Lúcifer e a conspiração dos arcanjos – Parte 3

Vide capítulo anterior.

 

– Anjos. – Falou boquiaberto o necromante.

 

Depois do deslumbramento, por prudência, Hermes e o necromante acharam melhor sair da trilha e deixar os cavalos, cansados pelo percurso e pelo intenso calor que fazia naquela região, amarrados atrás de algumas árvores e rochas. Andaram dezenas de metros na direção em que estavam os anjos. Abaixaram-se e se puseram a observar. Àquela distância não podiam visualizar as feições e traços do rosto das criaturas angelicais, mas percebiam que eram seres reluzentes e com grandes asas. Provavelmente eram criaturas muito belas. Podia-se notar argolas amarelas pairando sobre as cabeças e entre as asas. Eram a auréolas.

anjos

Esmeralda sugeriu que fossem até eles. Segundo a bela, talvez os anjos pudessem dar proteção e explicar tudo o que estava acontecendo. Além disso, estava curiosa. Anjos… não era todo dia que se via um. Quem não gostaria de conhecer um pessoalmente? O necromante, entretanto, não gostou da ideia. Estava ressabiado e resolveu não seguir em frente.

 

– Acho melhor procurar outra entrada. – Ponderou o necromante, lembrando dos estranhos fatos que ocorreram nos últimos dias. A prudência própria de quem sempre foi estigmatizado e perseguido se fortaleceram naquele momento. Não confiava em ninguém, nem em Esmeralda.

 

Hermes assentiu, mas a moça não. A moça atraída pelo brilho daquelas criaturas achou aquela sugestão burrice demais e resolveu se aproximar um pouco mais para ver os seres celestiais mais de perto, enquanto Hermes desesperado sussurrava:

 

– Não, não, não.

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A bela estava cansada e irritada com a longa e exaustiva viagem, bem como estressada pela ausência de respostas às suas indagações: matar necromantes? Matar bruxas? Queria respostas. Além disso, também estava embriagada pela ideia de ver anjos, de poder estar diante deles e de tocá-los. Eram escassos os relatos da presença de anjos na Terra. Nos últimos 300 anos, não havia qualquer ocorrência séria registrada. Com efeito, era muito comum relatos sem qualquer evidência de pessoas de caráter e de sanidade duvidosos. Era comum o uso de ópio pelas pessoas que frequentavam os desertos daquele mundo, de onde se originava quase todas as religiões que se conheciam, dentre elas a da Igreja. Era um tempo onde a ignorância reinava.

 

Segundo a Igreja e a crença popular, os anjos eram as criaturas mais bondosas e as mais belas da Terra e do Firmamento. Podiam curar todas as feridas e doenças. Sua função era proteger as pessoas e animais, que, segundo a Igreja, eram as obras de Deus mais queridas e perfeitas. Vale dizer, os religiosos pregavam que os anjos, criaturas superpoderosas, que podiam voar e combater demônios, cujas moradias estavam ao lado da casa de Deus, eram inferiores aos seres humanos, devendo, assim, viver em função de seres mortais, sem poderes e de capacidade cognitiva limitada. Para Esmeralda, contaminada por essas ideias profundas, era difícil acreditar que criaturas tão meigas e belas pudessem trazer algum tipo de malefício a ela ou a seus companheiros. Sim, eles a ouviriam. A Igreja nunca estaria errada na área de sua competência, afinal vivia daquele conhecimento. As criaturas celestiais certamente ajudariam os fugitivos. Aplacariam a ignorância humana que os perseguiam, isso porque não eram humanos, mas criaturas celestiais! E para Esmeralda isso era mais do que ser uma criatura terrena. Não havia criaturas mais fantásticas do que os anjos.

