pernas. A mera expectativa dos homens de que elas fossem abertas os fazia falar besteiras e me servirem por toda a eternidade como objetos. Se eu soubesse disso antes, eu estaria mais rica e confortável do que estou hoje e não teria passado nervoso na minha infância, puberdade e juventude.

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Quando minha mãe soube o que eu estava fazendo com os homens visitantes, ela pediu para que eu fizesse o mesmo com as mulheres, mas estas, depois de avisadas de que a magia seria eterna, desistiam. Falei para minha mãe que as mulheres e ninfas são mais espertas.

 

Você pode até estar pensando que deixei de lado metade da matéria prima existente no mundo ao avisar as moças do que ocorreria com elas, mas nem me importo, pois normalmente elas queriam se transformar em objetos inúteis para mim e de pouca utilidade para a maioria das pessoas, como pedras preciosas, espelhos, loções, hidratantes, shampoo, batons, rímel, fantasias, saias, escova de cabelo,estatuetas, vestidos de noiva etc. Nada que pudesse ajudar a fazer desse mundo um lugar melhor.

 

Enfim, essa é a minha história com o sexo oposto, de inimiga, passei a grande admiradora. Sou uma prova viva de que as pessoas, e bruxas, mudam.

 

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2 pensamentos sobre “Dia das mulheres – 08 de março

  1. André de Figueredo disse:

    Mano(ou mana sei lá) gosto muito desse blog tudo nele é bom e as opiniões que você têm,bom eu gosto muito porque são muito semelhantes as minhas parabéns mesmo.
    PS: desculpe o comentário longo é porquê sou novo no blog e se eu comentasse nos posta antigos VC n responderia abraço.

    • Adonis disse:

      Sou mano, mano. Valeu pelos elogios. Gosto de escrever aqui, embora disponha de muito tempo no momento. Comente à vontade, mesmo os posts antigos. Fico feliz quando comentam, mesmo quando criticam o que eu escrevo. Abraços!

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