Lúcifer e a conspiração dos arcanjos – Parte 1

O necromante acordou assustado. Sonhou que estava dentro de uma câmara rochosa, totalmente escura, exceto pela luz esverdeada que se elevava até o teto e que envolvia um livro gigantesco no qual havia a cabeça de um demônio estampada na capa. O sonho se repetia dia após dia. Aquilo o incomodava. Não sabia o que significava aquele devaneio, não sabia se a caverna era real e não sabia onde poderia estar.

 

Andando pelas sombras de um bosque verde, florido e vivido, repleto de animais selvagens e flores de todas as cores e tamanhos, acarpetado por uma relva orvalhada, cujo brilho era sem igual, o necromante buscava respostas e esmiuçava as imagens contidas em suas lembranças para solucionar os dilemas ventilados por seus sonhos. Passava por um local que julgava seguro. Queria saciar sua fome, no entanto foi repentinamente atacado por um animal selvagem. Caiu ferido. O braço esquerdo sofreu quatro pequenos e profundos cortes. As garras da fera haviam transgredido o pesado manto negro que recobria o necromante. Sentiu o sangue correr sob o manto negro. Antes que pudesse se levantar, percebeu que a fera se preparava para dar o segundo e definitivo bote. Era uma pantera. Ela estava a cerca de dois metros de distância. Seus olhos eram amarelos; seu olhar penetrante e profundo. Estava faminta. Aguardava apenas um momento de distração do herói sombrio para iniciar o ataque final; aguardava apenas o piscar de olhos da presa. A vítima piscou. Ela sabia que era o fim. Porém, quando abriu novamente as pálpebras, um demônio havia atravessado a pantera ao meio com suas garras.

demonio

 

O salvador, calmamente, livrou-se do animal morto, aproximou-se e estendeu o braço ensanguentado para aquele que acabara de ajudar. Então perguntou:

 

– Está tudo bem, amigo?

 

Sua voz era anasalada, ardilosa e irritante; seu aspecto repulsivo. O cheiro forte era de enxofre. Aturdido e assustado, o necromante se levantou preparado para a luta, embora não sentisse qualquer tipo de agressividade vindo daquele ser.

 

– Por que você me salvou?! O que quer de mim?! – Caiu no chão novamente. – E… eu não sou se amigo! – Falou comedido o necromante.

 

O demônio deu de ombros e disse que a Bíblia perdida tinha dado sinais. O Grimório estava querendo ser achado depois de séculos na escuridão. A criatura disse que só um necromante poderia encontrá-lo e lê-lo. De forma rasa, explicou que, ao fazê-lo, teria muitos poderes. Tornar-se-ia um deus na Terra.

 

O necromante riu sorrateiramente e desdenhoso, embora ainda assustado e debilitado. Não quis acreditar que existia um livro assim. Achou estranha a ideia de que um demônio o quisesse poderoso. Então gritou:

 

– Eu não acredito em você, sua besta infernal! Acabarei com sua raça agora mesmo. Nada que vem de um demônio pode ser bom.

 

– Como andam seus sonhos, meu caro?

 

Por um momento o tempo pareceu parar. “Sim, os sonhos”, disse consigo mesmo. Seus repetidos sonhos, cada vez mais claros, que tanto o intrigavam e o incomodavam.

 

– Meus sonhos? – Balbuciou perplexo.

 

– Sim, seus sonhos. Você não tem sonhado com um livro? – Perguntou calmamente o demônio.

 

– Mas como você sabe de meus sonhos?!

 

Silêncio.

 

O demônio da capa do Grimório parecia um pouco com aquele que estava perante ele. A criatura o deixou, desejando-lhe boa sorte na “busca”. Correu em direção à floresta. O necromante tentou impedi-lo, mas desistiu, talvez por medo daquela criatura asquerosa ou por simples senso de justiça, afinal ele foi salvo da morte certa por ela. Estava curioso. Aqueles sonhos começaram a tomar conta de sua vida.

