Lúcifer e a conspiração dos arcanjos – Parte 6

Vide quinta parte

 

– O arcanjo Miguel é seu pai? – Perguntou ajoelhando-se São Paulo.

 

Sim. – Sorriu timidamente o pequeno anjo.

 

Aquilo não tinha sentido! Arcanjo Miguel, poderoso que era, tinha conferido a proteção de sua filha a um necromante e o tinha mandado para o Inferno com ela. Além disso, havia mentido descaradamente quando disse que Penélope seria sua salvação. Que tipo de pai ele era? Que tipo de arcanjo ele era?

 

O necromante visivelmente cansado e indignado, pois mais uma vez se sentia manipulado, voltou-se para o druida e pediu que os levasse para fora da floresta. Não seguiria o rio até as montanhas geladas, como ordenou Miguel, pretendo voltar para sua terra natal. Porém, antes disso, deixaria Penélope na Santa Sé, poder central da Igreja na Terra. Não a deixaria em qualquer igreja, pois o arcanjo Miguel era “nervosão”. Questionou São Paulo sobre a localização da futura morada de Penélope, porém o religioso não quis falar. Com os olhos fundos, próprio de quem não dormia bem há dias, e com as roupas sujas, o religioso tentou ainda persuadir o necromante. Queria o santo que a missão dada por Miguel fosse cumprida. Então o necromante gritou irritado:

 

– Se você não vai me ajudar, eu posso encontrar a Santa Sé sozinho. Eu sei que ela margeia essa floresta.

 

O necromante sabia que a Santa Sé ficava próxima da floresta, perto de um rio. Mas qual? Em seus sonhos, não só aprendeu o caminho para a caverna, mas também notou que a floresta era enorme, estendendo-se por milhares de quilômetros quadrados e possuindo muitos rios e riachos. Precisaria do druida para alcançar o centro de poder da Igreja. Perguntou ao ser florestal se ele poderia levá-los à Santa Sé. A resposta foi negativa, pois ele tinha muito trabalho para fazer ali, em sua casa. Além da destruição de suas terras, o druida, por meio de sua arraigada interação com a mata, sabia que ainda existiam pessoas e criaturas andando a esmo por aquelas bandas. Todavia, indicou a direção noroeste para que seguissem. A Santa Sé ficava aos pés das montanhas mencionadas pelo arcanjo Miguel, todavia bem longe das fontes daquele rio. Lúcifer pegou a bolsa com o livro e a bolsa que continha provisões, chamou Penélope e partiu. Em uma última tentativa, São Paulo, afligido, como se esperasse por um milagre, mesmo sabendo que nunca houve uma suspensão da lei natural cientificamente comprovada, disse:

 

– Lúcifer, espere!

 

lúcifer

 

Lúcifer continuou caminhando, porém Penélope, que estava logo atrás dele, parou. Ficou pálida, imóvel por alguns segundos. A feição sempre curiosa e dúbia abandonou seu rosto. Ficou apavorada. Aquele nome: Lúcifer. Sempre aprendera que Lúcifer era a criatura mais diabólica do mundo. Sabia que ele enganava as pessoas, promovia guerras, discórdia, morte, traições e infortúnios. Sabia que ele se rebelou contra todo o Paraíso, que enganou milhares de anjos, que destruiu a unidade celestial, que confrontou os serafins, que machucou seu pai em batalha e que estava prestes a voltar para tentar acabar com todos novamente. Todos no Céu sabiam disso e todos sabiam que só os serafins poderiam dar cabo de Lúcifer.

 

O necromante, após andar alguns metros, parou. Não sentiu a presença de Penélope. Olhou para trás e viu o rosto transfigurado do anjinho. Voltou-se e foi em direção a ela. Nunca vira tamanha expressão de pavor. Os olhos dela estavam molhados, cansados e vermelhos de terror, e a pele mais alva do que nunca. A expressão de abatimento saltava aos olhos. Nunca achou que um anjo pudesse ficar feio. O aspecto dela pareceu-lhe pior do que os dos anjos mortos e torturados na colina acima. A criança se preparava para fugir. Começou a bater asas, porém, antes que pudesse ganhar altura, o necromante segurou um dos calcanhares dela. Ela gritou e desesperada chutou uma, duas, três vezes a cabeça do necromante. São Paulo e o druida vieram em auxílio do necromante, porém, antes que chegassem, ele soltou o anjo que subiu, em fuga, a colina.

