Lúcifer e a conspiração dos arcanjos – Partes 1, 2, 3 e 4

Para quem estava acompanhando a história antes (eu havia publicado as partes 1, 2 e 3), observo que fiz alguns acréscimos e supressões no texto, sem contudo, mexer na estrutura dela. Esta é a versão definitiva que está em processo de registro na Biblioteca Nacional (para o fim de evitar lesão a direitos autorais). Com essas alterações, só quis ambientar melhor a história e fazer com que vocês conhecessem melhor os personagens (acresci a origem do ladino e contei sobre a infância do necromante). Estou publicando com estas partes 45 páginas da minha história que tem 191 folhas (fonte arial e tamanho 12).

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O necromante acordou assustado. Sonhou que estava dentro de uma câmara rochosa, totalmente escura, exceto pela luz esverdeada que se elevava até o teto e que envolvia um livro gigantesco no qual havia a cabeça de um demônio estampada na capa. O sonho se repetia dia após dia e aquilo o incomodava. Não sabia o que significava aquele devaneio, não sabia se a caverna era real e não sabia exatamente onde ela poderia estar.

 

grimório

 

Andando pelas sombras de um bosque verde, florido e vívido, repleto de animais selvagens e flores de todas as cores e tamanhos, acarpetado por uma relva orvalhada, cujo brilho era sem igual, o necromante buscava respostas e esmiuçava as imagens contidas em suas lembranças para solucionar os dilemas ventilados por seus sonhos.

 

O andarilho passava por um local que julgava seguro, querendo saciar sua fome, no entanto, repentinamente, foi atacado por um animal selvagem. Caiu ferido. O braço esquerdo sofreu quatro pequenos e profundos cortes. As garras da fera haviam transgredido o pesado manto negro que recobria o necromante. Sentiu o sangue correr sob a vestimenta. Antes que pudesse se levantar, percebeu que a fera se preparava para dar o segundo e definitivo bote. Era uma pantera. Ela estava a cerca de dois metros de distância. Seus olhos eram amarelos; seu olhar penetrante e profundo. Estava faminta. Aguardava apenas um momento de distração do herói sombrio para iniciar o ataque final; aguardava apenas o piscar de olhos da presa. A vítima piscou. O necromante sabia que era o fim. Porém, quando abriu novamente as pálpebras, um demônio havia atravessado a pantera ao meio com suas garras. O salvador, calmamente, livrou-se do animal morto, aproximou-se e estendeu o braço ensanguentado para aquele que acabara de ajudar. Então perguntou:

 

demonio

 

Está tudo bem, amigo?

 

Sua voz era anasalada, ardilosa e irritante; seu aspecto repulsivo. O cheiro forte de enxofre o acompanhava. Aturdido e assustado, o necromante se levantou preparado para a luta, embora não sentisse qualquer tipo de agressividade vindo daquele ser.

 

– Por que você me salvou?! O que quer de mim?! – Caiu no chão novamente. – E… eu não sou se amigo! – Falou comedido o necromante.

 

O demônio deu de ombros e disse que a Bíblia perdida tinha dado sinais. Segundo o salvador, o Grimório estava querendo ser achado depois de séculos na escuridão. A criatura disse que só um necromante poderia encontrá-lo e lê-lo. De forma rasa, explicou que, ao fazê-lo, teria muitos poderes. Tornar-se-ia um deus na Terra.

 

O necromante riu sorrateiramente e desdenhoso, embora ainda assustado e debilitado. Não quis acreditar que existia um livro assim. Achou estranha a ideia de que um demônio o quisesse poderoso. Então gritou:

 

– Eu não acredito em você, besta infernal! Acabarei com sua raça agora mesmo. Nada que vem de um demônio pode ser bom.

 

Como andam seus sonhos, meu caro?

 

Por um momento o tempo pareceu parar. “Sim, os sonhos“, pensou consigo mesmo. Suas repetidas quimeras, cada vez mais claras, que tanto o intrigavam e o incomodavam.

 

– Meus sonhos? – Balbuciou perplexo.

 

Sim, seus sonhos. Você não tem sonhado com um livro? – Perguntou calmamente o demônio.

 

– Mas como você sabe de meus sonhos?!

 

Silêncio.

 

O demônio da capa do Grimório parecia um pouco com aquele que estava perante ele. A criatura o deixou, desejando-lhe boa sorte na “busca”.

 

demonio wallpaper

 

O salvador correu em direção à floresta. O necromante, por seu turno, tentou impedi-lo, mas logo desistiu, talvez por medo daquela criatura asquerosa ou por simples senso de justiça, afinal ele foi salvo da morte certa por ela. Estava curioso. Aqueles sonhos começaram a tomar conta de sua vida.

 

Após muito meditar, o herói resolveu ir atrás do Grimório. Iniciaria sua busca. Pressentia que seu destino seria trágico, todavia, por outro lado, o poder… ser um deus na terra. Seria verdade? Poderia fazer tudo o que queria, mas que nunca pôde. Não precisaria mais reprimir seus sentimentos e nunca mais seria discriminado por ser um homem com um aspecto nada convencional. Os necromantes, assim como as bruxas, eram hostilizados pelo tipo de poder e de ciência que desenvolviam e estudavam. Estavam associados ao mal, a demônios. Eram perseguidos e muitos eram queimados vivos, sem defesa. Tinham que viver nas sombras em razão dessa estigmatização. Frequentemente, eram questionados por inquisidores da Igreja sobre suas atividades. Diante dessa situação, muitos necromantes e bruxas se revoltavam e matavam pessoas ou promoviam o pavor. Outros, no entanto, procuravam o isolamento. Aqueles, no mais das vezes, morriam e os outros viviam como nômades, não criando vínculos afetivos, em uma espécie de morte civil. A ciência negra e o poder de controlar cadáveres e almas nunca foram bem-vistos pela sociedade e sempre estavam associados a personagens malvadas. Entretanto, o necromante não se sentia maligno. E essa situação lhe causava espécie, confusão. Aliás, estranhamente, compartilhava a convicção da sociedade de que os demônios eram seres malignos e que deveriam ser mortos, embora jamais tivesse conhecido um antes daquele dia.

 

Enfim, o andarilho jamais mataria um ser humano ou machucaria alguém, exceto em legítima defesa ou estado de necessidade. Mas, ainda assim, era visto como um sujeito perigoso e que deveria ser evitado. Isso o fazia se sentir vazio e impotente por dentro. Como enfrentar o preconceito e a intolerância de uma sociedade imersa na fé e dirigida pela Igreja monoteísta? Talvez por isso, não suportasse o convívio com outras pessoas e, também em função do isolamento, não suportasse a luz do sol. Sentia-se cego quando estava sob a luz solar. Não tolerava a luminosidade. Às vezes, nas horas mais difíceis e solitárias, deixava de acreditar que essa incompatibilidade com a luz solar era apenas o efeito de toda a conjuntura excludente no qual estava inserido e chegava à conclusão de que o problema estava nele mesmo e que ninguém mais poderia ser responsabilizado por sua condição.

 

Mas agora poderia acabar com suas incertezas, seus altos e baixos, e poderia eliminar tudo isso tendo poder, sendo um deus. Ajudaria seus pares, cada vez mais raros, e acabaria com os preconceitos. Sim, o Grimório seria achado e não seria difícil, pois os sonhos não saíam da sua cabeça. Aliás, eram cada vez mais detalhados. O necromante já visualizava bem mais do que a câmara onde se encontrava o livro e no qual seus sonhos acabavam. Sabia que o livro se encontrava em uma região de floresta tropical densa, provavelmente a floresta Malaica. Não seria tão difícil encontrar o tal livro se aquelas imagens continuassem a descrever o caminho até ele.

 

Caiu a noite.

 

Perto do bosque havia um vilarejo. O necromante foi em direção ao armazém local, que também funcionava como bar e hospedaria para errantes solitários como ele. Entrando no estabelecimento iluminado por tochas e lamparinas, ouviu alguém falar que “eles mesmos compram as próprias entradas”, fala que foi seguida por grandes gargalhadas. Não entendeu do que se tratava, mas sabia que queria sair dali logo. Conferiu os preços dos produtos e percebeu que seu dinheiro estava acabando; o que tinha não era suficiente para comprar tudo o que precisava. A viagem de ida e volta até a floresta que julgava ver em seus sonhos seria longa. Tinha quase certeza de que se tratava da floresta Malaica, mas o fato da certeza não ser absoluta o angustiava. Onde arranjaria dinheiro para a empreitada? E se chegando até a floresta Malaica descobrisse que não era a floresta certa?

 

Dentro do estabelecimento passou a recolher alguns produtos: carne salgada, pães, massas, legumes e alguns medicamentos milagrosos de um alquimista famoso na região, O’ Cruz. Todos os homens que até então bebiam cerveja e se provocavam, batendo-se e medindo forças na queda de braço, passaram a olhar de uma maneira ameaçadora para o extenuado viajante. O ambiente era fétido e sujo, repleto de insetos. “Em breve“, pressentia o necromante, “alguns deles levantarão e me atacarão“. Ele não era conhecido na região e também não conhecia qualquer serviço funerário ou cemitério no local para que pudesse usar sua necromancia a fim de se defender. Resolveu comprar logo o máximo de provisões que o seu dinheiro permitia para, então, cuidar de sua ferida no braço, que era profunda e estava começando a infeccionar.

 

A tensão e a pressa do necromante eram tamanhas que não percebeu que uma pessoa estava atrás dele. Só se deu conta da situação de vulnerabilidade quando sentiu um leve toque em seu braço ferido. Doeu muito, mas ele teve que conter o grito. Virou para trás e viu uma bela mulher. Morena de pele clara, com cabelos longos e negros e olhos profundamente verdes. Era a mais bela mulher que já vira. Ficou confuso por um momento. O normal seria ser atacado com uma porretada ou uma garrafada e depois ouvir gargalhadas, como já havia acontecido alhures.

 

esmeralda

 

A mulher não lhe disse nada, apenas pegou seu braço e nele passou um unguento. Doeu demais. O necromante tentou afastar o membro, mas ela impediu. Então a moça disse ao pé do ouvido dele:

 

– Venha comigo. – E o herói a seguiu. Como consequência, todos os homens do recinto o olharam ferozes, talvez enciumados.

 

O aroma que ela exalava era tão sedutoramente hipnotizante que mesmo para um necromante rejeitado, cansado e perturbado, que até então só havia “pegado” bruxas e coisas do gênero, era impossível dizer não. Quando se viu fora do estabelecimento comercial, percebeu que não havia pago nada do que carregava, no entanto isso não parecia ser um problema para a bela, nem para o rapazote que estava atrás do balcão. Ela andava com peças íntimas vermelhas sob um véu semitransparente que cobria praticamente todo o corpo. Alguns passos depois, ela perguntou:

 

– Eu nunca havia visto um homem ser salvo por um demônio. Quem é você?

 

O necromante ficou encabulado e temeroso, pois sua vida poderia estar em risco. Aquela mulher tinha um olhar ligeiro e dominante. Não poderia ser enganada facilmente. Então o encurralado manipulador de almas percebeu duas coisas: 1) a melhor maneira de se livrar daquela situação seria contar a verdade, omitindo alguns trechos, é claro; 2) a mulher era muito independente. Andava entre inúmeros homens grotescos, mal-educados e ignorantes, mas, ainda assim, impunha respeito. Para o necromante aquilo era estranho. Em geral, em ambientes espúrios como aquele, as mulheres eram igualmente espúrias, feias e acabadas, depravadas ou vítimas constantes de violência e de todos os atos de libidinagem que se possa imaginar. Mas aquela moçoila não. Era irresistivelmente sedutora, limpa, linda, provocante e ignorava o assédio masculino, com inescondível desprezo. Era estranho que uma mulher daquela vivesse em ambiente tão degradado.

 

– Estou em uma busca secreta.

 

Os olhos da moça brilharam.

 

– Que busca?

 

– Bom, preciso encontrar um livro… na floresta Malaica.

 

Eu nunca estive lá”, pensou a moça.

 

– Qual livro?

 

– O Grimório.

 

A garota pensou, pensou e sentiu que aquilo não lhe era familiar.

 

– Para quê?

 

– Não sei. – Os ombros do necromante se contraíram e sua respiração relaxou.

 

– Ah! Eu vou chamar meus amigos brutamontes – Disse em tom ameaçador, como se quisesse testar o depoente.

 

– Espere, eu tenho sonhos com esse livro e aquele demônio disse que eu poderia ficar poderoso se o encontrasse.

 

– Humm. Muito estranho. Acho que você está me enganando.

 

– Eu preciso ir. – Interveio impaciente o necromante quando percebeu que estava sentado em uma pedra e que a moça se inclinava sobre ele, como se estivesse sendo interrogado e acusado por um inquisidor da Igreja. Os olhos da moça eram tão hipnotizantes que o necromante não se concentrava em mais nada, a não ser em suas perguntas.

 

– Qual o seu nome?

 

– Não posso dizer.

 

A moça riu com sarcasmo e ameaçou:

 

– Diga ou morrerá.

 

Os olhos do necromante se entristeceram:

 

– Preciso ir.

 

A diva estava confusa e curiosa. Aquele homem dócil e de olhar sincero não poderia estar enganando-a, ele tinha que ser uma boa pessoa. Todavia, a imagem do demônio salvando-o e conversando longamente com ele a torturava. Estava curiosa. Aquilo era surreal. Se não fosse a fera para matá-lo, deveria estar morto pelas mãos daquele demônio. Pelo menos era assim que as coisas funcionavam com os demônios.

 

– Eu vou com você. Espere aí sentado.

 

– Não! É perigoso.

 

– Eu sei. – Sorriu.

 

Quando a moça, que depois se qualificou como Esmeralda, virou as costas e entrou no bar, antes de ouvir as provocações que os homens bêbados lhe dirigiam, o necromante percebeu um vulto atrás de algumas árvores a poucos metros dele. Preocupou-se. O que seria? O demônio?! Minutos depois, a bela reapareceu com uma mochila nas costas e dois cavalos de médio porte. Disse:

 

– Preciso tirar férias dessa espelunca do meu pai. Para onde vamos?

 

Formol, apelido que a moça lhe dera ao ver sua face pálida e jovial, e Esmeralda seguiram o caminho para o sul, na direção da floresta tropical, em meio à escuridão da noite.

 

Ao longo do dia seguinte, conversaram bastante. O necromante a deixou ciente de todos os seus sonhos e de suas dúvidas. Também contou um pouco de sua história. Para tentar persuadi-la a reconsiderar sua decisão de acompanhá-lo na jornada, relatou sobre as perseguições e humilhações que sofreu, e que todo necromante sofre. Relatou que já esteve preso por vários dias em uma igreja por ordem dos Inquisidores, pois decidiu largar os estudos canônicos para se dedicar às artes negras. Mas a moça estava resoluta e ignorou os perigos narrados pelo amigo. Limitou-se a perguntar o que era estudado na Igreja.