 

Após muito meditar, o herói resolveu ir atrás do Grimório. Iniciaria sua busca. Pressentia que seu destino seria trágico, todavia, por outro lado, o poder… ser um deus na terra. Fazer tudo o queria, mas que nunca pôde. Não precisaria mais reprimir seus sentimentos e nunca mais seria discriminado por ser um homem com um aspecto nada convencional. Os necromantes, assim como as bruxas, eram hostilizados pelo tipo de poder e de magia que desenvolviam e estudavam. Estavam associados ao mal, a demônios. Eram perseguidos e muitos eram queimados vivos, sem defesa. Tinham que viver nas sombras em razão dessa estigmatização. Frequentemente, eram questionados por inquisidores da Igreja sobre suas atividades. Diante dessa situação, muitos necromantes e bruxas se revoltavam e matavam pessoas ou promoviam o pavor. Outros, no entanto, procuravam o isolamento. Aqueles, no mais das vezes, morriam e os outros viviam como nômades, não criando vínculos afetivos, em uma espécie de morte civil. A magia negra e o poder de controlar cadáveres e almas nunca foram bem-vistos pela sociedade e sempre estavam vinculados a personagens malvadas. Entretanto, o necromante não se sentia maligno. E essa situação lhe causava espécie, confusão. Aliás, estranhamente, compartilhava a convicção da sociedade de que os demônios eram seres malignos e que deveriam ser mortos. Jamais mataria um ser humano, exceto em legítima defesa ou estado de necessidade. Mas, ainda assim, era visto como um sujeito perigoso e que deveria ser evitado. Isso o fazia se sentir vazio e impotente por dentro. Como enfrentar o preconceito e a intolerância de uma sociedade imersa sob o signo da fé e da Igreja monoteísta? Talvez por isso não suportasse o convívio com outras pessoas e talvez por isso também, em função do isolamento, não suportasse nem mesmo a luz do sol. Sentia-se cego quando estava sob a luz solar, não tolerava a luminosidade. Às vezes, nas horas mais difíceis e solitárias, deixava de acreditar que essa incompatibilidade com a luz solar era apenas o efeito de toda a conjuntura excludente no qual estava inserido e chegava à conclusão de que o problema estava nele mesmo e que ninguém mais poderia ser responsabilizado por sua condição.

Necromancer 4

Mas agora poderia acabar com suas incertezas, seus altos e baixos, poderia eliminar tudo isso tendo poder, sendo um Deus. Ajudaria seus pares, cada vez mais raros, e acabaria com os preconceitos. Sim, o Grimório seria achado e não seria difícil, pois os sonhos não saíam da sua cabeça. Aliás, eram cada vez mais detalhados. O necromante já visualizava bem mais do que a câmara onde se encontrava o livro e no qual seus sonhos acabavam. Sabia que o livro se encontrava em uma região de floresta tropical densa, provavelmente a floresta Malaica. Não seria tão difícil encontrar o tal livro se aquelas imagens continuassem a descrever o caminho até ele.

 

Caiu a noite.

 

Perto do bosque havia um vilarejo. Foi em direção ao armazém local, que também funcionava como bar e hospedaria para errantes solitários como ele. Entrando no estabelecimento iluminado por tochas e lamparinas, conferiu os preços dos produtos e percebeu que seu dinheiro estava se acabando; o que tinha não era suficiente para comprar tudo o que precisava. A viagem de ida e volta até a floresta que via em seus sonhos seria longa. Tinha quase certeza que se tratava da floresta Malaica, mas o fato da certeza não ser absoluta o angustiava. Onde arranjaria dinheiro para a empreitada? E se chegando até a floresta Malaica descobrisse que não era a floresta certa?

 

Dentro do estabelecimento passou a pegar alguns produtos: carne salgada, pães, massas, legumes e alguns medicamentos milagrosos de um alquimista famoso na região, O’ Cruz. Todos os homens que até então bebiam cerveja e se provocavam, batendo-se e medindo forças na queda de braço, passaram a olhar de uma maneira ameaçadora o extenuado viajante. O ambiente era fétido e sujo, repleto de insetos. “Em breve”, pressentia o necromante, “alguns deles levantarão e me atacarão”. Ele não era conhecido na região e também não conhecia qualquer serviço funerário ou cemitério no local para que pudesse usar sua necromancia a fim de se defender. Resolveu comprar logo o máximo de provisões que o seu dinheiro permitia para, então, cuidar de sua ferida no braço, que era profunda e estava começando a infeccionar.