 

A garota pensou na sua vida de outrora, no seu pai paternalista e no bar imundo, sujo e cheio de crápulas. Pensou na misoginia daquela sociedade. Pensou na sua vida entediante. Queria ser livre, conhecer coisas, pessoas e sensações novas. E lá estava ela, diante das criaturas mais fantásticas e bondosas de que se tinha notícia. Sim, nada poderia dar errado, tinha nascido para aquele momento. Levantou-se. Pretendia se dirigir ao aglomerado de criaturas celestiais quando foi bruscamente puxada pelo braço. Um grito agudo lhe fugiu da boca, como decorrência do tranco, antes que os três se escondessem novamente sob as sombras das árvores e pedras.

 

– Será que eles ouviram? Está muito longe. – Desesperou-se o ladino.

 

– Corre! – Exclamou o necromante deixando o local e puxando a garota.

 

– Mas está muito longe! É impossível – Ponderou Hermes perplexo. Só então o ladino notou que os anjos se dirigiam a eles em alta velocidade, rasgando o céu. Em poucos segundos, os celestiais estariam ali.

anjo no ataque

Com efeito, os anjos se aproximavam rapidamente, seguidos de trovões. Raios saíam de suas mãos e bombardeavam o local. As explosões provocadas pelos raios estavam cada vez mais próximas. Árvores caíam por todos os lados. Pedras eram esmigalhadas. Labaredas de fogos se seguiam às explosões. O calor do incêndio já era sentido pelos desbravadores. Fagulhas e projéteis passavam zunindo por seus ouvidos. As ondas de impacto os desequilibravam. De repente tudo parou.

 

Os barulhos mudaram. Não caíam mais raios. O necromante olhou para trás e, em meio ao fogo e à fumaça que consumiam as árvores tombadas, viu uma grande clareira, na qual estavam de tão grande, e que no céu dragões e demônios interceptaram os anjos. Eles lutavam no ar. O necromante, com Esmeralda apoiada em seu ombro e com o ladino logo atrás, correu para longe dali. Após minutos de intensa correria, conseguiram entrar em uma mata fechada. Extenuados, resolveram parar. Já sob portentosas árvores, não ouviam mais com tanta intensidade os gritos de pavor de anjos e de demônios morrendo e se destroçando nem de explosões. Pouco depois, o silêncio reinava novamente na mata fechada.

 

– O que faremos? – Perguntou o ladino.

 

– Está anoitecendo, vamos nos recompor. Pela manhã, partiremos. – Sugeriu Formol olhando para Esmeralda, que ainda estava assustada e se sentindo culpada por quase terem morrido. Com efeito, a Igreja, desde a tenra infância de todos os seres humanos ou humanizados daquela região, ensinava que a culpa era sempre da mulher. Tal ensinamento era perpetuado de geração em geração desde os primórdios da Igreja, tornando a repressão à mulher um comportamento sistematizado que vinha desde o berço. Esmeralda, em que pese não religiosa e avessa aos dogmas arcaicos da Igreja, foi educada sob a influência, ainda que tênue, do conservadorismo e misticismo dos velhos senhores da Igreja, cujas crenças nada mais eram do que um meio de opressão sobre os ignorantes e sobre o sexo feminino, bem como um meio de vida de anciões avessos ao trabalho.

 

Por mais forte e independente que fosse Esmeralda, era difícil viver e ao mesmo tempo ignorar a sociedade medieval, machista e atrasada na qual cresceu, na qual o sobrenatural valia mais do que o saber científico, na qual os placebos substituíam os medicamentos reais e na qual a verdade, inclusive científica, derivava de um livro de fábulas infantis terroríficas, escritas, mal e porcamente, sabe-se lá por quem, chamado Bíblia.

eva e a serpente

Assim como Esmeralda, as crianças daquele mundo não tinham opção de não ter uma religião ou de escolher a seita que gostaria de seguir. Na idade adulta, quando tinham força suficiente para da religião sair eram perseguidos, abandonados ou tachados de imorais ou mortos, e nem era necessária a atuação dos arredondados e vetustos sacerdotes, pois a ignorância era tão generalizada que a população de ovelhas obedientes se responsabilizava pelos atos de violência contra as mentes livres do obscurantismo. Esmeralda dormiu com o peso da culpa sobre a consciência. Maldita Eva!