 

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Formol explicou que a teologia, “ciência” da Igreja, tinha como objeto de estudo o “nada”, pois não se estudava nada concreto, visto que não era uma ciência natural. Segundo o necromante, eram estudados apenas textos escritos por homens desconhecidos, relatos de aparições, regimentos elaborados por frades sem instrução formal, histórias de exorcismos, milagres não comprovados e os dez dogmas. Ainda sobre a teologia, arrematou dizendo que se discutiam apenas vírgulas, pois qualquer texto, principalmente os irracionais, admitiam inúmeras interpretações, e que não havia qualquer aplicação prática para essa “ciência”, a não ser impô-la aos descrentes. Concluiu que era uma espécie de filosofia baseada em falsas premissas, não na razão.

 

Esmeralda deu de ombros, pois não tinha qualquer interesse em cursar uma faculdade, visto que o pai já lhe dava tudo. Com efeito, como explicou depois, vivia no mais absoluto tédio.

 

Formol, notando o desinteresse da moça por tudo aquilo que envolvia estudo e disciplina, também contou um pouco sobre sua família. Ele disse que os pais, Shaun e Dolly, ficaram desgostosos com as escolhas dele. Explicou que seus pais eram pessoas muito simples e que queriam ter um pastor, um inquisidor ou um juiz na família. Para tanto, despejaram todas as suas economias nos estudos do filho.

 

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Segundo Formol, o pai, integrante da guarda suíça, encantado com a opulência da Igreja, mas sem qualquer influência nela, porque não sabia ler e porque não conhecia ninguém que fizesse indicações, dizia que o importante era estudar direito canônico para enriquecer. O genitor lembrava o filho de que cobrar dízimo em atraso era uma fonte lucrativa de honorários, até porque possibilitava um subornozinho, mas que isso não era mais lucrativo do que criar leis em nome de Deus. De acordo com o pai do ser soturno, os legisladores da Igreja tinham muitas regalias em seus gabinetes. Dizia que os padres usavam a infraestrutura do local de trabalho para fins religiosos e pessoais, principalmente pessoais. Sonhava alternativamente que o filho fosse juiz para aplicar a lei divina, julgando com base na palavra do Senhor. Ignorava quando o filho questionava a origem divina das Escrituras, pois, segundo o menor, eram mãos humanas que as escreviam. O pai de Formol não tolerava outros questionamentos do filho ou da mulher. O trabalho dele como guarda era muito estressante e, com o passar dos anos, o genitor de Formol passou a ser uma pessoa irritadiça.

 

Sobre a mãe, Formol contou que ela era devota do Senhor e vivia deprimida. Não havia estudado e tinha como único refúgio a religião. Rezava várias horas por dia. Apesar de não saber ler, acreditava nas Escrituras e queria que o filho fosse pastor. Dolly admirava tanto aqueles pregadores e suas performances no altar… um verdadeiro show que valia ser bem remunerado. Eles falavam tão bem e transmitiam tanta bondade através do olhar… Segundo a ascendente, pareciam o Salvador. Para ela, não havia como os pregadores serem homens inescrupulosos, como muitos sussurravam pelos cantos. Eles tinham rios de dinheiro porque entendiam a palavra do Senhor. Dolly acreditava que essas pessoas que denegriam a imagem dos pastores não tinham coragem de enfrentar a Igreja de frente e que demônios murmuravam em seus ouvidos à noite.

 

Conforme relatou Formol, Dolly adorava quando alguém era curado ou quando os pastores faziam milagres nas missas. Era comum que pessoas de muletas dessem cambalhotas depois de serem curadas pelo pastor. A maior emoção da devota era assistir a exorcismos, que raramente eram feitos em praça pública e que sempre eram realizados em mendigos, crianças e ignorantes, nunca em pessoas poderosas, e a maior satisfação dela era rir do entendimento de outras ramificações da Igreja, cujos membros eram designados como “porcos”, “gambás”, etc., em consonância com o sectarismo largamente praticado pelos senhores da verdade. Segundo diziam as más línguas, a atribuição de nomes de animais para membros de outras seitas visava não vincular preceitos religiosos a rixas, violência e guerras. Com isso, a Igreja buscava passar a ideia de que era reflexiva, preocupada, virtuosa, atenta e pacífica, e não um pretexto para violência e divisão.

 

O necromante continuou a narrativa sobre a mãe, dizendo que o chefe religioso de Satânia alardeava que a Igreja era a mãe de todas as ramificações religiosas que surgiam aqui e ali, desde, é claro, que pudessem ser compatibilizadas com o entendimento reinante na alta cúpula dela. Por isso, outras igrejas não deviam ser consideradas “irmãs” da Igreja, mas sim filhas, entendimento completamente absorvido pela beata Dolly. E caso não fossem consideradas sequer filhas, não sendo possível um sincretismo religioso, instrumento que facilitava o abocanhamento de fieis, haveria perseguição e extermínio, como havia acontecido muitas vezes. A Igreja não tinha culpa por milhões ou bilhões terem nascido sob a insígnia do Deus errado, era o que diziam os clérigos e pregadores admirados por Dolly.

 

Ainda segundo o necromante, apesar de pobre e apesar de brigar por causa da falta de dinheiro com Shaun, há muitos anos, Dolly dava esmolas para os miseráveis profissionais que perambulavam de vilarejo em vilarejo e dava sua contribuição semanal à Igreja, além de gastar seus últimos centavos em quermesses e mais quermesses. A mulher cantava músicas religiosas enquanto fazia o trabalho doméstico na esperança de que fosse ouvida pelo Altíssimo e pelos seus cada vez mais abundantes Santos – a política da Igreja naquele momento era santificar o máximo de pessoas possíveis para angariar mais fiéis, servindo, para tanto, qualquer relato de milagre.

 

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Com tristeza, disse o necromante à Esmeralda que a Bíblia lhe era imposta por Shaun, assim como eram impostos os livros de direito canônico e os livros de doutrinação. Formol não entendia aquilo: pouquíssimos fatos descritos na Bíblia tinham alguma comprovação histórica ou cultural. Não era um livro fidedigno e foi escrito por pessoas que sacrificavam crianças.

 

Prosseguiu contando para Esmeralda que quando era pego pelo pai lendo sobre necromancia era espancado. A mãe nada fazia, pois, em seu íntimo, temia que o filho fosse para o Inferno. Desde criancinha, ela tinha medo do Diabo e de queimar eternamente no Inferno pelo que poderia vir a fazer na fração insignificante de vida que ainda teria pela frente. Limitava-se a chorar e a orar enquanto o filho apanhava, pedindo perdão para o Senhor. Quando o flagra ocorria, após o espancamento, ambos os pais levavam o filho para confessar e deviam pagar pela audiência e pelo sermão do padre. “Você pecou, reze trinta vezes o “Homem Invisível” e dez vezes a “Aff Mulher””, dizia o religioso.

 

Formol contou que no vilarejo a família era alvo de chacota toda vez que ia à Missa, e não era porque a mãe se contagiava por causa da música das ovelhas, batendo palminhas. O necromante era a razão do escárnio por vários motivos, dentre eles ser solitário, introspectivo, racional e sofrer de cristofobia. O pai, provedor da casa, durante a volta da histeria coletiva, lembrava ao filho que seu emprego estava em risco por causa das esquisitices dele. Essa situação perdurou por anos até ficar insustentável. Um dia o pai expulsou o necromante de casa e sua mãe disse que rezaria pela alma dele todos os dias e que, assim, ele estaria protegido.

 

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Formol finalizou a narrativa dizendo que foi expulso de casa ao enveredar para o caminho da necromancia e, desde então, vagou por aqui e ali, pedindo favores e cultivando sua ciência. Tempos depois, soube que um padre foi até a sua antiga casa e a benzeu. O religioso jogou água da chuva nos cômodos e disse algumas palavras bíblicas aleatórias. Todos oraram, para variar, o “Homem invisível” e a “Aff mulher”. Depois declarou que a casa estava benzida, livre de demônios e que a energia maléfica que a rondava havia ido embora para sempre. O preço disso foi o salário do pai do necromante do mês seguinte.

 

– Odeio pais. – Foi o comentário da bela após o fim do extenso relato do novo amigo. – Mas ainda bem que seus pais não são palpiteiros e intrometidos. O meu pai vive mexendo nas minhas coisas e duvidando de minha capacidade como mulher. Digo que sou apenas fisicamente mais frágil do que ele, mas que, ainda assim, posso fazer tudo o que ele pode e de salto alto.

 

Esmeralda contou um pouco de sua história. Disse que vivia presa ao marasmo, olhando para o teto e escrevendo poemas. Contou que vivia na sujeira da mercearia do pai, recebendo propostas ridículas de casamento e rodeada de homens e velhos babões, que diariamente a devoravam com os olhos. Estava cansada daqueles vermes do bar, do paternalismo e do autoritarismo do pai e da ausência da figura materna. Desde que sua mãe se fora, quando era muito pequena, as coisas nunca mais foram as mesmas. Seu pai se tornou uma espécie de dono da região e não se sujeitava nem mesmo à Igreja, embora lhe prestasse serviços como mercenário. Era um caçador violento de demônios e inimigos da Igreja, controlando todo o pequeno comércio da região. Sob suas ordens, havia muitos capangas miseráveis e inescrupulosos. Muitos deles seriam capazes de matar para ter a mão dela em casamento. Todavia, nunca tivera uma proposta séria, de um amor verdadeiro, pois o temor que seu pai incutia era tão grande que todos os pretendentes dela eram capachos do “coronel”, como ela gostava de chamar o pai, ou se acovardavam na frente do pretenso sogro. Muitos acreditavam que o “coronel” indicaria um deles para ter a mão de sua filha e muitos esperavam a morte dele para arrebatá-la. No final das contas, a única diversão dela era desafiar o pai, fugindo, fazendo pilhéria, graça, chiste e facécia, colocando em apuros todos aqueles homens subordinados a seu genitor que nutriam uma grande lascívia pela moça. Ainda assim, provocando muitas confusões, estava entediada naquele lugar. Seu pai dizia que ela era igual a mãe, impossível de ser controlada, muito embora isso não o impedisse de se imiscuir indevidamente na vida da filha, trazendo inúmeros constrangimentos e insatisfação para a descendente.

 

Atento à desenvoltura e naturalidade da moça, o necromante ficava cada vez mais perplexo, pois uma mulher que não tinha medo de acompanhar um desconhecido em uma busca desconhecida não era usual. Será que ele não era considerado um risco nem mesmo para uma mulher jovem e mimada? Devia se preocupar com isso? Era um necromante. Em tese, algum medo devia impor. Normalmente as mulheres tinham medo de serem estupradas e não gostavam de ficar longe da família por muito tempo e nem de passar por apuros. Apreciavam o conforto mais do que qualquer outra coisa e a previsibilidade também. Muitas não se mexiam sequer para buscar o amor da vida, pois tinham um orgulho infundado e imenso dentro de si próprias. Enfim, mulheres jovens e bonitas queriam segurança e viviam para o cuidado de seus cabelos e dos seus corpos, pois a vaidade e a insatisfação eram inerências à feminilidade. O ouvinte soturno sempre acreditou que as filhas de homens como o “coronel” eram arredias, fúteis e submissas, mas esse não era o caso de Esmeralda.

 

À longa conversa se sucedeu o silêncio. Estava muito calor. Ao constatar isso, Esmeralda começou a indagar o necromante sobre sua vestimenta. Muitas coisas nos trajes dele a incomodavam. O rapaz estava vestido com pesadas roupas negras, que lhe cobriam o corpo inteiro, e o calor era insuportável, mas ele, como sempre dizia, “estava acostumado“. Preferia passar calor a ser visto pelas pessoas e não gostava de interagir com elas. Não gostava tampouco que vissem seu rosto.

 

necromante

 

– Por que não tira esse capuz? Você se veste como a “dona morte”. – Observou a jovem.

 

– Eu… eu estou muito pálido – Respondeu evasivamente.

 

– Não me admira estar pálido, você está coberto de cobertores negros em pleno verão. Vamos, tire o capuz. – Determinou a bela, puxando a peça para baixo. – Até que você é bonitinho. – Finalizou após ver o rosto do companheiro em toda sua integridade.

 

O necromante se sentia pelado sem o capuz. Tinha vergonha do seu rosto pálido e fino. Odiava o sol também, mas como em breve notaria, teria que se acostumar com as opiniões de Esmeralda. Logo, outras peças de seu vestuário seriam questionadas…

 

Andaram por mais algumas horas, até a noite cair. O necromante estava para acender a fogueira, porém foi impedido de consumar o ato por Esmeralda. Ela disse que provavelmente seu pai já estaria furioso atrás dela, querendo a cabeça do companheiro. Sugeriu que dormissem fora da trilha, entre as árvores. Dormiram juntos, sob o pesado manto negro do necromante. “Ela é tão quente“, pensava Formol, mas logo lembrava dos homens do bar e imaginava o pai da moça matando-o. Precisava se conter de qualquer jeito.

 

Amanheceu.

 

Continuaram a jornada em suas respectivas montarias. No entanto, no caminho, repentinamente, encontraram um paladino. Ele tentou matar os viajantes sem qualquer tentativa de diálogo. O oponente tinha um escudo em um dos braços e uma grande lança no outro. Estava protegido por uma armadura espessa e maleável, com uma grande cruz vermelha sobre o plano branco que recobria o peitoral. Seu elmo de ferro escondia-lhe a face.

 

O primeiro ataque foi rápido, tão repentino quanto a sua aparição. Veloz e portando uma fúria sem igual, o inimigo disparou contra as vítimas e apontou a lança para Formol. Fez o movimento de ataque, que por um triz não acertou em cheio o herói. Entretanto, a vítima não escapou de um doloroso tombo de seu cavalo. O necromante, percebendo que o assassino se preparava para mais uma investida, invocou seus poderes e inúmeras caveiras de animais e fantasmas apareceram. Como se um maestro fosse, com um leve movimento das mãos, o necromante mandou os esqueletos dos pequenos animais que ali morreram e os fantasmas que ali pairavam escondidos atacarem o agressor. Tais ataques, no entanto, não incomodaram o paladino que continuava em sua fúria assassina. Os animais eram pequenos e os fantasmas eram repelidos por algum tipo de aura do cavaleiro. O paladino não tomou conhecimento da reação do necromante e iniciou a segunda investida. A ponta da lança descia ao longo da corrida do cavalo do agressor para mirar exatamente no coração do alvo, quando Esmeralda rapidamente apareceu para ajudar o parceiro. Ela carregava um pequeno punhal. Emparelhada, tinha certeza absoluta de que o rival não poderia atingi-la com a lança, visto que ele necessariamente atacaria pelo lado esquerdo e que a lança estava sendo carregada pelo braço direito, e tinha certeza de que seu pequeno punhal poderia fazer graves ferimentos no oponente ou em sua montaria, porque muito habilidosa; todavia, a moça foi jogada longe pelo escudo do paladino. Após sua queda, o cavalo de Esmeralda fugiu. A bela não acreditou em tamanha destreza. Não obstante, ao menos conseguiu salvar a vida do amigo de mais uma investida. O paladino, frustrado com seu segundo ataque desperdiçado, mencionou algo como Lúcifer. Disse o ofensor que o companheiro de Esmeralda era um demônio e que deveria ser morto em nome dos serafins, mas o necromante não entendia o que ele falava. A garota ficou mais confusa. O paladino iniciou o derradeiro ataque…

 

Tudo parecia perdido. Os heróis já haviam perdido seus cavalos e suas armas eram inúteis frente à destreza do oponente, que também parecia imune à ciência negra. Porém, para sorte de ambos, apareceu no horizonte um guerreiro montado em seu alazão. Com uma das mãos, ele portava um estandarte muito bonito, no qual a mão de um homem tocava a mão de uma divindade. Estava revestido por uma pesada armadura de metal e usava um elmo. Existiam dois chifres pontiagudos de metal no capacete preso entre suas pernas e sobre a nuca da montaria. O novo elemento no cenário de morte correu velozmente até o palco onde se desenrolara a batalha. Olhou fixamente para Esmeralda, achou-a linda e instintivamente a protegeu. Não percebeu a presença do necromante. Mirou o paladino com seu rosto quadrado. O guerreiro colocou o seu elmo, largou o estandarte que portava e puxou sua espada. Era um claro desafio para um duelo mortal. O paladino recuou, mas tudo indicava que voltaria para matar o necromante – apontou a arma ameaçadoramente para ele e se foi. Formol, caído no chão, ao olhar diretamente para o guerreiro, viu a ponta da espada dele apontada para sua face. Esmeralda pediu para que o salvador tivesse clemência do necromante, pois ele era inofensivo, o que, diga-se de passagem, não agradou ao herói vulnerável. A musa também disse que estavam em uma busca muito importante. Falou também que o paladino, na verdade, queria a cabeça do companheiro, e não a dela.