 

A tensão e a pressa do necromante eram tamanhas que não percebeu que uma pessoa estava atrás dele. Só se deu conta da situação de vulnerabilidade quando sentiu um leve toque em seu braço ferido. Doeu muito, mas ele teve que conter o grito. Virou para trás e viu uma bela mulher. Morena de pele clara, com cabelos longos negros e olhos profundamente verdes. Era a mais bela mulher que já vira. Ficou confuso por um momento. O normal seria ser atacado com uma porretada ou uma garrafada e depois ouvir gargalhadas, como já havia acontecido alhures.

esmeralda

A mulher não lhe disse nada, apenas pegou seu braço e nele passou um unguento. Doeu demais. O necromante tentou afastar o braço, mas ela impediu. Então a moça disse ao pé do ouvido dele:

 

– Venha comigo. – Todos os homens do recinto o olhavam ferozes, talvez enciumados.

 

O aroma que ela exalava era tão sedutoramente hipnotizante que mesmo para um necromante rejeitado, cansado e perturbado, que até então só havia “pegado” bruxas e coisas do gênero, era impossível dizer não. Quando se viu fora do estabelecimento comercial, percebeu que não havia pago nada do que carregava, no entanto isso não parecia um problema para a bela, nem para o rapazote que estava atrás do balcão. Ela andava com peças íntimas vermelhas sob um véu semitransparente que cobria praticamente todo o corpo. Alguns passos depois, ela perguntou:

 

– Eu nunca havia visto um homem ser salvo por um demônio. Quem é você?

 

O necromante ficou encabulado, sua vida poderia estar em risco. Aquela mulher tinha um olhar ligeiro e dominante. Não poderia ser enganada facilmente. Então o encurralado manipulador de almas percebeu duas coisas: 1) a melhor maneira de se livrar daquela situação seria contar a verdade, omitindo alguns trechos, é claro; 2) a mulher era muito independente. Andava entre inúmeros homens grotescos, mal-educados e ignorantes, mas, ainda assim, impunha respeito. Para o necromante aquilo era estranho. Em geral, em ambientes espúrios como aquele, as mulheres eram igualmente espúrias, feias e acabadas, depravas ou vítimas constante de violência e de todos os atos de libidinagem que se possa imaginar. Mas aquela moçoila não. Era irresistivelmente sedutora, limpa, linda, provocante e ignorava o assédio masculino, com inescondível desprezo. Era estranho que uma mulher daquela vivesse em ambiente tão degradado.

 

– Estou em uma busca secreta.

 

Os olhos da moça brilharam.

 

– Que busca?

 

– Bom, preciso encontrar um livro… na floresta Malaica.

 

“Eu nunca estive lá”, pensou a moça.

 

– Qual livro?

 

– O Grimório.

 

A garota pensou, pensou e sentiu que aquilo não lhe era familiar.

 

– Para quê?

 

– Não sei. – Os ombros do necromante se contraíram e sua respiração relaxou.

 

– Ah! Eu vou chamar meus amigos brutamontes – Disse em tom ameaçador, como se quisesse testar o depoente.

 

– Espere, eu tenho sonhos com esse livro e aquele demônio disse que eu poderia ficar poderoso se o encontrasse.

 

– Humm. Muito estranho. Acho que você está me enganando.

 

– Eu preciso ir. – Interveio impaciente o necromante quando percebeu que estava sentado em uma pedra e que a moça se inclinava sobre ele, como se estivesse sendo interrogado e acusado por um inquisidor da Igreja. Os olhos da moça eram tão hipnotizantes que o necromante não se concentrava em mais nada, a não ser em suas perguntas.

 

– Qual o seu nome?

 

– Não posso dizer.