 

medo-2

 

– ESPERE! – Berrou São Paulo. – Por que você a soltou? Podemos explicar para ela! – Suplicou o cansado santo.

 

– Ela não é mais problema meu. – Respondeu de forma grave o necromante.

 

Alguns minutos depois um longo grito de agonia foi ouvido por toda a floresta. Os três subiram apressados a colina. No topo dela, viram Penélope ajoelhada, inerte, diante do morticínio. A hecatombe a deixara fraca, parecendo um vegetal. O necromante pegou-a no colo e a levou para onde estavam antes.

 

A noite chegou.

 

Na manhã seguinte partiram Lúcifer, São Paulo e Penélope.

 

Maldito nome! Penélope passou dias incomunicável. Olhava com ódio para o necromante. Estava irritada. Nem mesmo o leopardo, que viera a pedido de São Paulo, confortava-a. Ela vivia abraçada com o bichano, sem, contudo, abaixar a guarda. Encarava incansavelmente o necromante e todos os passos deles eram analisados; tudo que ele fazia era visto como atitudes de um enganador. Não aceitava nem um afago, agrado ou palavra amiga do necromante. Tinha certeza de que a estava enganando. Não vislumbrava qualquer outra hipótese.

 

penélope do mau

 

Lúcifer não sabia o que fazer para ganhar a confiança de Penélope novamente. Não entendia como um anjo poderia odiar tanto. Ele disse inúmeras vezes que só os nomes eram iguais, mas que eram pessoas, ou seres, diferentes. O herói também disse que ela poderia ir embora quando quisesse… porém ela não ia. Ela permanecia em um silêncio resoluto e sepulcral. Acompanhava-o na caminhada, sempre atrás, de atalaia. O necromante estava ficando com medo daquele olhar e daquele comportamento. Queria chegar logo à Santa Sé e deixá-la. Pressentia que algo poderia acontecer de mal a ele, pelas mãos dela. Tinha a impressão de que a cada dia Penélope ficava mais fria, mais cruel. Talvez fosse melhor lutar contra o arcanjo Miguel, pois sua morte seria rápida e indolor, sem aquele clima de terror e medo insuportáveis que Penélope criava com seu silêncio e com seu olhar impiedoso. Tinha a impressão de que o anjinho planejava alguma coisa.

 

Outrossim, os sonhos do necromante com Esmeralda continuavam tão desagradáveis quanto o primeiro que teve. E, em todos eles, uma estranha, bela e cruel mulher estava junto de sua amada, sempre praticando alguma atrocidade contra ela.

 

Além de Penélope e dos sonhos desagradáveis com Esmeralda, o necromante tinha um outro problema, talvez o maior: São Paulo.

 

O velho homem estava doente, magro, abatido e sua pele estava levemente esverdeada. Andava como um moribundo, envolto em roupas que lhe cobriam o corpo inteiro. E, ainda que mantivesse a sanidade mental, às vezes falava coisas desconexas. Todas elas tinham relação com o livro. Às vezes tinha atitudes intempestivas. Andava irritado. Matava animais com crueldade para que ele e o necromante pudessem comer. Às vezes se referia com ódio à Igreja e aos seres celestiais, não obstante tivesse que parar a jornada quatro vezes ao dia para orar. O necromante não entendia aquele comportamento. Angustiado, tentou conversar com São Paulo por diversas vezes, mas este dizia que estava tudo bem.