 

Dadas essas explicações e passados alguns momentos desde o enfrentamento, Rogar, o guerreiro, queria saber mais detalhes sobre a empreitada dos salvados, mas tanto o necromante como a dama não sabiam exatamente o que estavam procurando e também não sabiam o significado dos sonhos de Formol. No entanto, uma palavra na narrativa de Esmeralda – Grimório – e um fato – a conversa com o demônio – chamaram a atenção de Rogar. Sereno, o novo amigo disse que os levaria ao clérigo Paulo, que estudava demônios e livros perdidos. O necromante recusou o convite. Achou Rogar interessado demais na história e ao mesmo tempo demasiadamente lacônico quando indagado sobre qualquer coisa, mas Esmeralda entendeu melhor buscar informações com o clérigo. O necromante assentiu, mas a contragosto. Apenas concordou porque a rota não seria alterada, porque não tinha como rebater os argumentos da deidade, que se baseavam na prudência e no possível auxílio que o conhecimento e a presumida bondade de uma pessoa muito mais experiente, religiosa e instruída poderia lhes oferecer, e porque, de uma forma ou de outra, Esmeralda dava a palavra final.

 

– O “armário” aí – Sussurrou a dama indicando Rogar – nos salvou e esse tal de Paulo pode nos ajudar. Já ouvi falar nesse clérigo. Alguns o chamam de santo, outros de São Paulo, pois ele dá muitas esmolas e diz coisas bonitas nas piores horas. Ele é um poço de sabedoria. – Complementou pedagógica. “Por que quem dá conhecimento científico, morrendo por isso, não vira santo? Por que só quem dá esmolas, tornando o pedinte num virtual vagabundo eterno, merece ser santo?”, questionou-se o necromante.

 

clérigo

 

Os três seguiram a pé. O cavalo de Rogar vinha logo atrás deles. O necromante e o guerreiro não confiavam um no outro. O trio andava um ao lado do outro. A garota ia ao meio e às vezes cantarolava, uma hora trágica, outra cômica, para tentar amainar o clima de tensão que se estabeleceu entre os dois companheiros. Pressentia que a qualquer momento e sem aviso prévio eles digladiar-se-iam até a morte. Repentinamente, o guerreiro sofreu um rápido ataque e por um triz não foi ferido mortalmente. As garras de um demônio ficaram marcadas na sua armadura de ferro. O guerreiro contra-atacou e o demônio desviou. Ambos passaram a se estudar. Esmeralda gritou e olhou para o necromante. O malsinado sentiu que ela exigia alguma atitude, todavia Formol não podia se mexer. Ele reconheceu imediatamente o demônio. Era o mesmo que o salvara no dia anterior. Tinha uma dívida de gratidão. A moça, então, resolveu atuar e gritou mais. Seus gritos, no entanto, já não eram mais comuns. O tom era alto e estridente. Era possível ver ondas se propagando no ar e se dirigindo como um tubo sônico em direção do inimigo. Tal poder, até então desconhecido de Formol, e que lhe causou um grande espanto, atordoou o demônio o suficiente para que Rogar o matasse, cortando sua cabeça. Sangue negro escorreu e pingou para todos os lados, matando a vegetação sobre a qual corria e pousava.

 

O necromante olhou para o corpo inerte do demônio e se sentiu culpado pela morte dele. Talvez os demônios não fossem tão maus assim; talvez o personagem mau da história fosse ele, que não retribuiu o favor. Pelo resto do caminho, o portador da ciência negra ficou em silêncio e distraído, refletindo sobre a sua atuação e sobre as atitudes daquele demônio. Também pensava no poder da sua bela companheira. De onde ele provinha? Não era um poder pequeno e não era algo que pudesse ser aprendido pelas vias ordinárias, pelo menos até onde sabia. Questionou Esmeralda sobre o seu poder. Ela, entretanto, limitou-se a indagá-lo:

 

– Qual é seu nome verdadeiro? – O necromante, ressabiado, resolveu deixar para lá. Ela não responderia sua pergunta até ele responder a dela.

 

Depois de horas de silêncio sepulcral, a bela imaginou que talvez aquele demônio fosse o que anteriormente havia salvo seu companheiro de aventura. Porém, não tocou no assunto. Não tinha certeza de sua suspeita; viu o demônio de longe.

 

Ao longo do caminho, a donzela olhava com interesse e curiosidade um pássaro que voava muito alto e que parecia acompanhá-los desde longa data. Apesar da distância, suspeita que havia algo estranho no pássaro, mas não sabia exatamente o que era. Também notou que Formol estava cansado e esse cansaço não provinha da batalha pretérita.

 

Os três chegaram a uma igrejinha formosa com um cemitério ao lado. Era a paróquia de São Paulo. O necromante percebeu que naquele momento ocorria um velório no cemitério. De longe, viu e ouviu dois religiosos cercados por um grupo de cinco a dez pessoas. Eles, velhos com olhos fundos e que pareciam flertar com a morte, liam a Bíblia para um público pouco atento e desinteressado, acreditando que aquelas palavras confortavam as pessoas que perderam o ente querido. Após a leitura sem entonação das Escrituras, uma moça, provavelmente a filha do falecido, leu um poema, escrito pelo defunto quando ainda em tenra idade. Ao término dos curtos versos, houve comoção. Ao notar a situação, o necromante refletiu. Chegou à conclusão de que, em seu velório, gostaria que alguém lesse algo seu ou fizesse alguma homenagem pertinente, que realmente comovesse e confortasse as pessoas, ou que colocasse uma bandeira tricolor sob o caixão, cores da necromancia. Não queria qualquer citação bíblica sem sentido, entoada como se fosse uma verdade. Ele queria ser especial, não mais um objeto frio de palavras vazias, declamadas roboticamente por velhos petulantes que entravam no velório alheio sem serem convidados. Provavelmente aqueles religiosos arrogantes não haviam perguntado aos parentes do morto se estes queriam ouvir historinhas da Bíblia ou mesmo se permitiam aquelas leituras. O necromante não via a religião como conforto. Um abraço, um conselho, um cobertor, um sorriso, um objeto pessoal ou mesmo a simples presença de uma pessoa querida era milhares de vezes mais reconfortante do que a velharia religiosa.

 

Aproximando-se da capela, um jovial senhor os aguardava na porta. Era baixo, de pele morena, calvo e irrequieto para um clérigo. Usava um hábito branco e simples. Parecia um pouco tenso, o que era estranho, pois normalmente todos os religiosos transmitiam ou queriam transmitir alegria e acolhimento. Havia gotículas de suor em sua testa. Fitou o necromante nos olhos e pediu que todos entrassem. Esmeralda, Formol e Rogar entraram. O necromante não se sentia muito bem dentro de uma igreja. Era muita opulência e imagens que objetivavam diminuir os frequentadores. Ele odiava os clérigos, pois batalhas entre eles e os necromantes foram frequentes por séculos. A simples presença de um necromante criava um certo pavor nas pessoas e os clérigos, sempre muito influentes, não ajudavam a melhorar a reputação dos malsinados, que eram seres ligados naturalmente à morte e à ciência negra. Os necromantes eram solitários e ateus por natureza, bem diferentes dos clérigos, uma espécie muito política, influente e fervorosamente religiosa, que mantinha fortes laços com a temida Inquisição.

 

Inqisição

 

O clérigo Paulo, mais conhecido como São Paulo, levou todos para uma pequena sala no fundo da igreja. O religioso, de tão nervoso que estava, sequer se lembrou de gesticular diante da cruz, como era de praxe entre os crentes, demonstrando, com isso, que, talvez, aquele gesto fosse desnecessário e irrelevante. Esmeralda e Formol entraram na sala, todavia Paulo e Rogar ficaram por alguns momentos murmurando do lado de fora. Isso incomodou bastante o manipulador de caveiras, mas parecia não incomodar a bela, sempre segura de si, impávida e forte.

 

Diante do necromante havia uma Bíblia. Ele, um pouco ansioso, resolveu lê-la, pois há anos não o fazia. Lembrou-se das aulas de criacionismo e de que quando questionava a catequista e o dogma de que a Terra foi criada em sete dias era mandado para ter uma conversa com o padre. Invariavelmente, após a reunião obrigatória, o necromante acabava ajoelhado em grãos de milhos, suas mãos eram vítimas da palmatória e tinha que jurar sobre a Bíblia que acreditava em Deus e nas Escrituras.

 

– Mantenha a mão sobre a Bíblia! – Ordenou o padre carrancudo a Formol, que havia posto a mão brevemente sobre o livro sagrado.

 

– Preciso manter a mão sobre a Bíblia? – Questionou o futuro necromante.

 

– Sim, óbvio! Do contrário não é juramento. – Respondeu o padre impaciente, que odiava ser questionado, como se o futuro necromante houvesse feito uma pergunta estúpida. – E lembre-se: pensar é perigoso.

 

Jurando com as mãos sobre a Bíblia, cometeu centenas de perjúrios ao longo da vida.

 

Memórias à parte, o necromante queria que o tempo passasse. Lembrou-se da mãe que acreditava piamente nas Escrituras. Para ela, a Bíblia era o padrão de moralidade que o ser humano deveria seguir, opinião da qual o filho não compartilhava. E assim ele entendia porque, ante as inúmeras contradições que o livro continha, ante o machismo inerente às escrituras, ante o genocídio idealizado, ante o culto ao crime que promovia e ante a existência de inúmeras belas mensagens, bem como frases prontas e acabadas, que compunham o livro “sagrado”, escolher um pedaço da Bíblia era igual a escolher uma moral a seguir. Não havia como escolher um trecho e sonegar outro, pois a própria Bíblia não dizia, e não podia dizer, qual trecho devia ser considerado e qual devia ser ignorado. Enfim, para o necromante, a moral não derivava daquele livro, e nem podia. Acreditava, na verdade, que a maior tragédia da Humanidade era o sequestro da moralidade pela religião, por isso obedecia apenas à sua consciência.

 

Apesar das lembranças tristes da mãe, sentiu saudade e leu um trecho aleatório, afinal, por mais que odiasse aquele livro, ele tinha algum valor literário e histórico, ainda que parco e exíguo:

 

“Timóteo 2:11-13 – A mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição. Não permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o homem. Esteja, porém, em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, e depois Eva”

 

Estupefato, o leitor resolveu visitar outro trecho da Bíblia. Não queria que Esmeralda lesse aquilo. Certamente ela se ofenderia e sobraria para ele. Lembrou-se, inclusive, que, segundo a Bíblia, 1 Timóteo 2:12, a mulher não podia ensinar e não poderia ter autoridade sobre o homem, devendo ficar em silêncio. Então leu o trecho seguinte:

 

“Gênesis 3:16 – E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará”.

 

Adoro ficção”, pensou o necromante, enquanto Esmeralda observava indignada na estante do recinto que havia inúmeras entradas para a peça teatral “Os dez dogmas”. A moça se encheu de raiva, pois percebeu que eram verdadeiras as histórias de que a Igreja promovia a peça teatral e também comprava as próprias entradas, para distribuir entre seus seguidores, dizendo, de quebra, que a apresentação era um sucesso de público, tentando, com isso, amealhar mais seguidores. Observando que a companheira estava brava por algum motivo, Formol voltou à leitura.

 

“Gênesis 4:17 – E conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu, e deu à luz a Enoque”.

 

“Ops, de onde vem essa mulher?”, perguntou-se intrigado o necromante. “Se Adão e Eva tinham dois filhos, Caim e Abel, onde o primeiro conseguiu sua esposa?”, perguntou-se novamente. Depois lembrou da ginástica mental que religiosos faziam para preencher as lacunas e omissões da Bíblia. “Homens vivendo novecentos anos? Pura masturbação mental”. Também se lembrou de como os religiosos gritavam em discussões quando tinham dificuldade para se convencerem do que eles próprios tentavam explicar. Um dos vários candidatos ao cargo de profeta messiânico que conhecia costuma perder a paciência quando questionado. O homem, quando encurralado pela lógica, começava a berrar, gesticular, erguer a Bíblia e deixar escapar gotículas de saliva a cada grito ou encenação. Resignado, voltou à leitura de mais trechos.
“Gênesis 19:5 – Onde estão os homens que vieram para tua casa esta noite? Traze-os para que deles abusemos”.

 

“Gênesis 19: 7 – 8 – Rogo-vos, meus irmãos, que não façais mal; tenho duas filhas, virgens, e vo-las trarei; tratai-as como vos parecer, porém nada façais a estes homens, porquanto se acham sob a proteção de meu teto”.

 

O necromante começou a ter pena de sua mãe: ou ela era masoquista ou fora lobotomizada na infância. Resolveu mudar de página. Estava ficando com asco e envergonhado daquele livro. Pensava em Esmeralda e em sua mãe. Elas não mereciam isso.

 

“Deuteronômio 22:23-24 – Se uma mulher for estuprada na cidade, e não gritar alto suficiente, ela deve ser apedrejada até a morte”.

 

Náuseas. “Onde está o clérigo?”, pensava o necromante aflito. Esmeralda já estava olhando curiosa e compadecida para o companheiro. A bela percebeu que o desconforto do amigo decorria da leitura daquele livro “sagrado”.

 

“Juízes 19:23 – E o homem, dono da casa, saiu a eles e disse-lhes: Não, irmãos meus, ora não façais semelhante mal; já que este homem entrou em minha casa, não façais tal loucura”.


“Juízes 19:24 – Eis que a minha filha virgem e a concubina dele vo-las tirarei fora; humilhai-as a elas, e fazei delas o que parecer bem aos vossos olhos; porém a este homem não façais essa loucura”.