 

Amanheceu.

 

A floresta Malaica estava ali adiante e o necromante sabia disso. As primeiras árvores da parte mais fechada e escura da floresta, onde se situava a caverna, poderiam ser vistas em todo o seu esplendor com algumas horas de caminhada. O necromante havia tido vários sonhos nas últimas noites e mesmo durante cochilos. Sabia como entrar na parte densa da floresta, sabia por onde seguir, mas não sabia porque ainda tinha aqueles sonhos pedagógicos em 3D, com instruções detalhadas de onde ir. Aquela insistência de seus sonhos lembrava muito as missas religiosas e sermões intermináveis de padres, no qual a palavra Deus era citada em vão dezenas de vezes no monólogo abstrato que o pastor destinava às ovelhas humanas passivas que fingiam ouvir e entender o discurso unilateralmente criado pouco minutos antes da verborragia irracional começar. Enfim, Formol não tinha ideia do que o livro significava, não sabia por que merecia tanto poder, não sabia por que os demônios eram os únicos que o protegiam e não sabia por que muitas pessoas e classes de boa reputação o queriam morto. Precisava chegar ao livro o mais rápido possível. Era uma questão de vida ou morte. Sentia que só isso poderia salvá-lo. Não havia mais como voltar.

 

Por seus cálculos e pelos seus sonhos, levaria mais dois dias pelo menos para chegar ao destino final.

 

O trio começou a caminhar pela mata fechada, em silêncio. Os cavalos que os trouxeram até ali haviam desaparecido. Talvez estivessem mortos, talvez estivessem perdidos. A tríade já estava próxima da entrada da parte em que a floresta se adensava, quando escutou um distante relinchar de cavalos.

 

– O que foi isso? – Murmurou Hermes.

 

O paladino que os havia atacado no passado apareceu no horizonte, sobre uma pequena elevação que haviam deixado poucos minutos atrás. A luz do sol que nele refletia cegou momentaneamente nossos heróis. Então o inimigo avançou lentamente. Esmeralda e Hermes correram em direção à mata, mas o necromante ficou. O manipular de magia negra tinha ciência de que não podiam escapar de um paladino a cavalo. Além disso, estava cansado de correr, de fugir e de se esconder. O ataque fulminante dos anjos foi a última gota. Lutaria, venceria e obrigaria o adversário a responder todas as suas perguntas. Estava cansado de não saber o que acontecia. Não queria viver na ignorância.

 

Todos conheciam a fama dos paladinos. Estes eram guerreiros implacáveis e integravam a seita dos Cavaleiros Templários, que tinha como objetivo defender os homens dos demônios. Outrora, os templários eram uma seita rica, grande e influente, que recebia doações da Igreja, tinham membros infiltrados nos reinos e impérios dos homens e recebiam treinamento dos anjos. Mas com o passar dos séculos, os Cavaleiros Templários se tornaram um grupo pequeno e ganharam a pecha de radicais. Muitos diziam que esses paladinos eram desnecessários, herança de tempos difíceis. Isso era falado, porque os demônios haviam se dispersado e os anjos pouco intervinham nos assuntos terráqueos depois da guerra entre anjos e demônios vencida pelos primeiros.

 

O paladino passou a galopar rapidamente, preparou sua lança para atacar, colocando-a na posição horizontal, paralela ao cavalo, e fechou a viseira, mas aos poucos foi parando o galope fatal. Ao lado de Esmeralda e do ladino, que estavam alguns metros atrás do necromante, quase na parte mais robusta da floresta, sem que eles percebessem, surgiu cavalgando calmamente um outro paladino, mas vestindo uma armadura negra como as trevas: era o antipaladino.