 

religioso do mal

 

O que mais intrigava e preocupava o necromante era a obsessão do santo pelo livro. O clérigo não conseguia ficar longe do livro. Sempre perguntava sobre ele e falava constantemente de sua importância. Às vezes, assustava-se e corria para perto da bolsa. Pedia para ver o livro. Queria certificar-se de que nada de mal havia acontecido com ele. Estava extremamente inseguro e cada vez rezava mais fervorosamente. A cada dia que passava, a dependência do livro aumentava. Havia horas que perguntava inúmeras vezes se realmente o livro estava em segurança, se não havia caído colina abaixo e se não havia sido esquecido entre uma parada e outra para descansar. São Paulo se sentia constrangido, pois sabia que incomodava, sabia de suas condições deploráveis de saúde e sabia que causava perplexidade e asco no necromante, acostumado a lidar com criaturas putrefatas. Entretanto, nada podia fazer. Em seu íntimo, sabia por que estava assim e sabia que logo o necromante também saberia, se já não sabia.

 

Os três, mais o leopardo, caminhavam pela floresta na direção nordeste, usando como sinais de orientação as estrelas e o sol, conforme orientados pelo druida. Repentinamente, o clérigo, que andava atrás de todos, parou e gritou desesperadamente. Arrancou os panos que recobriam o seu braço direito e jogou-os fora. Estava ardendo muito. Era uma dor lancinante. Assustado, o necromante se virou imediatamente e viu uma imagem assustadora: o braço direito do clérigo estava em carne viva, porém era uma carne preta e estragada, que parecia estar se decompondo. Havia inúmeros tecidos, desde pele até músculos e cartilagens, pendurados. Então, automaticamente, o necromante se lembrou de que o clérigo havia dito que tentara tirar o livro da caverna. Ele tocou no livro! Lembrou-se da maldição a que se referiu o arcanjo Miguel: terá uma morte horrenda ou virará um demônio. E agora?

 

O clima entre os dois ficou tenso. O necromante não poderia esperar para ver se o clérigo viraria um demônio ou se morreria. Colocaria em risco a sua vida e a de Penélope, que parecia não se importar com a situação do clérigo. Talvez, na cabeça dela, a situação de dor excruciante de São Paulo, um homem bom, fosse só mais um motivo para odiar o necromante, afinal de contas ele se chamava Lúcifer, o flagelo do Paraíso.

 

Eu preciso do livro. – Falou desesperado o clérigo. Sua voz assemelhava-se ao de um demônio.

 

Antes que o necromante pudesse responder alguma coisa, houve uma grande explosão. Ambos foram atirados para longe. Desnorteado, o necromante sentiu a bolsa que guardava o Grimório ser-lhe tirada. A imagem diante de si estava curvilínea, mas ainda assim pôde reconhecer uma pessoa: O’ Cruz.

 

O alquimista, desde o início, quando acompanhava o antipaladino, estava atrás do livro. Acreditava que, com o Grimório, no qual havia sido selado um dos seres mais poderosos que já existiu, poderia descobrir os caminhos para se chegar à Pedra Filosofal e ao Elixir da Vida Eterna. Foi o que lhe prometera um demônio poderoso chamado: Yen-lo-Wang. Este, para seduzir O’ Cruz, um excepcional e rico alquimista que criara e comercializava inúmeros produtos, desde ração humana, passando por produtos de higiene, até venenos, ensinou-lhe a preparar uma solução explosiva, ao que se denominou pólvora. Uma substância altamente explosiva que levaria à morte imediata muitos inimigos. O alquimista ficou boquiaberto quando Yen-lo-Wang demonstrou o efeito destrutivo da substância.

 

pólvora

 

– É um poder divino?

 

O demônio ficou um pouco decepcionado com a ignorância humana, que às vezes se manifestava até em pessoas inteligentes e bem instruídas.

 

Não, é ciência. – Respondeu Yen-lo-Wang. O demônio teve certeza de que a humanidade ainda levaria milhares de anos para se tornar uma civilização livre das influências religiosas e harmoniosa com o saber técnico-científico, na qual a busca por respostas racionais e a pesquisa prepondera sobre a inutilidade daqueles que recorrem ao Deus das lacunas, pessoas preguiçosas e passivas que atribuem tudo o que não podem explicar a uma força sobrenatural.