 

Inconformado com o teor das Escrituras e percebendo que havia trechos praticamente idênticos em livros diferentes, o que era, de certa forma, um tapa na cara de que defendia a coerência e unidade da Bíblia, o necromante resolveu tentar uma última vez. Aquele livro não poderia ser tão perverso e machista como parecia ser. Como aquilo podia ser considerado um repositório de moralidade? Comumente ouvia, para justificar a importância da palavra de Deus, que as pessoas eram egoístas por natureza e que precisavam de um Deus para serem boas, pois a moral e a bondade não eram inatas ao ser humano. “Então as pessoas são interesseiras e bajuladoras?”, perguntava-se o necromante quando ouvia essa justificativa no mínimo infantil.

 

Deuteronômio, 7:1-6Quando o senhor teu Deus te introduzir na terra à qual passará a possuir, e tiver lançado muitas nações diante de ti, os heteus, os girgaseus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus, os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu; e o Senhor Deus as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirá; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas… Derrubareis os seus altares, quebrareis suas colunas, cortareis os seus postes-ídolos e queimareis suas imagens de escultura”.

 

– Formol, pare de ler isso, por favor. – Aconselhou sabiamente a mulher, pois sabia que por mais ridículo que fosse o conteúdo daqueles textos, a religião não podia ser questionada, fosse pela imposição velada da sociedade, fosse porque não era possível discutir com o irracional. Com efeito, qualquer questionamento, ainda que sóbrio, era considerado um disparate e causava discórdia entre as pessoas. Para casos mais extremos, como terrorismo promovidos por outra Igreja, cujo livro sagrado tinha uma conotação mais militarizada, havia a desculpa de que havia uma religião boa e uma ruim, como se apenas a ruim não exigisse justificativa e não tolerasse argumentação. Para o necromante, conhecedor das ciências ocultas, o mal era justamente isso: não exigir justificativa e não tolerar argumentação. Ignorar evidências e minar o intelecto era o que a religião, boa ou ruim, fazia, impelindo pessoas boas a fazerem coisas ruins, pelo simples fato de que acreditavam naquilo, sem qualquer tipo de contradita.

 

O necromante, ao ler e relembrar da existência daqueles trechos, estava ficando deprimido. E ele achava que o mito do dilúvio, em que a Humanidade foi reduzida a uma família, assim como milhões de espécies de animais, era a única passagem cruel daquele livro mortífero e violento.

 

Minutos depois, rapidamente, Rogar entrou na sala e se postou atrás do convidado fúnebre. Paulo, por sua vez, sentou-se de frente para o necromante. Após proferir palavras sagras ininteligíveis, de forma célere, arrematou dizendo aquele que acreditava que todos nasciam pecadores:

 

– Descanse em paz, amém.

 

O necromante, perplexo, olhava o rosto tenso do clérigo. Foi quando ouviu o som da lâmina da espada de Rogar saindo da bainha. Imediatamente, e para surpresa de todos, menos do necromante, um pássaro gigante, morto e apodrecido, emergiu da janela da sala. A ave gritou e atacou o guerreiro antes que ele pudesse fincar a espada na nuca do necromante. Este, aproveitando a vicissitude de seu pretenso algoz, levantou-se e jogou a mesa sobre o clérigo que desabou para trás. Formol pegou a mão de Esmeralda e a fez pular pela janela. Correram. O necromante sabia que a ave seria abatida rapidamente pelo implacável guerreiro e que logo este e São Paulo estariam atrás deles. Enquanto corria, Formol invocou um exército de mortos-vivos do cemitério. Os aliados circunstanciais lentamente se levantaram para impedir que o clérigo e Rogar seguissem os fugitivos. Mais à frente, o necromante sentiu a presença de um poderoso corcel morto. Ele o invocou e uma pilha de ossos equestres emergiu da terra. Os ossos se montaram até resultarem num esqueleto de cavalo. A estrutura óssea estava pronta para ser montada. Ambos saltaram no lombo da ossada que partiu em disparada para as terras tropicais.

 

Dois dias se passaram.

 

As florestas tropicais ainda estavam longe. Talvez mais uma semana. Esmeralda estava quebrada. A viagem sobre o cavalo de ossos a deixou traumatizada e com dores nas nádegas. Os fugitivos usaram a mortalha do necromante como sela. As provisões haviam se acabado – muito foi perdido durante a fuga – e eles estavam na zona de transição entre as florestas temperadas e as pradarias. Não existiam pequenos animais selvagens nem amoras para comer. O cavalo esquelético se desgastara demais e havia virado uma pilha de ossos imprestáveis. O necromante não poderia mais usá-lo. Sabia que logo Rogar e Paulo os alcançariam. Talvez o misterioso paladino também. Sem contar a ameaça, ainda abstrata, do pai de Esmeralda e de seus capangas que a qualquer momento poderiam aparecer.

 

Eles haviam dito tudo o que sabiam para o guerreiro e, na igreja, o clérigo, apesar do nervosismo, parecia determinado e convicto da ideia de acabar com a vida do convidado.

 

Os pensamentos do necromante se assemelhavam a um turbilhão. Além das tentativas de assassinato de que fora vítima e da atitude estranha de um demônio, que negara sua própria natureza ao ajudar um ser humano em dificuldade, seus sonhos tinham as imagens cada vez mais nítidas. Queria saber de onde vinham elas. Preocupava-se muito com isso. Era seu tormento. Nas últimas noites, seus sonhos exaustivamente revelavam o caminho até o Grimório. Já sabia que um grande rio passava perto da caverna e que haveria um defensor lá – viu vultos perto das cavernas em seus devaneios.

 

Também pensava com frequência em Esmeralda. Eram pensamentos confusos que nunca chegavam a lugar algum. Por que ela o ajudava se todas as forças consideradas do bem queriam a cabeça dele? Será que poderia confiar nela? Talvez ela o traísse a qualquer momento, afinal ela era a filha de um homem famigerado, porque notoriamente autoritário, corrompido e desleal. Temia que o comportamento do pai fosse herdado por Esmeralda. Além disso, ao que tudo indicava, a amiga apenas queria se divertir, sair daquela vida ordinária e monótona que tinha junto ao pai. Embora não fosse o alvo, ela esteve diante da morte por duas vezes nos últimos dias, as provisões haviam acabado e eles não sabiam para onde estavam indo nem o que deveriam esperar. Sim, ela seria capaz de traí-lo. Poderia se cansar dessa vida turbulenta. A mulher tinha muitos motivos para abandoná-lo ou mesmo matá-lo, mas ela resolveu lhe poupar a vida na espelunca do pai e o salvou do paladino. Era tão bela e sagaz. Esmeralda transmitia tanta força. Ela tinha um espírito tão quente e determinado. Poderia ser uma princesa ou uma marquesa se quisesse, mas preferia se arriscar em uma jornada pouco usual com um desconhecido. Talvez porque imaginasse que nada poderia acontecer a ela. De fato, não era conhecedora de ciência negra, não tinha péssima reputação, não era alvo de ninguém e ainda contava com a fama de seu pai para intimidar as pessoas daquela região. Sem contar, é claro, seu misterioso poder sonoro que poderia livrá-la de alguma situação desagradável.

 

– Acho melhor você voltar. Por precaução. Não temos provisões e existe um monte de pessoas do “bem” tentando me matar. – Comentou o necromante.

 

– Não, eu quero ir até o fim. Eu quero saber o que está acontecendo e quem é você. – Sorriu sarcástica e misteriosa.

 

– Mas…

 

– Nada de “mas”, Formol! Vamos indo, estou ficando com fome. Precisamos encontrar um lugar para passar a noite e descansarmos. De manhã, procuraremos comida.

 

– Seu pai deve estar preocupado com você. É provável que saiba sobre minha companhia.

 

– Não quero falar sobre meu pai. Sobre ele já falei tudo o que deveria ter falado.  E não se preocupe, pois ele nada fará contra você.

 

O rapaz ainda tentou persuadi-la, mas ela era irredutível. Na verdade, era teimosa.

 

Dormiram sob a copa de uma árvores qualquer

 

Amanheceu.

 

Em meio ao bosque, já próximos às pradarias, sob o véu branco e úmido da manhã, andando por uma trilha rumo às florestas tropicais, o necromante e Esmeralda ouviram ruídos estranhos nas copas das árvores. Sentiam que estavam sendo seguidos há muito tempo. Repentinamente, a mulher gritou em direção aos ruídos. As ondas sonoras que emitia foram intensas e fizeram que do topo de uma árvore caísse um jovem magro, cujo rosto lembrava o de um roedor.

 

ladino

 

– Quem é você? – Perguntou o necromante – Diga ou então morrerá!

 

– Sou Hermes Samir… um habitante da região. – Respondeu o interrogado levantando-se e buscando o apoio do tronco da árvore. Era dono de um olhar perspicaz e curioso. Tinha feições arábicas. O necromante lembrou que num passado não muito distante, havia um povo virtuoso e engenhoso, responsável por inúmeros avanços na medicina, na astronomia, na literatura, na gastronomia, na filosofia e na matemática, que, no entanto, foi subjugado e forçado a cultuar um deus por autoridades morais que haviam tomado o poder à força. O terror e a repressão se instalaram. Houve uma debandada de pensadores e aquele povo nunca mais foi o mesmo e seus conhecimentos se diluíram pelo mundo. Tornaram-se pobres e atrasados. À religião e a Deus foi dado todo o enfoque e o ser humano e a ciência foram esquecidos, pois o universo tinha obrigação de fazer sentido. Nesta vereda, só a fé era capaz de atender esse anseio, porquanto a ciência se baseava em experimentos, e não na vontade das pessoas. O povo arábico, então, perdeu toda a proeminência sobre descobertas científicas, ficando, a partir de então, conhecido por suas guerras, atentados terroristas e retrocesso cultural e científico. Apenas a memória de sua pujança intelectual remanescia na nomenclatura de suas descobertas, teoremas e sistemas numéricos, bem como na existência de produtos como papel, vidro, metal, couro e tecidos finos.

 

– Por que estava nos seguindo? – Interrogou o herói, voltando de seus pensamentos.

 

– Ouvi a conversa entre vocês em frente ao bar e fiquei curioso, como não tinha nada…

 

– Então aquele vulto que vi não era só imaginação. – Murmurou abruptamente, forçando a memória. – Era você! – Afirmou convicto o herói.

 

– Sim. – Assentiu o lépido jovem. – Posso ser muito útil. Sei desarmar armadilhas, sei fazer emboscadas, sei onde arranjar comida, cavalos, mulheres…

 

Esmeralda lhe dirigiu um olhar severo.

 

– Eu não confio em você! – Exclamou Formol. – Saia do nosso caminho!

 

– Ei cara, tenho informações quentes a seu respeito e sobre seus amigos necromantes. Confie em mim. Preciso sair daquela região, pois tem muita gente que não gosta de mim, costumo defender pessoas más – pobres – e subtrair uma ou outra coisinha… mas agora quero algo valioso e vi que você…

 

– Do que você está falando, seu moleque? – Gritou furiosa Esmeralda. – Fale devagar! – Completou.

 

Com um sorriso amarelo, Hermes tentou apaziguar a situação que estava engrossando para o lado dele:

 

– Ei amiga… – Antes que o ladino começasse a falar de modo rápido e antes que Esmeralda esbravejasse, rejeitando essa pretensa nova amizade, o necromante, que até então estava imerso em seus pensamentos, interveio:

 

– O que sabe sobre mim e sobre meus amigos necromantes?

 

– Fiquei sabendo que os inexoráveis São Paulo e Rogar o procuram. O velho quer muito te encontrar. Aliás, pediram informações para mim quando passei por eles, estão a poucas horas daqui. Já com relação aos seus amigos necromantes eles não estão em boas sendas, pois… – Hermes hesitou, porque percebeu que teria que falar algo grave; pensou em eufemismos.

 

– Prossiga. – Ordenou o necromante. – O que há com os necromantes?

 

– Bem … veja… talvez eu esteja equivocado…

 

– Diga, logo! – Bradou Esmeralda.

 

Contrariado e visivelmente irritado com a moçoila, Hermes foi direto e reto:

 

– A igreja e grupos ligados a ela estão exterminando os necromantes e as bruxas.

 

inquisição fogueira

 

Aquela notícia caiu como uma bomba dentro do coração do necromante. Seus pares estavam sendo mortos.

 

– Mercenários, paladinos, inquisidores, guerreiros, todos. – Nervoso, o ladino, não por medo, mas por piedade, tentou mudar de assunto. – Bom, aqui eu tenho leite em pó, é bom para os dentes, tomo leite todo dia, eu mesmo só escovo os dentes uma vez por dia, odeio aquelas pastas, elas…

 

Hermes parou de falar, pois o necromante passava mal. O que ele faria? Não sabia. Começou a pensar em inúmeras coisas: família, antigos colegas e mestres; os segredos e os conhecimentos que ao longo de séculos foram adquiridos pelos necromantes. Estaria tudo perdido? A expressão de terror e de dor tomou conta do necromante que se curvou para logo ajoelhar-se, desamparado. Era uma notícia difícil de digerir. No chão, perplexo, sentiu sua parceira tentar lhe confortar, notou que ela tentava erguê-lo e percebeu que ela compreendia seus sentimentos. Esse calor externo o ajudou, trazendo-o de volta de seu pesar. Voltou a raciocinar e indagou friamente, olhando diretamente para os olhos de Hermes:

 

– Se isso tudo for verdade, por quê? Por que essa caçada?

 

– Eu, eu não sei. – Respondeu o interlocutor. – Tentei descobrir, mas ninguém sabia. Os mercenários apenas querem dinheiro. Eles não fazem perguntas, apenas cumprem ordens quando devidamente pagos. Os membros da Igreja e os Templários não dão justificativas. Acredito que ninguém do baixo clero saiba. Mas eu quero te ajudar, é sério…

 

O necromante, que sempre olhava através das janelas da alma, acreditou, não obstante sua visão estivesse turva, em decorrência dos olhos marejados, tinha convicção de que o interrogado realmente não sabia a razão disso tudo, da cruzada contra os necromantes. Os guerreiros não falavam muito, os paladinos e os clérigos tinham suas próprias razões e os mercenários só queriam dinheiro. Hermes, por fim, disse que os “bersekers” também estavam atrás deles e que haviam matado muitos necromantes.

 

– Meus pares estão sendo eliminados. – Balbuciou o necromante com um olhar triste e cansado. Fitou os olhos verdes de Esmeralda, que nada disse. Estava visivelmente preocupada. Entretanto, em seus olhos havia uma energia, um fogo, uma determinação, mais eminente que outrora. O que se passava na cabeça dela? Ela era um mistério tão grande quanto o extermínio maciço de necromantes ou quanto a ajuda que recebera de um demônio.

 

O necromante não tinha opção e teria que seguir em frente. Agora também era uma questão de honra, não só de poder e de sobrevivência. Então os três partiram para procurar por cavalos, antes que todos os caçadores os encontrassem. Por que toda aquela perseguição? Por que a igreja sempre egoísta e patrimonialista dava dinheiro para quem matasse um necromante? Os necromantes nunca foram bem-quistos, mas não eram maus em sua essência, apenas causavam repulsa e eram apartados da sociedade. Eram considerados cientistas que controlavam outro tipo de ciência. Pensou em sua família. Estariam perseguindo as famílias também? Estaria sua família bem?