 

A moça riu com sarcasmo e ameaçou:

 

– Diga ou morrerá.

 

Os olhos do necromante se entristeceram:

 

— Preciso ir.

 

A diva estava confusa e curiosa. Aquele homem dócil e de olhar sincero não poderia estar enganando-a, ele tinha que ser uma boa pessoa. Todavia, a imagem do demônio salvando-o e conversando longamente com ele a torturava. Estava curiosa. Aquilo era surreal. Se não fosse a fera para matá-lo, deveria estar morto pelas mãos daquele demônio. Pelo menos era assim que as coisas funcionavam com os demônios.

 

– Eu vou com você. Espere aí sentado.

 

– Não! É perigoso.

 

– Eu sei. – Sorriu.

 

Quando a moça, que depois se qualificou como Esmeralda, virou as costas e entrou no bar, antes de ouvir as provocações que os homens bêbados lhe dirigiam, o necromante percebeu um vulto atrás de algumas árvores a poucos metros dele. Minutos depois, a bela reapareceu com uma mochila nas costas e dois cavalos de médio porte. Disse:

 

– Preciso tirar férias dessa espelunca do meu pai. Para onde vamos?

 

Formol, apelido que a moça lhe dera ao ver sua face pálida e jovial, e Esmeralda seguiram o caminho para o sul, na direção da floresta tropical, em meio à escuridão da noite.

 

Ao longo do dia seguinte, conversaram bastante. O necromante a deixou ciente de todos os seus sonhos e de suas dúvidas. Também contou um pouco de sua história. Para tentar persuadi-la a reconsiderar sua decisão de acompanhá-lo na jornada, contou das perseguições e das humilhações que sofreu, e que todo necromante sofre. Relatou que já esteve preso por vários dias em uma igreja por ordem dos Inquisidores, pois decidiu largar os estudos jurídicos para se dedicar às artes negras. Mas a moça estava resoluta e ignorou os perigos narrados pelo amigo. Formol também contou um pouco sobre sua família: os pais ficaram desgostosos com as escolhas dele. Eram pessoas muito simples e queriam muito ter um advogado na família. Para tanto, despejaram todas as suas economias nos estudos do filho. Formol, foi expulso de casa ao enveredar para o caminho da necromancia e, desde então, vaga por aqui e ali, pedindo favores, cultivando sua magia.

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– Odeio pais. – Foi o comentário da bela.

 

Depois Esmeralda contou um pouco de sua história. Disse que vivia presa ao marasmo, na sujeira da mercearia do pai, recebendo propostas ridículas de casamento e rodeada de homens e velhos babões, que diariamente a devoravam com os olhos. Estava cansada daqueles vermes do bar, do paternalismo e autoritarismo do pai e da ausência da figura materna. Desde que sua mãe se fora, quando era muito pequena, as coisas nunca mais foram as mesmas. Seu pai se tornou uma espécie de dono da região e não se sujeitava nem mesmo à Igreja. Era um caçador violento de demônios e controlava todo o pequeno comércio da região. Sob suas ordens, havia muitos capangas miseráveis e inescrupulosos. Muitos deles seriam capazes de matar para ter a mão dela em casamento. Todavia, nunca tivera uma proposta séria, de um amor verdadeiro, pois o temor que seu pai incutia era tão grande que todos os pretendentes dela eram capachos do “coronel”, como ela gostava de chamar o pai, ou se acovardavam na frente do pretenso sogro. Muitos acreditavam que o “coronel” indicaria um deles para ter a mão de sua filha e muitos esperavam a morte dele para arrebatá-la. No final das contas, a única diversão dela era desafiar o pai, fugindo, fazendo pilhéria, graça, chiste e facécia, colocando em apuros todos aqueles homens subordinados a seu pai que nutriam uma grande lascívia por Esmeralda. Ainda assim, provocando muitas confusões, estava entediada naquele lugar. Seu pai dizia que ela era igual a mãe, impossível de ser controlada. O necromante estranhou mais uma vez, pois uma mulher que não tinha medo de acompanhar um desconhecido em uma busca desconhecida não era usual. O ouvinte acreditava que as filhas de homens como o “coronel” seriam arredias, fúteis e submissas.