 

A nova presença se aproximou lentamente do necromante e disse para ele seguir seu caminho. Avisou que cada passo dado em direção àquela caverna poderia representar ou um passo a mais para o fim de sua vida ou para sua glória. Asseverou o sinistro aliado que o necromante teria uma ajuda toda especial que, inclusive, já o aguardava ao lado de seus amigos. O necromante olhou para o ladino e para Esmeralda e viu que mais uma pessoa estava com eles. Queria fazer inúmeras perguntas, mas o antipaladino mandou ele se apressar, antes que novas patrulhas de anjos aparecessem.

 

– Vá com Deus.

 

Dito isso, o antipaladino continuou sua marcha em direção ao paladino. O necromante, irritado, resolveu partir. Sentiu que aquele ser era extremamente poderoso e que o protegia. Sentiu verdade em suas palavras, como nunca havia sentido antes.

 

O antipaladino só parou quando estava a poucos metros do templário. Havia pendências entre eles para serem resolvidas.

 

– Enfim, acertaremos nossas contas. – Disse o antipaladino.

 

– Traidor!

 

O necromante avançou para a floresta, olhou de relance para o quarto elemento, mas não parou para indagá-lo. Os três o seguiram.

alquimista

Em disparada, floresta fechada adentro, os quatro ouviam sons de espadas, gritos e explosões. Paravam e se escondiam entre moitas e árvores caídas como resposta a qualquer sinal de perigo ou quando o necromante sentia cheiro de morte. Passado o perigo ou o fedor de morte, logo retornavam à empreitada. E assim foi pelo resto do dia.

 

À noite pararam e se abrigaram sob uma árvore grande ao pé de um barranco íngreme. Aquele esconderijo era perigoso. O risco de rolarem morro abaixo e de se chocarem contra alguma árvore ou qualquer outro obstáculo era enorme, todavia se deslocar à noite era muito difícil e perigoso. Nem Formol conseguiria fazê-lo com precisão. Além disso, a mata era silenciosa neste período. Provavelmente seriam descobertos pela sensível audição dos anjos patrulheiros que faziam voos rasantes, iluminando todo o seu trajeto. Ao lado disso tudo, a estranha companhia era silenciosa e reservada. Não emitiria qualquer explicação, como deixou claro com suas atitudes furtivas e soturnas. Todos a temiam, porém, diante das circunstâncias, teriam que suportá-la. A noite foi longa. Gritos de dor e de morte eram ouvidos de tempos em tempo. Ninguém conseguiu dormir tranquilamente.

 

Amanhece.

 

A busca é retomada. Chegando às margens do rio que os levaria à caverna, encontraram um outro necromante. Esmeralda, assim que o viu, pressentiu o perigo.

 

– Ele vai nos matar. – Sussurrou ela.

 

– Acho que dessa vez você está certa. – Respondeu no mesmo tom Hermes.

 

– Ora, ora, ora, achei que eu fosse o último necromante vivo, mas pelo visto ainda resta mais um. E veja, ele tem amigos. – Disse com escárnio o novo inimigo.

 

A nova figura tinha olhos ameaçadores. Era o terror em pessoa.

 

– Quem é você? – Indagou Formol, desiludido, pois até um necromante, um ser de poderes sombrios, estava contra ele.

 

– Eu sou Fobos, rei da Tessália. O maior necromante que já existiu. Eu sou o único, eu sou a chave e você vai morrer! Matarei você e seus amigos e manipularei seus corpos para minha proteção, idiotas! – Vociferou Fobos.

 

Sem pestanejar, ambos os controladores da necromancia invocaram criaturas para destruir o inimigo. A luta foi intensa. Fobos era o necromante mais poderoso que o nosso herói já tinha visto. O poder de Formol ficava muito aquém do oponente. Os animais mortos invocados por Fobos estavam em maior quantidade e eram mais resistentes e ferozes. Existiam inúmeras caveiras para protegê-lo. Elas saíam por todos os lugares. Esmeralda tentou ajudar com seu grito, mas isso só conseguiu destruir alguns esqueletos e cadáveres invocados por Fobos. O inimigo não parecia se incomodar com os berros da garota. Pelo contrário, ele tentou atingi-la com suas esferas de poder verde, aquelas que retiravam a alma dos adversários.