 

Estava anoitecendo. A poucas centenas de metros fora da trilha, viram um vilarejo. Então o ladino disse:

 

– Vou entrar em uma daquelas casas para pegar alguma comida. Estamos ficando sem alimentos.

 

Esmeralda, indignada, bradou:

 

– Isso é roubo!

 

O ladino exasperado e revirando os olhos rebateu:

 

– Não, isso não é roubo, é furto.

 

O necromante, então, disse:

 

– Eu comecei a fazer Direito canônico, todavia odiei algumas matérias e larguei a faculdade no ano passado, mas o direito penal sempre me entreteve.

 

– Sim, eu, ladino, conheço tudo sobre direito penal na parte dos crimes contra o patrimônio.

 

– Qual a diferença entre furto e roubo? – Perguntou interessado o necromante.

 

– Nós precisamos ir. – Disse peremptoriamente Esmeralda já convencida da necessidade de provisões.

 

– Sim, vamos. – Acudiu o necromante.

 

Enquanto andavam, Hermes e o necromante conversavam:

 

– O furto é a subtração de coisa alheia móvel para si ou para outrem. É um tipo penal que tutela a posse e, para alguns, a detenção dos bens. É um crime que pode ser praticado por qualquer um, menos pelo dono da coisa furtada, ainda que ela esteja com terceiro em razão da lei ou de contrato.

 

– E se eu já estiver com a posse de bem alheio, cometerei furto se levá-lo comigo sem o consentimento do dono?

 

– Se a posse for vigiada sim, agora se não for, você cometerá o crime de apropriação indébita.

 

– Hum.

 

– Que conversa chata. – Comentou Esmeralda, que não gostava de não ser o centro das atenções.

 

– E qual a diferença para o roubo? – Perguntou o necromante enquanto se dirigia ao vilarejo, ignorando o apelo de Esmeralda.

 

– Calma, calma. Ainda tenho que esmiuçar mais algumas questões relevantes do furto. Veja: para que haja furto, não é preciso a clandestinidade. A vítima, dona do bem, pode muito bem-estar presente quando você manifestar o animus furandi.

 

– Animus o quê?IExclamou o necromante.

 

Furandi. – Sorriu Hermes. – O furto é uma conduta dolosa, intencional. Há também o animus rem sibi habendi, que é aquele que visa tomar o bem furtado para si, definitivamente.

 

– E se o ladrão só quiser usar um bem móvel momentaneamente?

 

– Aí é furto de uso, só que há algumas considerações a serem feitas.

 

– Quais? – Antecipou-se o interlocutor.

 

– Bom, não pode a coisa ser abandonada em local distante, não pode ser danificada e não pode ser devolvida depois de muito tempo.

 

– E o roubo?

 

– Ali tem uma casa. – Atravessou Esmeralda fadigada. – Faça o que tem que fazer. Nós ficamos de olho no movimento.

 

Então a subtração, a que se referia Esmeralda, consumou-se. O ladino furtou algumas provisões e dinheiro de uma casa do vilarejo. Quando se aproximou com duas bolsas cheias de alimentos e dinheiro disse contente:

 

– Acabamos de praticar furto qualificado! Isso faz de vocês criminosos assim como eu. – Sorriu satisfeito Hermes.

 

– Eu não. – Reclamou indignada Esmeralda. – Você cometeu o furto! – Acusou-o.

 

– Você sim! – Retrucou Hermes contente. – Vocês são, no mínimo, partícipes, a depender da teoria. Ajudaram-me.

 

O olhar furioso de Esmeralda criou um silêncio ensurdecedor. Então o necromante, resignado, disse:

 

– Precisamos de cavalos.

 

– Ainda bem que entramos nesse vilarejo. – Comentou o ladino. – Aqui é um local repleto de gente abastada. Os moradores são uma ramificação da Igreja. Dão muito valor para o trabalho como forma de enriquecimento, ao contrário da Igreja, mas, por outro lado, formam um grupo extremamente fechado. Não dividem nada e não se misturam com pessoas de outras ramificações da Igreja. No Natal fazem grandes banquetes em nome dos pobres, mas não os convidam para sentar à mesa. São sovinas e também acreditam que a interpretação da Bíblia deles é a única verdadeira, para variar. Querem restaurar antigas tradições… Não me sinto culpado por furtar deles.

 

dinheiro-na-igreja

 

Caminharam um pouco mais, esgueirando-se pelas ruas sombrias do vilarejo, até que os três ouviram sons de cavalos e gritos guturais de homens bêbados.

 

– Mais homens caindo pelas tabelas. – Comentou entediada Esmeralda, que tinha hábito de criticar os costumes do sexo oposto.

 

homens bêbados

 

O grupo furtivamente se dirigiu a três garanhões que estavam na frente do bar cheio de beberrões que vociferavam e gargalhavam. Hermes, Esmeralda e Formol, desamarraram os animais e puseram-se em marcha para a estrada. No entanto, eles foram descobertos. Um homem grande, forte, gordo, barbudo e novo gritou “Ei”. Os três heróis viraram para trás e viram que se tratava de um “berseker”, conforme murmurou o ladino. Sabiam que dentro do bar havia mais homens. O necromante, então, atacou preventivamente. Não queria que a rapaziada dentro do bar viesse em seu encalço. Lançou uma bola verde e brilhante que atingiu em cheio o “berseker”. Esse poder era capaz de matar, pois retirava a alma do corpo da vítima – era a origem das almas penadas. Como o necromante ainda era um novato, sem muita experiência, seu golpe apenas fazia com que o oponente desmaiasse. Entretanto, seu ataque preventivo não deu certo, pois a vítima gritou antes de tombar e desfalecer. O berro fez com que seus parceiros saíssem do bar. O necromante então mandou uma nuvem de aves mortas e uma onda de animais silvestres que sentiu no local para retardar a perseguição dos “bersekers”.

 

Cavalgaram desesperados para a estrada. Sabiam que agora os “bersekers” também estariam atrás deles, não só por causa do ouro, mas também por vingança.

 

Os cavalos roubados impropriamente, visto que o portador da necromancia tinha usado de violência para assegurar a subtração, conforme explicou posteriormente o ladino, eram bons, grandes e fortes. Vinham das terras geladas do norte. Carregavam com facilidade os novos possuidores deles e os mantimentos. Também eram velozes. Chegariam rápido à floresta Malaica.

 

Alguns dias se passaram. Neste interstício, a viagem foi extenuante e com poucas paradas. Muita gente estava atrás dos três. Eram foragidos. Não dava para brincar com a sorte naquela situação. São Paulo sabia, ou pelo menos tinha alguma ideia, para onde iam e os “bersekers” estavam seguindo suas pegadas, em breve seriam capturados e mortos, a não ser que chegassem ao seu destino o mais rápido possível.

 

Já próximos às florestas, os três viram estranhas luzes no céu, sobre uma das entradas da vegetação tropical. Minúsculos pontos brancos no horizonte ziguezagueavam no ar, deixando rastros, que logo se apagavam. Era uma imagem muito bela. As criaturas voavam como se fossem patrulhas, como se estivessem protegendo algo.

 

– Anjos. – Falou boquiaberto o necromante.

 

anjos

 

Depois do deslumbramento, por prudência, Hermes e o necromante acharam melhor sair da trilha e deixar os cavalos, cansados pelo percurso e pelo intenso calor que fazia naquela região, amarrados atrás de algumas árvores e rochas. Andaram dezenas de metros em direção aos anjos. Abaixaram-se e se puseram a observar. Àquela distância não podiam visualizar as feições e traços do rosto das criaturas angelicais, mas percebiam que eram seres reluzentes e com grandes asas. Provavelmente eram criaturas muito belas. Podiam-se notar argolas amarelas pairando sobre as cabeças e entre as asas. Eram as auréolas.

 

Esmeralda sugeriu que fossem até eles. Segundo a bela, talvez os anjos pudessem dar proteção e explicar tudo o que estava acontecendo. Além disso, estava curiosa. Anjos… não era todo dia que se via um. Quem não gostaria de conhecer um pessoalmente? O necromante, entretanto, não gostou da ideia. Estava ressabiado e resolveu não seguir em frente.

 

– Acho melhor procurar outra entrada. – Ponderou o necromante, lembrando dos estranhos fatos que ocorreram nos últimos dias. A prudência própria de quem sempre foi estigmatizado e perseguido se fortaleceu naquele momento. Não confiava em ninguém, nem em Esmeralda.

 

Hermes assentiu, mas a moça não. A mulher, atraída pelo brilho daquelas criaturas, achou a sugestão burrice demais e resolveu se aproximar um pouco mais para ver os seres celestiais mais de perto, enquanto Hermes desesperado sussurrava:

 

– Não, não, não.

 

A bela estava cansada e irritada com a longa e exaustiva viagem, bem como estressada pela ausência de respostas às suas indagações: matar necromantes? Matar bruxas? Queria justificativas. Além disso, também estava embriagada pela ideia de ver anjos, de poder estar diante deles e de tocá-los. Eram escassos os relatos da presença de anjos na Terra. Nos últimos 300 anos, não havia qualquer ocorrência séria registrada. Com efeito, era muito comum relatos sem qualquer evidência de pessoas de caráter e de sanidade duvidosos. Era comum o uso de ópio pelas pessoas que frequentavam os desertos daquele mundo, de onde se originavam quase todas as religiões que se conheciam, dentre elas a da Igreja. Era um tempo no qual a ignorância reinava.

 

Segundo a Igreja e a crença popular, os anjos eram as criaturas mais bondosas e as mais belas da Terra e do Firmamento. Podiam curar todas as feridas e doenças. Sua função era proteger as pessoas e animais, que, segundo a Igreja, eram as obras de Deus mais queridas e perfeitas. Vale dizer, os religiosos pregavam que os anjos, criaturas superpoderosas, que podiam voar e combater demônios, cujas moradias estavam ao lado da casa de Deus, eram inferiores aos seres humanos, devendo, assim, viver em função de seres mortais, sem poderes e de capacidade cognitiva limitada. Para Esmeralda, contaminada por essas ideias profundas, era difícil acreditar que criaturas tão meigas e belas pudessem trazer algum tipo de malefício a ela ou a seus companheiros. Sim, eles a ouviriam. A Igreja nunca estaria errada na área de sua competência, afinal vivia daquele conhecimento. As criaturas celestiais certamente ajudariam os fugitivos. Aplacariam a ignorância humana que os perseguia, isso porque não eram humanos, mas entidades celestiais! E para Esmeralda isso era mais do que ser uma criatura terrena. Não existiam seres mais fantásticos do que os anjos.

 

A garota pensou na sua vida de outrora, no seu pai paternalista e no bar imundo, sujo e cheio de crápulas. Pensou na misoginia daquela sociedade. Pensou na sua vida entediante. Queria ser livre, conhecer coisas, pessoas e sensações novas. E lá estava ela, diante das criaturas mais fantásticas e bondosas de que se tinha notícia. Sim, nada poderia dar errado, tinha nascido para aquele momento. Levantou-se. Pretendia se dirigir ao aglomerado de criaturas celestiais quando foi bruscamente puxada pelo braço. Um grito agudo lhe fugiu da boca, como decorrência do tranco, antes que os três se escondessem novamente sob as sombras das árvores e pedras.

 

– Será que eles ouviram? Está muito longe. – Desesperou-se o ladino.

 

– Corre! – Exclamou o necromante deixando o local e puxando a garota pelo braço.

 

– Mas está muito longe! É impossível – Ponderou Hermes perplexo. Só então o ladino notou que os anjos se dirigiam a eles em alta velocidade, rasgando o céu. Em poucos segundos, os celestiais estariam ali.

 

Com efeito, os anjos se aproximavam rapidamente, seguidos de trovões. Raios saíam de suas mãos e bombardeavam o local. As explosões provocadas pelos raios estavam cada vez mais próximas. Árvores caíam por todos os lados. Pedras eram esmigalhadas. Labaredas de fogo se seguiam às explosões. O calor do incêndio já era sentido pelos desbravadores. Fagulhas e projéteis passavam zunindo por seus ouvidos. As ondas de impacto os desequilibravam. Repentinamente tudo parou.

 

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Os barulhos mudaram. Não caíam mais raios. O necromante olhou para trás e, em meio ao fogo e à fumaça que consumiam as árvores tombadas, viu uma grande clareira, na qual estavam de tão grande, e que no céu dragões e demônios interceptaram os anjos. Eles lutavam no ar. O necromante, com Esmeralda apoiada em seu ombro e com o ladino logo atrás, correu para longe dali. Após minutos de intensa correria, conseguiram entrar em uma mata fechada. Extenuados, resolveram parar. Já sob portentosas árvores, não ouviam mais com tanta intensidade os gritos de pavor de anjos e de demônios morrendo e se destroçando nem de explosões. Pouco depois, o silêncio reinava novamente na mata fechada.

 

– O que faremos? – Perguntou o ladino.

 

– Está anoitecendo, vamos nos recompor. Pela manhã, partiremos. – Sugeriu Formol olhando para Esmeralda que ainda estava assustada e se sentindo culpada por quase terem morrido. Com efeito, a Igreja, desde a tenra infância de todos os seres humanos ou humanizados daquela região, ensinava que a culpa era sempre da mulher. Tal ensinamento era perpetuado de geração em geração desde os primórdios da Igreja, tornando a repressão à mulher um comportamento sistematizado que vinha desde o berço. Esmeralda, em que pese não religiosa e avessa aos dogmas arcaicos da Igreja, foi educada sob a influência, ainda que tênue, do conservadorismo e misticismo dos velhos senhores daquela religião, cujas crenças nada mais eram do que um meio de opressão sobre os ignorantes e sobre o sexo feminino, bem como um meio de vida de anciões avessos ao trabalho.

 

Por mais forte e independente que fosse Esmeralda, era difícil viver e ao mesmo tempo ignorar a sociedade medieval, machista e atrasada na qual cresceu, na qual o sobrenatural valia mais do que o saber científico, na qual os placebos substituíam os medicamentos reais e na qual a verdade, inclusive científica, derivava de um livro de fábulas infantis terroríficas, escritas, mal e porcamente, sabe-se lá por quem, chamado Bíblia.

 

Assim como Esmeralda, as crianças daquele mundo não tinham opção de não ter uma religião ou de escolher a seita que gostaria de seguir assim que amadurecessem. Na idade adulta, quando tinham força suficiente para da religião fugir, eram perseguidas, abandonadas, tachadas de imorais ou mortas, e nem era necessária a atuação dos arredondados e vetustos sacerdotes, pois a ignorância era tão generalizada que a população de ovelhas obedientes se responsabilizava pelos atos de violência contra as mentes livres do obscurantismo. Enfim, Esmeralda dormiu com o peso da culpa sobre a consciência. Maldita Eva!

 

Amanheceu.