 

Estava muito calor. Ao constatar isso, Esmeralda começou a indagar o necromante sobre sua vestimenta. Muitas coisas nos trajes dele a incomodavam. O rapaz estava vestido com pesadas roupas negras, que lhe cobriam o corpo inteiro, e o calor era insuportável, mas ele, como sempre dizia, “estava acostumado”. Preferia passar calor a ser visto pelas pessoas, não gostava de interagir com elas. Não gostava que vissem seu rosto.

 

– Por que não tira esse capuz? Você se veste como a “dona morte”. – Observou a jovem.

 

– Eu… eu estou muito pálido – Respondeu evasivamente.

 

– Não me admira estar pálido, você está coberto de cobertores negros em pleno verão. Vamos, tire o capuz. – Determinou a bela e puxou a peça para baixo. – Até que você é bonitinho – Finalizou.

 

O necromante se sentia pelado sem o capuz. Tinha vergonha do seu rosto pálido e fino. Odiava o sol também, mas como em breve notaria, teria que se acostumar com as opiniões de Esmeralda. Logo, outras peças de seu vestuário seriam questionadas.

 

Andaram por mais algumas horas, até a noite chegar. O necromante estava para acender a fogueira, porém foi impedido de consumar o ato por Esmeralda. Ela disse que provavelmente seu pai já estaria furioso atrás dela, querendo a cabeça do companheiro. Sugeriu que dormissem fora da trilha, entre as árvores. Dormiram juntos, sob o pesado manto negro do necromante. “Ela é tão quente”, pensava Formol, mas logo lembrava dos homens do bar e imaginava o pai da moça o matando.

 

Amanheceu.

 

Continuaram a jornada em suas respectivas montarias. No entanto, no caminho, repentinamente, depararam-se com um paladino.

paladino Aasimar-Paladino

 

Ele tentou matar os viajantes sem qualquer tentativa de diálogo. O oponente tinha um escudo em um dos braços e uma grande lança no outro. Estava protegido por uma armadura espessa e maleável, com uma grande cruz vermelha sobre o plano branco que recobria o peitoral. Seu elmo de ferro escondia-lhe a face.

 

O primeiro ataque foi rápido, tão repentino quanto a sua aparição. Veloz e portando uma fúria sem igual, o inimigo disparou contra as vítimas e apontou a lança para Formol. Fez o movimento de ataque, que por um triz não acertou em cheio o herói. Entretanto, a vítima não escapou de um doloroso tombo de seu cavalo. O necromante, percebendo que o assassino se preparava para mais uma investida, invocou seus poderes e inúmeras caveiras de animais e fantasmas apareceram. Como se um maestro fosse, com um leve movimento das mãos, o necromante mandou os esqueletos dos pequenos animais que ali morreram e os fantasmas que ali pairavam escondidos atacarem o agressor. Tais ataques, no entanto, não incomodaram o paladino que continuava em sua fúria assassina. Os animais eram pequenos e os fantasmas eram repelidos por algum tipo de aura do cavaleiro. O paladino não tomou conhecimento da reação do necromante e iniciou a segunda investida. A ponta da lança descia ao longo da corrida do cavalo do agressor para mirar exatamente no coração do alvo, quando Esmeralda rapidamente foi de encontro com o inimigo carregando um pequeno punhal. Emparelhada, tinha certeza absoluta de que o rival não poderia atingi-la com a lança, visto que atacaria pelo lado esquerdo e a lança estava sendo carregada pelo braço direito, e de que seu pequeno punhal poderia fazer graves ferimentos no oponente ou em sua montaria, porque muito habilidosa; todavia foi jogada longe pelo escudo do paladino. Após sua queda, o cavalo de Esmeralda fugiu. A bela não acreditou em tamanha destreza. No entanto, ao menos, conseguiu salvar o amigo de mais uma investida. O paladino, frustrado com seu segundo ataque desperdiçado, mencionou algo como Lúcifer. Disse o ofensor que o companheiro de Esmeralda era um demônio e que deveria ser morto em nome dos serafins, mas o necromante não entendia o que ele falava. A garota ficou mais confusa. O paladino iniciou o derradeiro ataque…

