Feliz Natal – Desabafo do Papai Noel – Texto depressivo e antinatalino. Não leiam!

“Mais um Natal chegando…

natal papai noel cansado

Estou cansado disso.

Sempre a mesma ladainha.

“É pra vê ou para comê”.

natal é pra ve ou pra come

Haja saco! Não sei quantas vezes escutei essa piada cretina. O pior é que preciso sorrir ou rir para não passar por antissocial. Seria insultar o infeliz que soltou essa pérola desgastada se eu pedisse para que ele parasse de ser bobão. Mas o pior é que, às vezes, sou obrigado a fazer a “piada”. Sabe, fico ansioso. Preciso que essa piada seja dita logo, pois enquanto ela não é proferida fico apreensivo. Parece uma maldição.

Natal é a época certa do ano para ser hipócrita. Obrigação de visitar várias pessoas que você não quer ver. Ser obrigado a compartilhar aquele espírito natalino idiota.

https://www.youtube.com/watch?v=ioECIvA_ksA

Ouvir orquestras com cantos natalinos patrocinadas por Bancos que cobram taxas extorsivas do consumidor e que auferem lucros bilionários semestralmente, enquanto a economia do mundo patina. Sou obrigado a ver religiosos comemorando o nascimento (ou renascimento? Sei lá) de Jesus. Para tanto, obrigam-se a trocarem presentes caros e descartáveis. Mais roupas vou ganhar? Não aguento mais. O pior é que se você não der um presente, ficará marcado. E se der um presente muito mais barato que aquele que recebe, também ficará marcado. A ideia, ao que parecer, é fazer permuta; escambo. Sinto-me um neanderthal. Muitas vezes o ato de presentear, ou não, é combinado, para se evitar frustrações e desequilíbrios. Já pensou dar um presente e não recebeu um equivalente? Que absurdo!

papai noel cansado do natal

Aqui na fábrica tem comemoração. Todos são obrigados a comparecer, até eu, o chefe. Regra de etiqueta, sabe? Não queria, mas preciso jantar com os duendes incompetentes de minha fábrica. Sou exemplo. Eles me odeiam e eu os odeio, mas o que fazer? É Natal. A fábrica de presentes imprestáveis não pode parar. Não posso deixar de motivar meus duendes agora. Vivo uma espécie de prisão. Sei que sozinho não consigo, preciso deles, mas não queria… Preciso trabalhar. Trabalho, trabalho, trabalho. Se não dou presentes para as pessoas, o Natal acaba. Vão me esquecer e vou morrer. Sou obrigado a trabalhar. É meu ganha pão. Só sei fazer isso. Não sou inteligente, nem bonito, nem sarado, nem novo, nem nada. Sou apenas um velho símbolo de uma tradição que se arrasta por séculos.

papai-noel-triste

O mais cruel é que tenho que ficar sorrindo o tempo todo e dar presentes apenas para crianças que se comportaram bem. E quer saber de uma coisa? Todas sempre se comportam bem. Óbvio. Na dúvida tenho que prestigiar a palavra delas. Como vou saber quem se comportou bem ou não? Não sou onipresente, onisciente ou onipotente. Isso é maluquice! Assim como é maluquice a ideia de reencarnação ou de que viemos do nada ou de que viemos de um desequilíbrio quântico. De qualquer forma, também pouco me interessa o comportamento das crianças. Não sou fofoqueiro e sou adepto da aprovação automática. Cumpro meus deveres, apenas, e isso é muito. Só preciso fazer números e prolongar minha sobrevivência.

papai noel e o espírtio natalino

Quem dera eu fosse como o Coelhinho da Páscoa. Um acéfalo. Um ser totalmente irracional. Olhamos para ele e… nada. Só fica roendo cenouras e cagando. Não faz mais nada além disso e ainda o acham lindo. O Coelhinho da Páscoa é como se fosse o bicho de estimação de uma madame frívola qualquer. Só serve de enfeite. Não passa de um pretexto para mais uma data em que se é obrigado a presentear alguém, apenas por presentear, e o bichano sequer se dá conta disso. Crise existencial é para os trouxas que pensam. Queria ser irracional. Seria feliz. A ignorância às vezes é uma benção. Estaria livre de encontros familiares e de almoços com os duendes. Depois de me darem um presente barato rateado por todos, acompanhado de algum cartão natalino escrito de última hora, os malditos vão sugerir, brincando, é claro, aumento e me contar as cagadas na fábrica logo após o Natal.