 

O quarto elemento do grupo exposto, que era um conhecido alquimista, O’ Cruz, foi outro alvo do poderoso necromante. Por um triz sua alma não foi retirada do corpo. Na última hora, conseguiu desviar da magia negra. Sentiu que a esfera de energia lançada tinha um poder gravitacional enorme sobre a alma, tanto que viu uma parte de seu espírito sair do corpo em direção à bola verde enquanto ela passava velozmente, como se fosse um pano sendo içado por um anzol. Depois a vítima sentiu a alma se reacomodar em seu corpo à medida que a energia verde se afastava. Foi a sensação mais estranha que sentiu na vida. Um frio cortante percorreu todo o seu corpo.

 

A luta parecia perdida. A agilidade e a fúria do adversário eram incríveis. O ladino havia desaparecido. Estaria morto? Formol e Esmeralda aguardavam a morte chegar quando então o alquimista, após desviar de algumas caveiras assassinas e de algumas bolas de energia, jogou um invólucro negro perto do adversário e tudo foi pelos ares. Quando a fumaça se dissipou, Fobos estava caído e todo ensanguentado, preto de fuligem. Suas caveiras e animais mortos instantaneamente desfaleceram. O’ Cruz, o alquimista, olhou para Formol como se estivesse dizendo: o que está esperando criança? O herói chegou perto da vítima, puxou sua adaga e olhou para os olhos do oponente, mas resolveu poupar sua vida, embora tivesse visto que aquele ser não merecia viver, pois ambicioso e inconsequente. Entretanto, Formol jamais havia matado alguém e isso lhe parecia estranho, pois ele tinha o poder de manipular os mortos.

 

O necromante pediu aos companheiros que o seguissem. O alquimista preocupado e Esmeralda assentiram. Hermes, do nada, reapareceu. A mulher lançou um olhar furioso, como de costume, para ele, mas o necromante já corria à beira das margens do rio. O manipulador de magia negra sentia que estava chegando ao seu destino. Ouvia vozes e cânticos antigos dentro de sua cabeça que, a cada passo que dava, ficavam mais fortes e claros. Sentia uma onda passar por todo o seu corpo, revitalizando-o. Estava se fortalecendo. Nunca se sentiu tão forte. No entanto, repentinamente, um clarão na sua frente surgiu. Sentiu seu corpo ser arremessado pelos ares. Foi atirado contra uma árvore. Passado o choque e a subsequente tontura, percebeu que havia voado alguns metros para trás. Encontrava-se sob as sombras de uma grande árvore nas margens de um rio. Sentia a corrente do rio passar tranquila por uma de suas mãos. À sua frente viu um anjo, mas este não era como aqueles vistos alguns dias atrás. Era um ser gigantesco, descomunal, que emanava força e poder. A criatura tinha um aspecto imponente, como jamais Formol havia visto. Tratava-se de uma potestade, conforme ouviu de uma voz que não tinha condições de distinguir naquele momento.

potestade

A potestade rogou algumas pragas em uma língua desconhecida, mas que era familiar ao necromante. Parecia ser a mesma língua dos cânticos que povoavam sua mente e das palavras proferidas por Paulo. A criatura portava uma espada dourada e prateada, que brilhava muito, e que se dirigia ao rosto do necromante. A arma foi erguida lentamente. O necromante estava petrificado. A luz e o encantamento daquele ser turbavam os cânticos profanos que até então ouvia e, por consequência, tiravam toda sua força. Era o fim! A espada celestial já estava sobre a cabeça da potestade, apontada para o céu, pronta para descer e ceifar a vida do jovem, quando um vulto negro e vermelho atingiu o agressor.