 

A floresta Malaica estava ali adiante e o necromante sabia disso. As primeiras árvores da parte mais fechada e escura da floresta, onde se situava a caverna, poderiam ser vistas em todo o seu esplendor com algumas horas de caminhada. O necromante havia tido vários sonhos nas últimas noites e mesmo durante cochilos. Sabia como entrar na parte densa da floresta, sabia por onde seguir, mas não sabia porque ainda tinha aqueles sonhos pedagógicos em 3D, com instruções detalhadas de onde ir. Aquela insistência de seus sonhos lembrava muito as missas religiosas e sermões intermináveis de padres, no qual a palavra Deus era citada em vão dezenas de vezes no monólogo abstrato que o pastor destinava às ovelhas humanas passivas que fingiam ouvir e entender o discurso unilateralmente criado pouco minutos antes da verborragia irracional começar. Enfim, Formol não tinha ideia do que o livro significava, não sabia por que merecia tanto poder, não sabia por que os demônios eram os únicos que o protegiam e não sabia por que muitas pessoas e classes de boa reputação o queriam morto. Precisava chegar ao livro o mais rápido possível. Era uma questão de vida ou morte. Sentia que só isso poderia salvá-lo. Não havia mais como voltar.

 

Por seus cálculos e pelos seus sonhos, levaria mais dois dias pelo menos para chegar ao destino final.

 

O trio começou a caminhar pela mata fechada, em silêncio. Os cavalos que os trouxeram até ali haviam desaparecido. Talvez estivessem mortos ou talvez estivessem perdidos. A tríade já estava próxima da entrada da parte em que a floresta se adensava quando um distante relinchar de cavalos foi ouvido.

 

– O que foi isso? – Murmurou Hermes.

 

O paladino que os havia atacado no passado apareceu no horizonte, sobre uma pequena elevação que haviam deixado poucos minutos atrás. A luz do sol que nele refletia cegou momentaneamente os heróis. Então o inimigo avançou lentamente. Esmeralda e Hermes correram em direção à mata, mas o necromante ficou. O manipulador de ciência negra tinha ciência de que não podiam escapar de um paladino a cavalo. Além disso, estava cansado de correr, de fugir e de se esconder. O ataque fulminante dos anjos foi a última gota. Lutaria, venceria e obrigaria o adversário a responder todas as suas perguntas. Estava cansado de não saber o que acontecia. Não queria viver na ignorância.

 

Todos conheciam a fama dos paladinos. Estes eram guerreiros implacáveis e integravam a seita dos Cavaleiros Templários, que tinha como objetivo defender os homens dos demônios. Outrora, os templários constituíam uma seita rica, grande e influente, que recebia doações da Igreja, tinham membros infiltrados nos reinos e impérios dos homens e recebiam treinamento dos anjos. Mas com o passar dos séculos, os Cavaleiros Templários se tornaram um grupo pequeno e ganharam a pecha de radicais. Muitos diziam que esses paladinos eram desnecessários, herança de tempos difíceis. Isso era falado, porque os demônios haviam se dispersado e os anjos pouco intervinham nos assuntos terráqueos depois da guerra entre anjos e demônios vencida pelos primeiros.

 

O paladino passou a galopar rapidamente, preparou sua lança para atacar, colocando-a na posição horizontal, paralela ao cavalo, e fechou a viseira, mas aos poucos foi parando o galope fatal. Ao lado de Esmeralda e do ladino, que estavam alguns metros atrás do necromante, quase na parte mais robusta da floresta, sem que eles percebessem, surgiu cavalgando calmamente um outro paladino, mas vestindo uma armadura negra como as trevas: era o antipaladino.

 

A nova presença se aproximou lentamente do necromante e disse para ele seguir seu caminho. Avisou que cada passo dado em direção àquela caverna representaria ou um passo a mais para o fim de sua vida ou para sua glória. Asseverou o sinistro aliado que o necromante teria uma ajuda toda especial que, inclusive, já o aguardava ao lado de seus amigos. O necromante olhou para o ladino e para Esmeralda e viu que mais uma pessoa estava com eles. Queria fazer inúmeras perguntas, mas o antipaladino mandou que se apressasse antes que novas patrulhas de anjos aparecessem.

 

– Vá com Deus.

 

Dito isso, o antipaladino continuou sua marcha em direção ao paladino. O necromante, irritado, resolveu partir. Sentiu que aquele ser era extremamente poderoso e que o protegia. Sentiu verdade em suas palavras, como nunca havia sentido antes.

 

O antipaladino só parou quando estava a poucos metros do templário. Havia pendências entre eles para serem resolvidas.

 

– Enfim, acertaremos nossas contas. – Disse o antipaladino.

 

– Covarde! Fugiu da carnificina que promovemos entre os islamistas durante as cruzadas!

 

cruzados cruzadas da igreja

 

O necromante avançou para a floresta, olhou de relance para o quarto elemento, mas não parou para indagá-lo. Os três o seguiram, alheios ao destino do antipaladino e do paladino.

 

Em disparada, floresta fechada adentro, os quatro ouviam sons de espadas, gritos e explosões. Paravam e se escondiam entre moitas e árvores caídas como resposta a qualquer sinal de perigo ou quando o necromante sentia cheiro de morte. Passado o perigo ou o fedor de morte, logo retornavam à empreitada. E assim foi pelo resto do dia.

 

À noite pararam e se abrigaram sob uma árvore grande ao pé de um barranco íngreme. Aquele esconderijo era perigoso. O risco de rolarem morro abaixo e de se chocarem contra alguma árvore ou qualquer outro obstáculo era enorme, todavia se deslocar à noite era muito difícil e perigoso. Nem Formol conseguiria fazê-lo com precisão. Além disso, a mata era silenciosa neste período. Provavelmente seriam descobertos pela sensível audição dos anjos patrulheiros que faziam voos rasantes, iluminando todo o seu trajeto. Ao lado disso tudo, a estranha companhia era silenciosa e reservada. Não emitiria qualquer explicação, como deixou claro com suas atitudes furtivas e soturnas. Todos a temiam, porém, diante das circunstâncias, teriam que suportá-la. A noite foi longa. Gritos de dor e de morte eram ouvidos de tempos em tempos. Ninguém conseguiu dormir tranquilamente.

 

Amanheceu.

 

A busca foi retomada. Chegando às margens do rio que os levaria à caverna, encontraram um outro necromante. Esmeralda, assim que o viu, pressentiu o perigo.

 

– Ele vai nos matar. – Sussurrou ela.

 

– Acho que dessa vez você está certa. – Respondeu no mesmo tom Hermes.

 

– Ora, ora, ora, achei que eu fosse o último necromante vivo, mas pelo visto ainda resta mais um. E veja, ele tem amigos. – Disse com escárnio o novo inimigo, portador de uma voz fúnebre.

 

A nova figura tinha olhos ameaçadores. Era o terror em pessoa.

 

– Quem é você? – Indagou Formol, desiludido, pois até um necromante, um ser de poderes sombrios, estava contra ele.

 

– Eu sou Fobos, rei da Tessália. O maior necromante que já existiu. Eu sou o único, eu sou a chave e você vai morrer! Matarei você e seus amigos e manipularei seus corpos para minha proteção, idiotas! – Vociferou Fobos.

 

Sem pestanejar, ambos os controladores da necromancia invocaram criaturas para destruir o inimigo. A luta foi intensa. Fobos era o necromante mais poderoso que o nosso herói já tinha visto. O poder de Formol ficava muito aquém do oponente. Os animais mortos invocados por Fobos apareciam em maior quantidade e eram mais resistentes e ferozes. Existiam inúmeras caveiras para protegê-lo. Elas saíam por todos os lugares. Esmeralda tentou ajudar com seu grito, mas isso só conseguiu destruir alguns esqueletos e cadáveres invocados por Fobos. O inimigo não parecia se incomodar com os berros da garota. Pelo contrário, ele tentou atingi-la com suas esferas de poder verde, aquelas que retiravam a alma dos adversários.

 

O quarto elemento do grupo exposto, que era um conhecido alquimista, O’ Cruz, como veio a saber informalmente o necromante durante a jornada, foi outro alvo do poderoso inimigo. Por um triz sua alma não foi retirada do corpo. Na última hora, conseguiu desviar do ataque. Sentiu que a esfera de energia lançada tinha um poder gravitacional enorme sobre a alma, tanto que viu uma parte de seu espírito sair do corpo em direção à bola verde enquanto ela passava velozmente, como se fosse um pano sendo içado por um anzol. Depois a vítima sentiu a alma se reacomodar em seu corpo à medida que a energia verde se afastava. Foi a sensação mais estranha que sentiu na vida. Um frio cortante percorreu todo o seu corpo.

 

alquimista

 

A luta parecia perdida. A agilidade e a fúria do adversário eram incríveis. O ladino havia desaparecido. Estaria morto? Formol e Esmeralda aguardavam a morte chegar quando então o alquimista, após desviar de algumas caveiras assassinas e de algumas bolas de energia, jogou um invólucro negro perto do adversário e tudo foi pelos ares. Quando a fumaça se dissipou, Fobos estava caído e todo ensanguentado, preto de fuligem. Suas caveiras e animais mortos instantaneamente desfaleceram. O’ Cruz, o alquimista, olhou para Formol como se estivesse dizendo: o que está esperando criança? O herói chegou perto da vítima, puxou sua adaga e olhou para os olhos do oponente, mas resolveu poupar sua vida, embora tivesse visto que aquele ser não merecia viver, pois ambicioso e inconsequente. Entretanto, Formol jamais havia matado alguém e esse fato lhe parecia estranho, pois ele tinha o poder de manipular os mortos.

 

O necromante pediu aos companheiros que o seguissem. O alquimista preocupado e Esmeralda assentiram. Hermes, do nada, reapareceu. A mulher lançou um olhar furioso, como de costume, para ele, mas o necromante já corria à beira das margens do rio. O manipulador de ciência negra sentia que estava chegando ao seu destino. Ouvia vozes e cânticos antigos dentro de sua cabeça que, a cada passo que dava, ficavam mais fortes e claros. Sentia uma onda passar por todo o seu corpo, revitalizando-o. Estava se fortalecendo. Nunca se sentiu tão forte. No entanto, repentinamente, um clarão na sua frente surgiu. Sentiu seu corpo ser arremessado pelos ares. Foi atirado contra uma árvore. Passado o choque e a subsequente tontura, percebeu que havia voado alguns metros para trás. Encontrava-se sob as sombras de uma grande árvore nas margens de um rio. Sentia a corrente do rio passar tranquila por uma de suas mãos. À sua frente viu um anjo, mas este não era como aqueles vistos alguns dias atrás. Era um ser gigantesco, descomunal, que emanava força e poder. A criatura tinha um aspecto imponente, como jamais Formol havia visto. Tratava-se de uma potestade, conforme ouviu de uma voz que não tinha condições de distinguir naquele momento.

 

A potestade rogou algumas pragas em uma língua desconhecida, mas que era familiar ao necromante. Parecia ser a mesma língua dos cânticos que povoavam sua mente e das palavras proferidas por Paulo. A criatura portava uma espada dourada e prateada, que brilhava muito, e que se dirigia ao rosto do necromante. A arma foi erguida lentamente. O necromante estava petrificado. A luz e o encantamento daquele ser turbavam os cânticos profanos que até então ouvia e, por consequência, tiravam toda sua força. Era o fim! A espada celestial já estava sobre a cabeça da potestade, apontada para o céu, pronta para descer e ceifar a vida do jovem, quando um vulto negro e vermelho atingiu o agressor.

 

potestade

 

Em um piscar de olhos, a situação havia se modificado. Não havia mais nada na frente do necromante. Olhou para o lado e viu que no meio do rio estava a potestade tentando se erguer. Parecia estar gravemente ferida. Perto dela havia um gigantesco demônio. A retina do necromante se dilatou. Jamais viu uma besta tão grande, demoníaca e poderosa. Era poder na sua forma mais pura. Tinha mais de 3 metros de altura, pele vermelha, grandes chifres negros curvados e músculos desenvolvidos. Fedia a enxofre. O ar ao seu redor tremeluzia em razão do forte calor que dele emanava. A água sob seus pés fervilhava. Ele olhou para o necromante e disse:

 

abigor

 

– Mestre.

 

Um filme passou pela cabeça do herói. Esmeralda ficou boquiaberta e o ladino desapareceu. O’ Cruz levantou o necromante e o fez correr em direção à caverna. Em poucos minutos, chegariam nela. Os três dispararam. O’ Cruz estava lúcido, parecia ser o único a raciocinar naquela situação. Os outros dois, Formol e Esmeralda, corriam mais por instinto. Ouviam-se sons de lutas entre anjos e demônios no céu. Gritos estridentes de agonia e de dor. Tilintar de espadas poderosas. Raios eram vistos e acompanhados de trovões. Chovia fogo. Perceberam que o rio estava cheio de criaturas e homens mortos sendo levados pela correnteza. Era um cenário apocalíptico.

 

O necromante percebeu que sua companheira estava espantada e que chorava compulsivamente. Tal constatação fez com que ele mesmo se esquecesse do horror que inundava sua alma. Sabia que ambos morreriam em breve. Mas isso parecia um pequeno detalhe em meio a toda aquela situação. Várias coisas o atormentavam. Ele foi chamado por um demônio poderosíssimo de mestre. Uma potestade tentou matá-lo. São Paulo e Rogar também. Sabia que atrás dele também estavam os Cavaleiros Templários, a Igreja, os “bersekers” e todas as entidades celestiais. Ele era defendido por demônios! Havia um alquimista obscuro, amigo de um antipaladino, ao lado dele. Os necromantes estavam em extinção e ainda assim se matavam. As imagens do livro e da caverna, bem como aqueles cantos, estavam irritando o herói e pareciam atraí-lo para um lugar sem volta. Tudo isso era angustiante e o fazia pensar em suicídio, porém o que mais o deixava arruinado era saber que Esmeralda estava nisso tudo. Ela morreria com ele, não tinha mais volta. Seria considerada uma bruxa e uma entidade maligna; caçada por heróis e entidades celestiais. Era uma cúmplice dele, embora ele não soubesse que crime havia cometido. Provavelmente seus pais devotos e o pai da moça morreriam também – ou de desgosto ou queimados pelos inquisidores, que costumavam matar familiares de suas vítimas também. A beleza de Esmeralda seria símbolo de depravação.

 

– Lá está a caverna! – Gritou o alquimista. – Vá, vá! – Continuou berrando. – Não olhe para trás! Tenho que derrubar o último inimigo. Esmeralda venha!

 

– Não! Esmeralda vem comigo! – Bradou instintivamente o necromante, puxando-a pela mão.

 

O alquimista ficou contrariado, mas assentiu. Sabia qual seria o destino de ambos. Estava mais preocupado com o oponente que guardava a caverna:

 

– Apareça druida, eu sei que você está aí!

 

O’ Cruz jogou algumas bolas brancas no chão. Foi fumaça para todo o lado. Os dois heróis não olharam para trás, mas sentiram que outra grande luta ali começava.