 

Tudo parecia perdido. Os heróis já haviam perdido seus cavalos, suas armas eram inúteis frente à destreza do oponente, que também parecia imune à magia negra. Porém, para sorte de ambos, apareceu no horizonte um guerreiro montado em seu alazão. Com uma das mãos, ele portava um estandarte muito bonito. Estava revestido por uma pesada armadura de metal e usava um elmo. Existiam dois chifres pontiagudos de metal no capacete preso entre suas pernas e sobre a nuca da montaria. O novo elemento no cenário de morte correu velozmente até o palco onde se desenrolara a batalha. Olhou fixamente para Esmeralda, achou-a linda e instintivamente a protegeu. Não percebeu a presença do necromante. Mirou o paladino com seu rosto quadrado. O guerreiro colocou o seu elmo, largou o estandarte que portava e puxou sua espada. Era um claro desafio para um duelo mortal. O paladino recuou, mas tudo indicava que voltaria para matar o necromante – apontou a arma ameaçadoramente para ele e se foi. Formol, caído no chão, viu a ponta da lança do guerreiro apontada para sua face. Esmeralda pediu para que o salvador tivesse clemência do necromante, pois ele era inofensivo, o que, diga-se, não agradou ao herói vulnerável. A musa também disse que estavam em uma busca muito importante. Disse também que o paladino, na verdade, queria a cabeça do companheiro e não a dela.

guerreiro

Dadas essas explicações e passados alguns momentos desde o enfrentamento, Rogar, o guerreiro, queria saber mais detalhes sobre a empreitada dos salvados, mas tanto o necromante como a dama não sabiam exatamente o que estavam procurando e também não sabiam o significado dos sonhos de Formol. No entanto, uma palavra na narrativa de Esmeralda – Grimório – e um fato – a conversa com o demônio – chamaram a atenção de Rogar. Sereno, o novo amigo disse que os levaria ao clérigo Paulo, que estudava demônios e livros perdidos. O necromante não queria. Achou Rogar interessado demais na história e ao mesmo tempo demasiadamente lacônico quando indagado sobre qualquer coisa, mas Esmeralda entendeu melhor buscar informações com o clérigo. O necromante assentiu, mas a contragosto. Concordou porque a rota não seria alterada, porque não tinha como rebater os argumentos da deidade, que se baseavam na prudência e no possível auxílio que o conhecimento de uma pessoa muito mais experiente e instruída poderia lhes oferecer, e porque, de uma forma ou de outra, Esmeralda dava a palavra final.

 

– O “armário” aí – Sussurrou a dama indicando Rogar – nos salvou e esse tal de Paulo pode nos ajudar. Já ouvi falar nesse clérigo. Alguns o chamam de Santo, outros de São Paulo. Ele é um poço de sabedoria. – Complementou pedagógica.

 

Os três seguiram a pé. O cavalo de Rogar vinha logo atrás deles. O necromante e o guerreiro não confiavam um no outro. O trio andava um ao lado do outro. A garota ia ao meio e às vezes cantarolava, uma hora trágica, outra cômica, para tentar amainar o clima de tensão que se estabeleceu entre os dois companheiros. Pressentia que a qualquer momento e sem aviso prévio eles digladiar-se-iam até a morte. Repentinamente, o guerreiro sofreu um rápido ataque, por um triz não foi ferido mortalmente. As garras de um demônio ficaram marcadas na sua armadura de ferro. O guerreiro contra-atacou e o demônio desviou. Ambos passaram a se estudar. Esmeralda gritou e olhou para o necromante. O malsinado sentiu que ela exigia alguma atitude, todavia o necromante não podia se mexer. Ele reconheceu imediatamente o demônio. Era o mesmo que o salvara no dia anterior. A moça, então, resolveu atuar e gritou mais. Seus gritos, no entanto, já não eram mais comuns. O tom era alto e estridente. Era possível ver as ondas se propagando no ar e se dirigindo como um tubo sônico em direção do inimigo. Tal poder, até então desconhecido de Formol, e que lhe causou um grande espanto, atordoou o demônio o suficiente para que Rogar o matasse, cortando sua cabeça. Sangue negro escorreu e pingou para todos os lados, matando a vegetação sobre a qual corria e pousava.