 

Em um piscar de olhos, a situação havia se modificado. Não havia mais nada na frente do necromante. Olhou para o lado e viu que no meio do rio estava a potestade tentando se erguer do ataque. Parecia estar gravemente ferida. Perto dela havia um gigantesco demônio. A retina do necromante se dilatou. Jamais viu uma besta tão grande, demoníaca e poderosa. Era poder na sua forma mais pura. Tinha mais de 3 metros de altura, pele vermelha, grandes chifres negros curvados e músculos desenvolvidos. Fedia a enxofre. O ar ao seu redor tremeluzia em razão do forte calor que dele emanava. A água sob seus pés fervilhava. Ele olhou para o necromante e disse:

 

– Mestre.

diabo

Um filme passou pela cabeça do herói. Esmeralda ficou boquiaberta e o ladino desapareceu. O’ Cruz levantou o necromante e o fez correr em direção à caverna. Em poucos minutos, chegariam nela. Os três dispararam. O’ Cruz estava lúcido, parecia ser o único a raciocinar naquela situação. Os outros dois, Formol e Esmeralda, corriam mais por instinto. Ouviam-se sons de lutas entre anjos e demônios no céu. Gritos estridentes de agonia e de dor. Tilintar de espadas poderosas. Raios eram vistos e acompanhados de trovões. Chovia fogo. Perceberam que o rio estava cheio de criaturas e homens mortos sendo levados pela correnteza. Era um cenário apocalíptico.

 

O necromante percebeu que sua companheira estava espantada e que chorava compulsivamente. Tal constatação fez com que ele mesmo se esquecesse do horror que inundava sua alma. Sabia que ambos morreriam em breve. Mas isso parecia um pequeno detalhe em meio à toda aquela situação. Várias coisas o atormentavam. Ele foi chamado por um demônio poderosíssimo de mestre. Uma potestade tentou matá-lo. São Paulo e Rogar também. Sabia que atrás dele também estavam os Cavaleiros Templários, a Igreja, os “bersekers” e todas as entidades celestiais. Ele era defendido por demônios! Havia um alquimista obscuro, amigo de um antipaladino, ao lado dele. Os necromantes estavam em extinção e ainda assim se matavam. A imagem do livro e da caverna, bem como aqueles cantos, estavam irritando o herói e pareciam atraí-lo para um lugar sem volta. Tudo isso era angustiante e o fazia pensar em suicídio, porém o que mais o deixava arruinado era saber que Esmeralda estava nisso tudo. Ela morreria com ele, não tinha mais volta. Seria considerada uma bruxa e uma entidade maligna; caçada por heróis e entidades celestiais. Era uma cúmplice dele, embora ele não soubesse que crime havia cometido. Provavelmente seus pais devotos e o pai da moça morreriam também – ou de desgosto ou queimados pelos inquisidores, que costumavam matar familiares de suas vítimas também. A beleza de Esmeralda seria símbolo de depravação.

 

– Lá está a caverna! – Gritou o alquimista – Vá, vá! – Continuou berrando – Não olhe para trás! Tenho que derrubar o último inimigo. Esmeralda venha!

 

– Não! Esmeralda vem comigo! – Bradou instintivamente o necromante, puxando-a pela mão.

 

O alquimista ficou contrariado, mas assentiu. Sabia qual seria o destino de ambos. Estava mais preocupado com o oponente que guardava a caverna:

 

– Apareça druida, eu sei que você está aí!

 

O’ Cruz jogou algumas bolas brancas no chão. Foi fumaça para todo o lado. Os dois heróis não olharam para trás, mas sentiram que outra grande luta ali começava.

 

Entraram no buraco. A caverna era escura e funda, mas o necromante sabia se orientar nela devidos aos seus repetidos sonhos. Sentia-se forte nela. Conseguia perceber o que estava a sua volta. Sabia onde estavam os declives, as estalactites, pedras, buracos… Sentia, inclusive, a presença dos pequenos animais e insetos que moravam na gruta e daqueles cujos corpos jaziam inertes.