 

Entraram no buraco. A caverna era escura e funda, mas o necromante sabia se orientar nela devidos aos seus repetidos sonhos. Sentia-se forte nela. Conseguia perceber o que estava à sua volta. Sabia onde estavam os declives, as estalactites, pedras, buracos… Sentia, inclusive, a presença dos pequenos animais e insetos que moravam na gruta e daqueles cujos corpos jaziam inertes.

 

O necromante lia as feições das pessoas. Apesar da escuridão, percebeu no rosto da companheira o medo e o terror. Ele sentia que a companheira tinha muitas dúvidas e sentia que havia uma luta árdua em sua mente, mas percebeu que ela gostava dele, que talvez o amasse e que não se sentia ameaçada por ele, mesmo tudo indicando que ele era a criatura mais perversa do mundo. Estaria ela se enganando?

 

Formol prometeu para si mesmo que nada aconteceria com ela. Ele pegaria o maldito livro, ganharia poderes e mataria todos os demônios que o tinham ajudado. Faria tudo por ela, pois percebeu que talvez a amasse; que talvez ela fosse o seu primeiro amor. Ela era a primeira mulher que não o julgava pela sua aparência sombria, exceto pelo hipocorístico que lhe dera (Formol). Embora fosse arrogante e mandona, sabia ser atenciosa e carinhosa também.

 

Alguns segundos depois desses pensamentos, eles entraram em uma câmara escura, com uma leve iluminação esverdeada. O necromante ficou eufórico e sentia o poder fluir em suas veias; jamais sentiu aquilo. Talvez, naquele momento, fosse mais poderoso até do que o antipaladino e do que muitos anjos e demônios que o haviam atacado. Olhou para Esmeralda, indicando que estava maravilhado com o que estava sentindo. Queria mais e mais. Nem o pavor nos olhos de sua parceira o consternava. De uma hora para outra ficou cego. O poder o cegou. A cada passo que dava em direção ao livro, sua sensação de força e impetuosidade aumentava. Parou diante dos alfarrábios. Estava para abri-los, quando ouviu uma voz familiar.

 

– Lúcifer, pare!

 

Era São Paulo. O necromante há muitos anos escondia o seu verdadeiro nome, pois dele tinha vergonha. Seu nome era Lúcifer.

 

Paulo falou inúmeras coisas de forma desesperada. Alertou, brevemente, que naquele livro estava encerrado o espírito de Lúcifer, que acordara há poucos dias. Explicou que ele queria sair para mover uma nova guerra contra o céu.

 

– Lúcifer, Lúcifer destruirá o Paraíso! As almas de nossos antepassados serão destruídas! – Concluiu o pensamento.

 

Todavia Lúcifer, o necromante, não se importou com nada disso, aliás, nem estava prestando atenção no interlocutor.

 

– Almas no Paraíso… – Riu irônico. – É melhor ir para o Inferno do que conviver eternamente com um monte de crentes bobalhões no Céu. – Respondeu de forma rude e áspera, entregue ao poder, mas, ainda assim, de forma verdadeira e racional.

 

Para o necromante São Paulo já não era uma ameaça. Voltou-se, então, para o livro e o abriu sem delongas. O selo que mantinha o livro fechado foi aberto. O clérigo atacou, mas Lúcifer já estava poderoso demais. Não precisava mais de corpos decompostos para lutas. Ele invocou do além vários esqueletos flamejantes e armados para atacar o clérigo que, no entanto, conseguiu afastá-los usando seus poderes. Um clarão que partira de Paulo inundou o ambiente. Quando a escuridão retornou ao ambiente, interrompida apenas pela luz esverdeada que guardava o Grimório, o clérigo, esgotado, estava caído no chão e os esqueletos haviam desaparecido. Esmeralda correu em direção ao necromante que estava indiferente ao que acabara de acontecer. Ele, no entanto, rapidamente se virou e a pegou pelo pescoço, sem chance de defesa para a moça. Gargalhou. Cego pelo poder, disse à moça que leriam o livro juntos.

 

Voltou-se na direção do livro para finalmente lê-lo e extirpar suas dúvidas e anseios da cabeça, todavia ele e Esmeralda foram jogados para longe. Atordoado o herói, ou anti-herói, notou que na sua frente, sobre o Grimório aberto, um espírito poderoso pairava. Uma névoa maligna surgiu. Nela só podiam se distinguir três traços, que simbolizavam os olhos perversos e a boca do inimigo. Era o espírito de Lúcifer, o querubim caído.

 

Lúcifer liberto agradeceu o bom trabalho de Lúcifer. Disse que ele fora uma ótima marionete e um bom necromante, visto que só os conhecedores de ciência negra poderiam abrir o Grimório em que estava selado. Esmeralda, ora olhando para o necromante, ora olhando para o espírito maligno, comprimia-se contra a parede. Pálida, transpirava. As batidas do coração eram violentas. Tentava gritar, mas não conseguia. Lúcifer disse ao necromante que o agradeceria matando seu amor. Só então o necromante se deu conta de que realmente amava Esmeralda e de que não havia dúvidas quanto a isso. Mas era tarde demais. Esmeralda começou a ter convulsões. De seu nariz e de suas órbitas jorrou sangue, seus olhos se reviraram, sua língua enrolou sobre si mesma e o corpo passou a se retorcer fortemente. Os ossos dela, então, quebraram-se e fraturas expostas surgiram. Era o horror, a cena mais repugnante e dolorosa que Lúcifer, o herói, já havia visto. O demônio rei disse que a alma dela queimaria no Inferno pela eternidade e completou:

 

Ela não deveria estar aqui, a culpa é tua. – Gargalhou o Diabo.

 

A alma de Lúcifer desapareceu e uma nova guerra entre o céu e o Inferno estava para se iniciar.

 

céu vs inferno

 

A luz que protegia o livro desapareceu. Na câmera cavernosa reinou a escuridão absoluta e o frio desolador. São Paulo se levantou e fez surgir uma fraca luz de seus punhos.

 

– Lúcifer. – Disse São Paulo. – Levante-se. Venha comigo.

 

Lúcifer ainda traumatizado e perplexo obedeceu. Estava perdido, absorto em seu drama. Próximo a ele, morta, estava a mais bela mulher que já vira na vida, em meio a uma poça de sangue. A única mulher que realmente amou na vida e que lhe deu atenção; a única mulher que não o prejulgou, que não se importava com sua aparência débil e com seus hábitos sombrios.

 

São Paulo apoiou Lúcifer. O velho homem estava cansado e aquela caverna estava deixando-o sem ar e com claustrofobia. O santo homem parecia estar levando um moribundo nas costas. Todavia, após um longo tempo de caminhada, conseguiu chegar à abertura da caverna. Tudo estava calmo. O sol estava radiante, a grama verde e o silêncio reinava quase absoluto. Os sons de espadas rasgando o ar e a carne haviam cessado. Gritos de angústia e agonia não mais se ouviam. Nem o barulho dos animais. Apenas o som das águas passando pelo leito do rio e o vento fraco zunindo quebravam o silêncio mortal.

 

O clérigo deitou o necromante na relva e desabou de cansaço.

 

– Onde estou?!

 

O necromante se viu em meio a uma planície de solo negro, sem vegetação. O cheiro de enxofre era muito forte. O chão quente e fumegante lhe queimava o corpo. Começou a correr. Não poderia ficar parado, pois certamente morreria ali. Tinha que encontrar algo ou alguém. Correu e correu por horas. Caiu de joelhos. Desesperado, sem fôlego e sozinho, estava para desistir quando viu algo ao fundo. Parecia ser um monte. Levantou-se. Seus joelhos ardiam e seus pés chamuscados estavam quase em carne viva, mas conseguiu forças para seguir em frente. Quando chegou ao pé do monte viu uma entrada. Dentro dela, uma luz esverdeada era emitida. Colocou a cabeça junto ao batente de madeira para que pudesse espreitar o que havia ali dentro, mantendo seu corpo para fora. Quando olhou para a fonte de luz, viu a silhueta de uma linda mulher flutuando. Pôde perceber que ela estava nua, na vertical e de frente para ele. Entrou em silêncio e vagarosamente se aproximou dela. Não podia ver seu rosto porque a fonte de luz emanava de um ponto atrás dela. Mas, à medida que chegava perto do corpo, podia notar melhor os traços do rosto da moça. Familiarizou-se com a mulher.

 

– Esmeralda! – Disse para si mesmo espantado.

 

Aproximou-se mais. Seus olhos estavam embargados. A respiração rápida e intensa. A emoção tomou conta dele.

 

– Perdoe-me. – Disse baixinho e em prantos.

 

Junto a ela, seus olhos ficavam na altura do ventre da moça. Olhou diretamente para sua face e percebeu que os olhos de Esmeralda estavam fechados. Ergueu a mão direita e tocou na cintura da mulher sem tirar os olhos do rosto dela. As janelas da alma da garota se abriram.

 

– A culpa é sua maldito!!!! – Bradou a mulher repentinamente.

 

Chamas saíram dos olhos e da boca de Esmeralda, seu corpo se partiu em dois, sendo rasgado por dentro, liberando mais fogo. A face de uma mulher diabólica surgiu em meio ao inferno que se tornara a sala.

 

Acorde, assecla de Satã! – Ordenou uma voz imponente. – É chegada a hora de Vossa Senhoria expiar todos os seus pecados. Pagará com a vida tua traição aos serafins.

 

O necromante não sabia o que estava acontecendo. Na sua frente estava aquela mesma potestade que havia tentado matá-lo horas antes. A potência celestial estava seriamente ferida, resultado da luta contra o demônio salvador, mas ainda assim mostrava e manifestava um poder gigantesco. Nem o sangue azul que corria pelo seu rosto e nem a sujeira de barro seco que com ele se mistura tiravam a imponência e força de suas feições.

 

– Espere! – Gritou São Paulo. – Ele é bom! Ele foi manipulado, não sabia o que fazia. Ele estava fugindo de nós. Eu mesmo o tentei matar. Ele é inocente!

 

Inocente?! – Bradou a potestade lançando um olhar raivoso para o clérigo. – Ele libertou o nosso inimigo. Deve morrer e ser jogado no purgatório. Tu – agora olhando diretamente para Lúcifer –, que carregas o nome do mal, ficarás eternamente no Purgatório, não descerá ao Inferno, junto de seu mestre, e nem subirá aos Céus. A solidão e a escuridão serão tuas companheiras eternas. Eu mesmo levarei tua alma para o purgatório!

 

– Não deixe a fúria tomar conta de sua mente, general. – Redarguiu São Paulo. – Vossa Santidade sabe que ele é inocente. Ele agiu em erro provocado por terceiro, isso exclui a culpa dele. Além disso…

 

Basta! – Gritou a potência incomodada com a renitência daquele ser humano. – Tu não passas de um clérigo de uma Igreja incompetente. Cale-se ou terá o mesmo fim de Lúcifer.

 

A potestade celestial ergueu novamente a sua espada dourada e prateada para ceifar a vida do necromante quando uma terceira voz exclamou:

 

Menadel, basta! Tu não tens o direito de matar um inocente. São Paulo está com a razão. Não se deixe levar pelas emoções. Lúcifer busca enfraquecer nossa razão e promover a discórdia entre os entes celestiais, como fez há dois mil anos, quando levou consigo um terço de nós. Sem mais mortes!

 

Tu acabas de cometer um grande erro, Tsadkiel. – Disse Menadel contrariado. Embainhou sua espada e saiu.

 

Alívio.

 

Só depois da saída da potência Menadel, Lúcifer conseguiu respirar direito. Olhou para o ser que fizera Menadel parar. Ficou admirado, pois ele não parecia tão poderoso fisicamente como a potência, visto que a criatura celestial tinha metade do tamanho da potência e um quarto dos músculos dele, mas incutia respeito e emanava muito poder. Ao lado dela, havia outra criatura celestial, um pouco maior. Ela tinha o tamanho de um ser humano normal e portava armas – havia uma bainha pendurada em sua cintura e um arco com algumas flechas nas costas, entre as asas. Ao redor deles estavam muitos anjos ajoelhados. Ambos os seres olharam para o necromante e para o clérigo com desprezo e, então, alçaram voo para os céus. Em seguida, os inúmeros anjos decolaram, deixando o clérigo e o necromante sozinhos.

 

Lúcifer voltou a cair no chão, pois estava exausto. Vivia um inferno. Foi perseguido por muitos e quase morto várias vezes, perdeu a mulher que amava, libertou a criatura mais poderosa e cruel que já existiu e não se livrou de seus sonhos e pesadelos. Pelo contrário, parecia que eles só iriam piorar. Ainda por cima, Lúcifer quase foi morto por uma potestade chamada Menadel e só não o foi por clemência de um outro ser, indiferente a sua situação e que visivelmente não apreciava seu rosto combalido. Queria morrer, mas lembrou-se de que se morresse não iria para o Paraíso, ficando eternamente no Purgatório. Ir para o Purgatório eterno ou viver mais algum tempo naquele inferno que se tornara sua vida, eis a questão. “Pelo menos não irei para o Inferno de verdade nem para o Paraíso entediante da Igreja e que tem anjos como Menadel”, pensou.

 

– Precisamos pegar o Grimório e salvar Esmeralda. Levante-se filho de Deus. – Ordenou o clérigo.

 

O necromante ficou inerte. “Pegar o Grimório? Salvar Esmeralda?”, pensou. Parecia mais uma piada de mau gosto do clérigo.

 

– Venha Lúcifer! Você já teve tempo suficiente para descansar. Há mais de um dia você dorme. – Insistiu Paulo.

 

Deus existe, afinal”, lamentou o necromante. Em sua caminhada solitária pelo mundo, sempre era confrontado pela arrogância de clérigos, pastores, mendigos, falsos messias, padres e satanistas que militavam pela existência de Deus e de demônios com argumentos débeis e histriônicos.

 

Deus existe, você não sabe nada!

 

Você é ateu! Deve ser purificado na fogueira!

 

Se não fosse por ele, você sequer existiria.

 

Além de lembrar desses argumentos estúpidos, do uso irrestrito do “argumentum ad hominem” contra ele e do bulverismo do qual era vítima, lembrou-se dos pais e da santa ignorância que sobre eles pairava. O que diria para todas essas pessoas agora que havia visto anjos e demônios em ação? É certo que a existência de anjos e demônios, por si só, não significava a existência do Deus da Igreja, mas a simples aparição das criaturas celestiais seria mais do que suficiente para os religiosos reforçarem suas crenças e sua fé inquestionável.

 

– Como você sabe meu nome? – Perguntou depois de algum tempo raciocinando e ainda se sentindo cansado.

 

– Filho, a Igreja sabe de tudo. Temos vastos arquivos de milhares de pessoas, líderes, políticos e, principalmente, manipuladores de ciência negra e de possíveis inimigos da Igreja e de Deus. Temos vários informantes espalhados por todos os lugares. São chamados de “cordeiros”. Pessoas que nos seguem cegamente e que se autoflagelam. – Explicou o religioso. – E você há de convir que a Igreja não deixaria passar despercebido um nome como o seu. Ainda mais quando na sua cidade natal, Satânia, o príncipe regente organizou um registro civil de todos os nascimentos. Você foi monitorado por boa parte da sua vida.