 

A pólvora, mais a promessa de adquirir conhecimentos suficientes para descobrir a Pedra Filosofal e o Elixir da Vida Eterna, fez com que o alquimista se esquecesse de sua vida de comerciante e químico notável para perfilar-se do lado de Lúcifer e dos demônios. Era sua única esperança de conseguir as duas fórmulas que há milênios eram perseguidas pelos alquimistas, levando-os, no entanto, à desgraça e à perdição, invariavelmente. O’ Cruz tinha finalmente sua relíquia. Não precisava mais servir à causa dos demônios, já havia ajudado muito os seres infernais.

 

O necromante viu o alquimista se afastar. Olhou para os lados, ainda tonto. Queria saber como estavam seus companheiros. O leopardo estava morto, Penélope havia desaparecido e São Paulo, que na explosão perdera o braço direito, estava de pé, ensanguentado e sujo de pólvora. Deveria ter morrido com a explosão. Entretanto, a fisionomia do religioso estava agressiva. Parecia que tinha o demônio no corpo. Rosnava de ódio ao olhar para O’ Cruz. Este se virou e percebeu a intenção do inimigo de agredi-lo. São Paulo, cambaleando e sofregamente, correu em direção ao alquimista que expeliu algo na face deformada do clérigo. Este caiu imediatamente e se debateu no chão, como um inseto. O’ Cruz embrenhou-se mata adentro. O necromante se arrastou para perto do clérigo enquanto o algoz fugia.

 

– Mate-me! – Suplicou o clérigo. A voz voltara a ser humana.

 

– Mas… – Disse perplexo o necromante.

 

– Mate-me e use meu corpo para matá-lo. – Um monte de sangue saiu de sua boca. Em seguida, seus olhos finalmente mostraram que a transformação se completara e que São Paulo havia virado um demônio agressivo que, mesmo moribundo e sem forças, tentou atacar o antigo amigo. O necromante jamais matou alguém. Sentiu dó do clérigo que tentara matá-lo na igreja e que depois o ajudara tanto. Faria sua vontade. Levantou-se com dificuldade e mirou sua bola de energia na face do demônio. Atirou. São Paulo parou de se mexer. Uma lágrima rolou dos olhos do herói. Então invocou o seu outro poder, o de utilizar os corpos mortos para atacar o inimigo. O corpo deformado de São Paulo se levantou, bem como o corpo ensanguentado, porém inteiro, do Leopardo. Lúcifer mandou os dois no encalço de O’ Cruz.

 

Ao alcançar o inimigo, o corpo de São Paulo, por um flanco, atacou o fugitivo. A vítima atacou com mais uma bomba de pólvora e dessa vez o corpo de São Paulo se esfacelou por completo. Antes que pudesse se recompor do susto de ver São Paulo de pé novamente, o ataque do Leopardo veio por trás, com suas garras e presas poderosas, a morte foi instantânea. O necromante caiu extenuado.

 

Passados alguns minutos, entretanto, ouviu passos perto dele. Sentou-se no chão e viu Penélope. Ela estava olhando friamente para ele. Em sua mão estava um instrumento metálico que parecia ser a ponta de uma lança.

 

lança do destino

 

Essa é a Lança do Destino. Ela serve para matar demônios; nela correu o sangue de um dos filhos dos serafins.

 

Em um último esforço, o necromante se levantou para impedir o iminente ataque, todavia, os ferimentos que O’ Cruz lhe causara eram profundos. Sentiu a lança afundar em seu abdômen. O anjinho feminino ao ver aquilo (a carne viva sendo perfurada por uma lança, o grito agonizante do homem e Lúcifer tombando no chão) chorou desesperado, talvez porque não acreditasse que conseguiria ferir mortalmente alguém, e saiu voando por entre as árvores, tentando se esconder de seu crime.