esmeralda gritando

O necromante olhou para o corpo inerte do demônio e se sentiu culpado pela morte dele. Talvez os demônios não fossem tão maus assim, talvez o personagem mau da história fosse ele, que não retribuiu o favor. Pelo resto do caminho, o portador da magia negra ficou em silêncio e distraído, refletindo sobre a sua atuação e sobre as atitudes daquele demônio. Também pensava no poder da sua bela companheira. De onde ele provinha? Não era um poder pequeno e não era algo que pudesse ser aprendido, pelo menos até onde sabia. Questionou Esmeralda sobre o seu poder. Ela, entretanto, limitou-se a indagá-lo:

 

– Qual é seu nome verdadeiro? – O necromante resolveu deixar para lá. Ela não responderia sua perguntar até ele responder a dela.

 

Depois de horas de silêncio sepulcral, a bela imaginou que talvez aquele demônio fosse o que anteriormente havia salvado seu companheiro de aventura. Mas não tocou no assunto. Não tinha certeza de sua suspeita; viu o demônio de longe.

 

Ao longo do caminho, a donzela olhava com interesse e curiosidade um pássaro que voava muito alto e que parecia acompanhá-los desde longa data. Apesar da distância, sentia algo de estranho com o pássaro, não sabia exatamente o que era. Também notou que Formol estava cansado e esse cansaço não provinha da batalha pretérita.

 

Os três chegaram a uma igrejinha com um cemitério ao lado. Era a paróquia de São Paulo. Um jovial senhor se encontrava na porta. Era baixo, de pele morena, calvo e irrequieto para um clérigo. Usava um hábito branco e simples. Parecia um pouco tenso. Havia gotículas de suor em sua testa. Fitou o necromante nos olhos e pediu que todos entrassem. Esmeralda, Formol e Rogar entraram. O necromante não se sentia muito bem dentro de uma igreja. Ele odiava os clérigos, pois batalhas entre necromantes e clérigos foram frequentes por séculos. A simples presença de um necromante criava um certo pavor nas pessoas e os clérigos, sempre muito influentes, não ajudavam a melhorar a reputação dos malsinados, que eram seres ligados naturalmente à morte e à magia negra. Os necromantes eram solitários e ateus por natureza, bem diferentes dos clérigos, uma espécie muito política, influente e fervorosamente religiosa, que mantinha fortes laços com a temida Inquisição.

clérigo

O clérigo Paulo, mais conhecido como São Paulo, levou todos para uma pequena sala no fundo da igreja. Esmeralda e Formol entraram, todavia, Paulo e Rogar ficaram por alguns momentos murmurando do lado de fora da sala. Isso incomodou bastante o manipulador de caveiras, mas parecia não incomodar a bela, sempre segura de si, impávida e forte. Alguns segundos depois, rapidamente, Rogar entrou na sala e se postou atrás do convidado fúnebre e Paulo se sentou de frente para o necromante. Após proferir palavras sagras ininteligíveis, de forma célere, arrematou dizendo:

 

– Descanse em paz, amém.

 

 

CONTINUA

Farei o lançamento do meu livro A Nova Teogonia na Bienal do Livro, no dia 01/09/16, às 19:30, no estande da Scortecci =)

A Nova Teogonia tem na Livraria Cultura também!

O segundo volume está quase pronto e será lançado na mesma data!

Depois coloco um trecho dele aqui para aqueles que não o leram quando eu o publiquei aqui.

 

PS: esta história (Lúcifer e a Conspiração dos arcanjos), comecei a escrever em 2010, mas não a terminei. Só escrevei metade. No entanto, pretendo terminá-la até o meio do ano que vem =)

PPS: o texto não é o final

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