 

– Assim como os demais necromantes?

 

– Sim.

 

– E todos estão mortos?

 

– Eu sinto muito.

 

– Então a Igreja mobilizou toda a sociedade contra os necromantes e contra as bruxas?

 

Silêncio.

 

– Sofri a vida inteira por causa de vocês? – Silêncio. – Acho que chegou a hora de vingança! – Vociferou o necromante levantando-se repentinamente e pronto para atacar. Estava muito frustrado com a morte de Esmeralda, com a sua atual situação de vida e pelo fato de, aparentemente, ter se enganado com relação à existência do Deus da Igreja. A mente de Lúcifer era um turbilhão de confusão.

 

– Eu salvei sua vida! A Igreja precisava impedir a volta de Lúcifer, fomos informados apenas alguns… dias atrás por meio de Jofiel que…

 

– Quem é Jofiel? – Berrou insanamente o necromante.

 

– Jofiel é um arcanjo. Um arcanjo é um anjo mensageiro de Deus. Ele contou para a cúpula da Igreja que Lúcifer se libertaria pelas mãos da ciência negra e que ela precisaria ser eliminada em todas as suas formas. A ciência é uma maldição para a sociedade, pois abala a fé. Coletamos todas as nossas informações e fomos atrás de todos os necromantes e bruxas. Precisávamos eliminá-los para impedir o mal maior. Depois destruiríamos também todo o conhecimento científico, mas não conseguimos…

 

Lúcifer estava arrasado. Agora muitas coisas se encaixavam, mas, ainda assim, tudo aquilo lhe parecia absurdo.

 

– A Igreja foi fundada alguns séculos atrás. Sua missão era manter o mundo em paz e glorificar Deus. Ficamos incumbidos de controlar tudo o que acontecia aqui no plano mortal para evitar que seguidores de Satã, os pagãos, se proliferassem e que dessem um jeito de encontrar Lúcifer e o libertar.

 

– Por que não mataram Lúcifer? – Perguntou o necromante, ignorando o fato de que pagãos e satanistas também tinham o direito de ter uma religião. Buscou não pensar que o suposto exorcismo de demônios era um grave atentado à religião satanista e as dela derivadas.

 

– Impossível, ele é muito poderoso. A única forma que o exército celestial encontrou na ocasião foi aprisioná-lo naquele livro.

 

– Por que não havia guardas na caverna?

 

– Os anjos não confiam em nós e não queriam que seus soldados ficassem sujeitos ao poder de Lúcifer. Ninguém, nem a Igreja, sabia onde ficava escondido o livro, nossa única função era de controle.

 

– Matando pessoas inocentes?

 

Silêncio. O necromante olhou diretamente para os olhos do clérigo e viu que ele era uma pessoa bem-intencionada, mas que não sabia exatamente do que falava.

 

– Como você pretende salvar Esmeralda? – Perguntou Lúcifer desolado, quase em prantos.

 

– Podemos salvar a alma dela, trazendo-a do Inferno.

 

inferno

 

Por um segundo a fúria tomou conta do corpo do necromante. O peito ficou apertado e o sangue fervilhou. Parecia que sua cabeça explodiria. Mas logo, sentiu-se fraco, levantou-se e saiu caminhando desacreditando o que acabara de ouvir. Sua paciência acabaria em breve se ficasse ali por mais tempo. “Descer ao Inferno, era só o que faltava”.

 

– Você está com medo? Vai desistir dela tão facilmente? Vai se omitir quando pode agir?

 

Lúcifer continuou andando.

 

– Sei que nada podemos fazer contra Lúcifer, mas sei como chegar ao Inferno e resgatar Esmeralda. Eu sei que você a ama. – Falou em tom otimista.

 

Lúcifer diminuiu o passo.

 

– Vamos? O que você tem a perder? – Insistiu São Paulo.

 

– Por quê?

 

– Por que o quê? – Respondeu São Paulo.

 

– Por que quer me ajudar?

 

– Por quê? Depois desses últimos acontecimentos na caverna, eu tive uma experiência numinosa e, então, percebi que não tenho mais nada nesse plano. Vivi demonizando deuses de outras culturas e pregando a palavra de Deus, mas não valeu a pena. A Igreja falhou. Ao longo dos séculos, corrompeu-se. Enriqueceu-se às custas da fé alheia. A Inquisição matou e mata milhares de inocentes e não cumpriu a missão a ela atribuída pelo Altíssimo. Ela acabará de uma forma ou de outra, não importa quem vença. Ela não honra mais a Deus. E, além disso, estou velho. – Lamentou. – Não sei se ainda tenho utilidade para alguma coisa. Já posso morrer. – Complementou. – Vou para meu lugarzinho no Paraíso, pois acredito em Deus. Sou nobre. – Concluiu se regozijando, agora sorrindo e orgulhoso de sua nobreza, advinda da crença cega em Deus.

 

O necromante se questionou por que essas pessoas que acreditavam na vida após a morte e que nossa estada nesse plano era apenas um teste não se matavam após praticarem uma boa ação, pois, quanto mais vivessem, maior seria a possibilidade de cometerem pecados. Aliás, conforme notou o necromante ao longo de sua vida, os tementes a Deus eram as pessoas que mais temiam a morte e que mais lutavam contra ela, quando não promoviam, é claro, atentados. O necromante também não entendia a razão pela qual o suicídio levava ao Inferno se uma pessoa religiosa já cumpria o requisito básico para ser salvar: acreditar em Deus. Talvez ela só quisesse antecipar sua estadia eterna no Paraíso. Enfim, não havia motivo para viver sofrendo por décadas, sob o signo do pecado, para, só então, morrer e ir para o Paraíso. Nada fazia sentido.

 

– Como faremos então? E por que você acha que ela está no Inferno? Onde está o brutamontes?

 

O clérigo respondeu:

 

– Rogar morreu em combate. – Lamentou e fez um sinal religioso. – Foi morto por um anjo. – Concluiu aliviado. – Todo aquele que tem a vida ceifada por um demônio ou por uma arma demoníaca tem a alma encaminhada para o Inferno, onde queimará eternamente, sofrendo dores excruciantes. – Explicou. – E aquele que tem a vida ceifada por um anjo vai para o céu.

 

O necromante ficou pensando se almas tinham sistema nervoso. Será que sentiam dor mesmo? Sentiriam a chamas consumindo a alma? Nunca havia constatado algum tipo de dor nas almas que invocava. Algumas delas pareciam abobalhadas, outras estavam em estado vegetativo e outras tinham severos déficits cognitivos. Eram raras as almas lúcidas, com que se podiam conversar, pois a falência do cérebro, ainda que parcial, significava que não havia como sair uma alma inteira dele de forma consciente. De fato, como qualquer necromante sabia, cada parte do cérebro era responsável por uma função ou um sentido. Caso o cérebro fosse danificado parcialmente, e normalmente era, não havia como uma alma sair do corpo integralmente lúcida. Só em caso de morte natural, de pessoas longevas, totalmente sãs, apesar da longa idade, e sem traumas ou doenças, é que haveria algum tipo de chance de comunicação com suas almas após a morte. A maior parte dessas almas serviam apenas como alimentos ou como passatempo, como se fossem bichos de estimação.

 

– Enquanto você estava desacordado, voltei à caverna para pegar o Grimório.

 

Apesar de estranhar o anacoluto, o necromante indagou:

 

– Você está com ele?

 

– Não, não consegui erguê-lo. Senti estranhas vibrações e o livro pesava muito. Todavia, li as duas páginas abertas e vi algumas figuras. Não entendi exatamente, mas parecia tratar-se de mapas e de orientações. Acredito que o poder de Lúcifer não deixou por inteiro o livro. Talvez você consiga manejá-lo e decifrá-lo, pode nos ser útil.

 

– O corpo de Esmeralda ainda estava lá? – Perguntou ansioso o necromante.

 

– Sim, do mesmo jeito. – Respondeu com pesar Paulo.

 

– Eu… eu não posso.

 

– Mas nós precisamos. Precisamos salvar Esmeralda.

 

– Você não sabe como chegar ao Inferno, não é mesmo?

 

– O Grimório pode nos dar uma dica. Além disso, enquanto você dormia, ouvi as conversas dos anjos. Planejavam interceptar Lúcifer e suas forças antes que Satã consiga chegar ao Inferno. Podemos entrar furtivamente e resgatar a alma dela. Lúcifer e seus capangas terão coisas mais importantes para se preocupar. Você controla espíritos, não é? Pois bem.

 

– Sequestrá-la? – Perguntou espantado o necromante.

 

– Resgatá-la. – Corrigiu o clérigo.

 

– Onde fica o Inferno?

 

– Segundo antigos pergaminhos, os portões do inferno ficam em uma cadeia vulcânica…

 

– Qual cadeia vulcânica?

 

– Tenho certeza de que é aquela que fica entre o litoral e o deserto, ao extremo oeste daqui.

 

O necromante não levava muita fé no clérigo. Invadir o Inferno? Que ideia bizarra! Por que nunca ouvira falar de alguém que havia invadido o Inferno? Não era um lugar de morte e destruição? Porém, refletindo um pouco, a esperança surgiu dentro de Lúcifer. De fato, era como alguns cientistas e pessoas proeminentes diziam por aí: vemos e sabemos pouco sobre o nosso universo, porque nossos sentidos são limitados e porque a Igreja faz de tudo para impedir questionamentos, preferindo a pobreza da religião à riqueza da ciência. Muitos desses notáveis, que o necromante teve oportunidade de conhecer durante sua jornada, diziam-se religiosos, mas só o faziam para não perderem, literalmente, a cabeça e para continuarem a se fascinar, a cada dia, com novos conhecimentos e novas possibilidades, como o heliocentrismo, acreditando também que um dia o mundo estaria livre de discriminações e conflitos inerentes às religiões. Lembrando dessas pessoas notáveis, o necromante concluiu que deveria tentar e experimentar, porque podia mudar de opinião e admitir que estava errado. Assim, resolveu seguir a sugestão do aliado.

 

Enfim, em poucos dias, a vida do necromante havia mudado radicalmente. Viu anjos e demônios, restando sua tese de que Deus não existe abalada. Tinha ganhado um amigo e um amor rapidamente e os perdera ainda mais rápido. Agora iria para o Inferno, um lugar de suposta dor e tortura eterna, tomado pelo fogo e pela maldade.

 

– Vamos? – Perguntou o clérigo dirigindo-se apressado à caverna.

 

– Não precisamos do livro, vamos até os vulcões. Não quero entrar lá de novo. – Disse de forma lamuriosa o necromante apontando para a caverna.

 

– Mas você precisa! – Gritou o clérigo alterado.

 

Aquele comportamento assustou um pouco Lúcifer. Ele realmente não esperava por aquilo. Por alguns segundos, olhou diretamente para os olhos de clérigo, mas nada viu de diferente em sua alma.

 

– Tudo bem. – Disse, enfim, o necromante. – Eu irei. Vamos pegar o Grimório.

 

– Sim, vamos! – Assentiu o clérigo aliviado.

 

Os dois entraram na caverna. O clérigo providenciou uma fonte de luz que emanava de sua mão. O necromante, por sua vez, sentia-se mal, sendo acometido por enjoos. Não queria rever o corpo morto de Esmeralda. Aquela imagem de morte não saía de sua retina. Estava com medo.

 

Entraram na câmara. A escuridão reinava absoluta. Não havia mais o brilho esverdeado que envolvia o livro. O clérigo então aumentou o brilho que irradiava de sua mão. O livro estava lá! Aberto, como foi deixado por Lúcifer. Mas isso parecia não afetar o herói, era-lhe indiferente. No entanto, a imagem de Esmeralda morta não deixava sua mente. Queria olhar para onde o corpo havia ficado, mas hesitava. Andava pé ante pé em direção ao livro. Instintivamente, usava o olhar periférico para ver alguma coisa de soslaio, para ver se o corpo ainda estava lá, mas não conseguia.

 

– Onde está?! – Perguntou espantado São Paulo.

 

– O quê?!

 

– O corpo de Esmeralda sumiu!

 

O necromante entrou em desespero. Onde estaria o corpo? Não fazia tanto tempo… Quem havia retirado o corpo de lá? Olhou para o clérigo.

 

– Foi você! Cadê o corpo, ladrão?! – O necromante partiu furiosamente em direção ao clérigo. O choque entre os dois fez com que a luz emanada do clérigo se apagasse. A escuridão prosperou absoluta.

 

– Não fui eu, não fui eu! – Gritou desesperado o clérigo antes de sentir sua garganta totalmente comprimida pelas mãos do necromante.

 

O que antes era medo e culpa virou ódio e cólera. Ela estava morta e era culpa sua. Agora o corpo dela havia sumido. O que fariam com ele? Não teria nem um enterro digno?!  Repentinamente um clarão cegou momentaneamente os olhos do necromante.

 

– Você está louco? – Tossiu o temente a Deus. – Não fui eu. – Tossiu quase perdendo a respiração.

 

– Mentiroso!!! – Gritou ainda atordoado o necromante.

 

– Eu também fiquei desacordado, covarde! – Reclamou com a voz rouca.

 

Uma grande fonte de luz havia se originado do clérigo, o que fez o atacante ficar tonto com o contra-ataque repentino. O clarão, entretanto, não o tinha cegado e as luzes que consequentemente se formaram na sua mente, nos segundos subsequentes ao ataque luminoso do clérigo, esvaíram-se. Não estava mais grogue, entretanto o agressor nada via. Escuridão total na caverna. Não obstante, o necromante furioso ainda ouvia os gemidos agonizantes do clérigo. Lúcifer, cego de raiva, invocou seu poder: a esfera brilhante esverdeada que roubava almas, o mesmo poder que usara contra o “berseker” no vilarejo quando do furto dos cavalos; o mesmo que Fobos havia usado contra ele e seus amigos. A câmera se iluminou e as paredes de pedras assumiram um tom pálido e esverdeado.

 

– Você vai me matar? – Perguntou o clérigo.

 

A cólera tomava conta do necromante.

 

– Eu vou matar todo mundo! Anjos, demônios e Lúcifer. Eu vou me vingar! Não vai sobrar ninguém e você será o primeiro a morrer!

 

São Paulo olhou diretamente para os olhos agressivos do seu algoz. Refletiam a luz verde. Viu o braço do agressor se levantar com a esfera verde pronta para ser lançada.

 

– Eu nunca mais serei usado! – Falava o necromante em um tom que variava entre o ódio e o desespero. – Nunca mais serei enganado. Morra!

 

Espere! – Interrompeu uma terceira voz.

 

Lúcifer viu uma aura branca muito intensa se aproximar da entrada da gruta. Logo toda a câmara se iluminou e lá estava uma criatura celestial postada na porta, olhando diretamente para o herói. Ela tinha quase dois metros de altura e suas asas, mesmo fechadas, eram muito grandes, o que lhe dava um ar imponente e belo.

 

– Quem é você? – Questionou fria e secamente o necromante ainda com o braço levantado, prestes a atacar.

 

Miguel, arcanjo Miguel. – Respondeu a entidade celestial.

 

arcanjo miguel

 

Continua  Comentem.


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