E Mamãe Noel? Ah, a Mamãe Noel! A cordeira de Deus. Ela fica insuportável nesta data. Faz muitas coisas que não peço e não preciso e exige agradecimento. A banalização do obrigado… Coisa de classe média. Ela não faz outra coisa a não ser cuidar de seus enfeites de Natal e torcer para que os vizinhos reparem na decoração de Natal. Distribui muitos presentes fúteis para pessoas igualmente fúteis. Acha bacana deixar as crianças sob montanhas de quinquilharias de plásticos, que emitem luzinhas idiotas e que em nada contribuem para a formação humana dos menores. Lamentável. Argumenta que é o espírito natalino e blá blá blá. Só me pergunto porque o espírito natalino não pode ser manifestado diariamente, ao longo de todo o ano. Sejamos bons sempre. Sejamos simpáticos e solidários diariamente e não só no Natal. Por que só ressaltar a bondade e a unidade familiar nesta data? Soa hipócrita. Presentes podem ser dados a qualquer momento do ano. Não é necessário o Natal para isso ou mesmo uma data específica. Se você não ganha presentes fora das datas comemorativas, é porque você não merece. Simples assim.

Parece que o Natal é um fim em si mesmo. Um baile de máscaras. Não fosse a “perseguida” dela e o fato das noeletes serem frescas, eu não iria para o teatro da vida. Sim, a carne é fraca, e daí?

Sinto tanta pena de minhas renas, pois terão que trabalhar tudo o que não trabalharam durante o ano em apenas uma noite. Justo, não? Extremamente profissional e proporcional. Mas sei que poderia ser pior. Ainda bem que não são perus. Sabe aqueles perus que ficam anos engordando e comendo o mesmo tipo de comida a vida inteira? Deprimente. Sabe aquele tipo de peru que só vive para ser abatido? Chocante. Sabe aquele peru que nasce sob o estigma da morte? Não se mata para saciar a fome, mas sim para se festejar… sem motivo.

natal peru de natal

Fico deprimido no Natal, pois dizem que é uma data de reflexão. E que reflexão! Volto a lembrar do Coelhinho da Páscoa. Que inveja… Dá vontade de pular da ponte. É tudo tão programado, robótico, automático. Não posso me reservar o direito de ficar sozinho e continuar a fazer o que sempre faço: sonhar.

papel noel de verdade

Tenho que sorrir e ter paciência. Aguentar piadas e as investidas da classe média e dos cristãos para arregimentar mais um membro servil. Conversar superficialmente com pessoas com quem não convivo e não quero conviver. Repetir os mesmos gestos, os mesmos assuntos, falar sobre as mesmas pessoas, aguentar as mesmas manias. O que vale é a aparência.

Acho que o Natal deveria ser uma época para ficar sozinho ou para valorizar o que se tem… na mente.

natal papel noel thug life

Ainda assim, fico imaginando os desafortunados que não vão ganhar meus presentes, pois não têm chaminés. O que posso fazer? Tenho que dançar conforme a música.

natal esperando o papai noel aparecer

Sei que os pobres ficam extremamente frustrados nesta data, porque vítimas da propaganda consumista e da tradição que ajudei a construir, enquanto a classe média ostenta e repete valores tradicionais e católicos ultrapassados. Os desafortunados veem que são pobres e que não ganham sequer presentes babacas ou cuecas. Deve ser decepcionante… As frustrações explodem todas nesta data, materialmente maldita para alguns, embora seja considerada, abstratamente, bendita por todos.

Sinto-me preso por grilhões. É um círculo vicioso. Cada ano que passa minhas angústias aumentam. Vejo mais do mesmo. Além disso, parece que a demanda aumenta ano a ano e a futilidade ganha corpo. É Natal! É Natal! Quanta hipocrisia. Estou envelhecendo. Preciso dar um fim nisso antes que seja tarde demais. Basta! Vou revelar minha verdadeira natureza”.

papel noel verdadeiro

– Papai Noel! Está na hora da ceia! Venha, querido! O peru está quentinho! Todos estão te esperando. Vem, vem, vem!

– Já vou querida! Estou pegando os presentes dos duendes.

Feliz Natal!

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