 

Lúcifer, após tirar a lança da barriga, ficou por um largo espaço de tempo ali, provavelmente por várias horas, esperando a morte chegar. Apesar da dor, estava curioso para saber para onde seria mandado: para o Inferno ou para o Purgatório, eterno, ou para o Paraíso? Nenhuma das alternativas parecia animá-lo. Estava quase passando para o outro lado da vida, quando viu dois rostos familiares: Hermes e o druida.

 

– Ouvimos a explosão e viemos apurar o ocorrido. Fico feliz por revê-lo. Achei que nunca mais o veria. Onde está Esmeralda e O’ Cruz? – Indagou Hermes, com seu habitual ar jovial e lépido. – Acredito que ele tenha atirado uma daquelas bombas. – O necromante não respondeu às perguntas do amigo, apenas desmaiou.

 

Enquanto o herói estava desacordado, o druida cuidou dos ferimentos de Lúcifer, em especial daquele aberto pela Lança do Destino. Por sorte, o corte não havia sido profundo. Nenhum órgão vital havia sido atingido. Penélope era bem menor que o necromante e também não havia atacado pelo ar, caso contrário, o necromante estaria morto.

 

Lúcifer havia dormido por horas, talvez por quase um dia inteiro. Quando acordou, viu o druida cuidando de uma planta. Levantou-se com dor de cabeça. Olhou para os lados e viu Penélope sentada. Assustou-se. Logo, no entanto, notou que a expressão da companheira infantil já não era de ódio. Pelo contrário, era de culpa. Seus olhos estavam marejados. Ela tentou sorrir. O necromante, amargurado, virou o rosto. As feridas ainda doíam e sua barriga estava enfaixada. Então lembrou-se: o Grimório. Exasperado se levantou e, ao fazê-lo, sentiu dores muito fortes por todo o corpo, mas mesmo assim tentou ir em direção ao druida. Caiu de dor, porém. O druida veio em seu auxílio.

 

– Onde está o Grimório? Onde está? – Perguntou desesperado.

 

– Está naquela bolsa. – Respondeu calmamente o druida.

 

– Você o tocou? Alguém tocou nele? – Indagou veloz e interessado.

 

– Não, ninguém mexeu nele.

 

Um sentimento de alívio percorreu o corpo de Lúcifer. Lembrou-se do fim trágico de São Paulo. Não aguentaria passar por aquilo novamente.

 

– E Hermes?

 

– Foi buscar alimentos. Descanse. – Então o druida voltou a cuidar de sua planta.

 

Algum tempo depois, Hermes chegou, afagou a cabeça de Penélope e se dirigiu para onde estava o amigo deitado. Os dois se sentaram ao lado da fogueira e começaram a conversar e comer as prendas do ladino. Penélope se sentou ao lado de Hermes e seu olhar suplicante se dirigia ao necromante que, no entanto, o ignorava. Lúcifer, calidamente e resumidamente, pois cansado e triste com tudo o que havia acontecido, contou todas as aventuras e tragédias pelas quais passara: a morte de Esmeralda, o reaparecimento de Lúcifer, a guerra iminente, a trajetória de São Paulo e as palavras do arcanjo Miguel. O ladino ouvia tudo com atenção e teve um leve sobressalto quando ouviu a palavra guerra. Por fim, o necromante disse que abandonaria a busca, que não iria até o Inferno e que não destruiria o Grimório no Lago de Fogo. Levaria Penélope até a Santa Sé e lá a deixaria. Queria voltar para Satânia, saber o que aconteceu com seus pais e com os outros necromantes. Tinha esperança de que, como ele, outros houvessem sobrevivido. Enfim, disse que queria refazer sua vida e tentar esquecer tudo aquilo.

 

– Mas e Esmeralda? – Indagou o ladino. – Segundo São Paulo há possibilidade de resgatá-la e ele não parecia ser o tipo de homem que mentiria.

 

O necromante silenciou.

 

Ela é sua namorada? – Perguntou Penélope resignada.

 

O necromante não olhou para ela e nem respondeu.

 

Persistente, o anjinho disse:

 

Eu sei como chegar ao Inferno e sei onde ficam as almas dos mortos.

 

– Como você sabe onde fica o Inferno? – Perguntou Hermes.