 

O necromante lia as feições das pessoas. Apesar da escuridão, percebeu no rosto da companheira o medo e o terror. Ele sentia que a companheira tinha muitas dúvidas e sentia que havia uma luta árdua em sua mente, mas percebeu que ela gostava dele, que talvez o amasse e que não se sentia ameaçada por ele, mesmo tudo indicando que ele era a criatura mais perversa do mundo. Estaria ela se enganando?

 

Formol prometeu para si mesmo que nada aconteceria com ela. Ele pegaria o maldito livro, ganharia poderes e mataria todos os demônios que o tinham ajudado. Faria tudo por ela, pois percebeu que talvez a amasse, que talvez ela fosse o seu primeiro amor. Ela era a primeira mulher que não o julgava pela sua aparência sombria, exceto pelo hipocorístico que lhe dera (Formol). Embora fosse arrogante e mandona, sabia ser atenciosa e carinhosa também.

 

Alguns segundos depois desses pensamentos, eles entraram em uma câmara escura, com uma leve iluminação esverdeada. O necromante ficou eufórico e sentia o poder fluir em suas veias; jamais sentiu aquilo. Talvez, naquele momento, fosse mais poderoso até do que o antipaladino e do que muitos anjos e demônios que o haviam atacado. Olhou para Esmeralda, indicando que estava maravilhado com o que estava sentindo. Queria mais e mais. Nem o pavor nos olhos de sua parceira o consternava. De uma hora para outra ficou cego. O poder o cegou. A cada passo que dava em direção ao livro, sua sensação de força e impetuosidade aumentava. Parou diante dos alfarrábios. Estava para abri-los, quando ouviu uma voz familiar.

 

– Lúcifer, pare!

 

 

CONTINUA (DAQUI UM MÊS)

Farei o lançamento do meu livro A Nova Teogonia na Bienal do Livro, no dia 01/09/16, às 19:30, no estande da Scortecci =)

A Nova Teogonia tem na Livraria Cultura também!

O segundo volume está quase pronto e será lançado na mesma data!

Depois coloco um trecho dele aqui para aqueles que não o leram quando eu o publiquei aqui.

 

PS: esta história (Lúcifer e a Conspiração dos arcanjos), comecei a escrever em 2010, mas não a terminei. Só escrevei metade. No entanto, pretendo terminá-la até o meio do ano que vem =)

PPS: o texto não é o final

PPPS: fiz algumas modificações no texto da segunda parte, mas só vou atualizar daqui um mês. Não se preocupem, porque não mexi na estrutura, apenas fiz algumas incrementos na história dos personagens.

6 pensamentos sobre “Lúcifer e a conspiração dos arcanjos – Parte 3

  1. Marcus Vinícius disse:

    Espero que ele não pare. Que pegue o livro e o poder. E que não jogue tudo fora so por causa de uma mulher.

    Estou na torcida pelo nosso herói Lúcifer /Formol.

  2. quando sai a parte 4

  3. pq vc não publica o livro no site issuu dai quem não comprou o livro pode ler ele online

    • Adonis disse:

      Falta alguns detalhes para ficar pronto. Não terminei ainda, pois estou resolvendo uns problemas pessoais, mas logo vou publicar a história aqui, na amazon, na issuu ou em papel. Abraços!

    • Adonis disse:

      Estou registrando a história na Biblioteca Nacional e vou publicar a história aqui nas próximas semanas para ver o que as pessoas pensam dela. Depois público no amazon ou neste site que vc indicou para ganhar um troquinho, mas o meu objetivo não é ganhar dinheiro, é deixar um legado para a humanidade, além do meu trabalho e de eventuais filhos. Publiquei as partes um, dois e três novamente, com acréscimos significativos, e a parte quatro. Abraços!

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