 

Eu e meus amiguinhos íamos brincar lá, escondidos. – Riu-se timidamente. – Quando os demônios iam embora, brincávamos com algumas almas penadas. Nós tínhamos tanta pena delas. Elas sofrem tanto de solidão lá. – Disse com olhar triste e sincero.

 

alma penada

 

– O Inferno é tão mal guardado assim?! – Surpreendeu-se Hermes.

 

O Inferno tem várias entradas. Algumas não têm qualquer demônio vigiando, outras são tão estreitas que só dá para passar um anjinho de cada vez. Não sei por que meu “papa” quis que tomássemos o caminho mais longo, mais deserto e mais difícil. Levaríamos dias até chegar lá. – Olhou para o necromante tentando agradá-lo. Queria mostrar que era sabida e que poderia ser bem útil. – Sei como chegar lá mais rápido. Eu ia com minha amiguinha Asaliah. – Por um segundo, Penélope ficou triste. Estava com saudades da amiga.

 

– Você vai para a Santa Sé, seu demoniozinho. – Disse rancoroso o necromante, ainda refém das dores.

 

Não Trevinhas, não Trevinhas, não me leve para lá. – Suplicou a entidade celestial. – Os principados dizem que a Igreja é suja como a maioria das ins…ti…

 

– Instituições. – Ajudou Hermes.

 

Isso! – Aliviou-se a anjinha. – Instituições humanas. Há muitos padres que enganam as pessoas, enriquecem de forma errada e feia e outros… – engoliu a própria saliva. – … se comportam como demônios quando estão com mulheres e com crian…

 

– Acho melhor não a levar para a Santa Sé. – Aconselhou Hermes interrompendo-a.

 

– Minha ideia era largá-la nas proximidades da sede da Igreja, mas, pensando bem, sim, você tem razão. Também corremos o risco de sermos queimados vivos se alguém nos vir. A Igreja não perdoa, apesar de pregar o perdão. Mas quem são os principados, hein senhorita? – O tom foi irônico.

 

Penélope sorriu:

 

Eles são membros da Terceira Hierarquia. Ficam na Terra, próximos aos governantes, são os con… conselheiros, acho que é isso.

 

– O que mais você sabe? – Indagou o necromante.

 

Eu sei bastante coisa. – Sorriu. Era a oportunidade de se redimir perante o seu amigo.

 

Então Penélope começou a falar, com alguma dificuldade, pois não era muito ligada aos estudos e aos assuntos políticos do reino celestial. Da narrativa confusa, o que Lúcifer, Hermes e o druida puderam depreender foi que os serafins eram os chefes do Paraíso e que tinham derrotado Lúcifer séculos atrás. Entretanto, o Céu vivia em um estado permanente de medo, tensão e vigilância, pois era certa a volta do senhor das profundezas. Embora ninguém soubesse quando e como, nem mesmo Metatron, o Grande. De fato, o número de atentados terroristas perpetrados por demônios havia aumentado e o Inferno começava a se agitar. Esses eram os sinais que os seres celestiais tanto temiam. Lúcifer era responsabilizado pela morte de milhares de anjos e por ter dividido o reino do céu com sua cobiça, arrogância e rebeldia. Muitos o seguiram e famílias foram separadas para sempre. Houve traições dentro da primeira hierarquia celestial e os querubins já não eram tão confiáveis aos olhos dos serafins. Estabeleceu-se uma certa rivalidade que persistia até os dias de hoje e que com a volta do Rei das Trevas aumentou novamente. Segundo as palavras de Penélope, todo o céu estava mobilizado. Havia movimentação de grandes contingentes de exércitos e o arcanjo Miguel, bem como outros arcanjos como Rafael, Samuel, Jofiel e Uriel, estava à frente de muitos deles, embora não fosse o principal general, posto este pertencente às potestades.

 

Metatron

 

Hermes, sempre arguto, perguntou:

 

– E Deus? Ele fará alguma coisa? Você já o viu?

 

CONTINUA…

 

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PS: próximo capítulo só depois do dia 01/09

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