Lúcifer e a conspiração dos arcanjos – Parte 7

Vide parte 6

 

O que tem Deus? – Respondeu desconcertada Penélope.

 

– Você não fez menção a ele na sua explicação. Acima dos serafins deveria estar Ele.

 

Ah! – Exasperou-se o anjinho. – Os serafins são Deus. Eles se reúnem e se revezam na função de Deus.

 

serafins

 

– Então Deus é um cargo! – Exclamou maravilhado o ladino. – Interessante! – Ponderou e um sorriso lhe saltou da face, pois milhões de possibilidades estavam postas à mesa. Talvez isso explicasse as inúmeras ideias, histórias, teorias e religiões sobre uma mesma entidade hipotética.

 

Silêncio.

 

– Bom. – Disse o necromante ainda um pouco perplexo. – Seu pai como um grande general celestial não deveria deixar sua filha aqui na Terra. Você é muito criança, tem apenas 547 anos…

 

347. – Interrompeu ela com um sorriso traquinas.

 

O necromante respirou fundo. Percebia que os anjos, assim como os humanos, também não eram dignos de credibilidade. Prosseguiu:

 

– Por que ele fez isso?

 

Todos os anjinhos foram convocados pelos serafins para irem à guerra, mas meu pai tinha uma missão especial para mim e não me deixou servir o exército.

 

O necromante se lembrou do massacre que vira alguns dias atrás em outra parte da floresta e dos pedaços de anjinhos espalhados por todos os lados. Cena lastimável. Causava-lhe espécie seres tão pouco desenvolvidos serem mandados para o campo de batalha. O que acontecia no Céu? Olhou para a carinha de Penélope: tão imatura, inocente, sensível e volúvel. O arcanjo Miguel queria protegê-la. De fato, ela não teria chance alguma no campo de batalha, ainda que portasse a Lança do Destino.

 

– E que missão é essa? – Interveio o druida, que até então havia ficado quieto.

 

Meu “papa” disse que eu tenho que destruir o Grimório e guardar o Lago de Fogo e que o necromante, o único que poderia carregar o livro, me ajudaria. Disse também que não posso deixar os demônios fugirem de lá, quando os anjos atacarem… Mas eu não quero fazer isso, é chato! Meu “papa” está me enrolando, lá é uma região deserta, fica longe das muralhas do Reino de Mammon. E ele sabe que não há demônios para eu derrotar. Não entendo por que faz isso.

 

lago de fogo inferno

 

– Você já lutou com algum demônio? – Perguntou o necromante.

 

Não.

 

– Já ficou diante de um?

 

A resposta também foi negativa.

 

– Quem é Mammon? – Perguntou Hermes.

 

É o regente do Inferno… ou será que é presidente? – Perguntou-se para si mesma, confusa, tentando forçar a memória. Penélope já estava aparentando cansaço. Tinha ficado muito tempo explicando como funcionava a hierarquia do Céu e quem era quem, além de contar sobre suas aventuras e a de seus amiguinhos no Inferno.

 

Enquanto caminhavam, o necromante, Hermes e o druida, ficaram várias horas ponderando as informações dadas por Penélope. Ela, por seu turno, não obstante de tempos em tempos relembrar as imagens que ficaram guardadas em sua memória de anjos mortos, mutilados e em decomposição, fato que lhe causava desespero e comoção, ao que seguia uma torrente de lágrimas, preocupava-se em arranjar novos amiguinhos animais. Era certo que o arcanjo Miguel queria proteger sua filha, mandando-a para o Inferno, que, ao que tudo indicava, era imenso, e com muitas partes pouco patrulhadas. Também era certo que a guerra seria dolorosa e cruel, pois até anjinhos eram mandados para o campo de batalha. Chegaram à conclusão de que quem mandava nos céus eram os serafins, mas não sabiam maiores detalhes sobre eles, pois Penélope tinha faltado em uma das aulas para ir brincar com almas no Inferno. Ficaram sem saber quem era exatamente Metatron e qual sua importância entre os serafins. Pensaram em Mammon, o regente, ou presidente, do Inferno, mas não chegaram a conclusão alguma.

 

Hermes, em sua caminhada e em seu íntimo, pensava e repensava, imaginava, teorizava, tentando visualizar, com base nas informações prestadas por Penélope, como funcionava a sociedade celestial. Imaginava como o cargo de Deus era ocupado pelos serafins, porque Lúcifer havia se rebelado, quem era Metatron e porque ele tinha a alcunha de “o grande”. Imaginava, outrossim, os exércitos e a hierarquia celestial, a política dos anjos, suas relações com os demônios e o terrorismo. Pensava sobre Mammon como regente, ou presidente, do Inferno. Era um sem fim de pensamentos e indagações desprovidas de respostas que faziam com que sua mente se cansasse. Às vezes, impelido por sua curiosidade, procurava Penélope em busca de alguma reminiscência na memória dela, algo que o pudesse fazer compreender o funcionamento das coisas, mas suas diligências junto ao anjinho restavam infrutíferas. Quando incomodada pela insistência e pelos pitos do ladino, que se resumiam a lembrá-la da necessidade dos estudos, ela respondia:

 

Para que estudar se eu vou morrer? – Depois disso a conversa acabava. O ladino voltava aos seus pensamentos e Penélope aos seus bichinhos.

 

Da mesma forma que Hermes estava absorto em seus pensamentos sobre as engrenagens do mundo celestial, o necromante também tinha suas reflexões e anseios e todos se resumiam a uma palavra: Esmeralda. O anjinho sabia inúmeros caminhos e formas para entrar no Inferno. Ela disse que brincava com as almas torturadas pelos demônios e informou que havia grandes áreas vazias no Inferno. Além disso, lá, por mais estranho que pudesse parecer, segundo Penélope, era o local mais seguro para um anjo inocente e indefeso estar.

 

Em meio a tantas obscuridades, reflexões e esperanças, Hermes explicou a Lúcifer que, enquanto ele se recuperava da batalha contra O’ Cruz e do ferimento feito por Penélope, havia conversado com o anjinho sobre o nome do necromante. Mostrou a Penélope que o Trevinhas não havia morrido com a Lança do Destino e que, portanto, não se tratava de um demônio ou mesmo de Lúcifer. Hermes fez com que ela percebesse que aquele Lúcifer era bonzinho e explicou que o nome dele já era uma pesada cruz a ser carregada. O necromante, então, quis saber como havia sobrevivido à invasão à floresta, aos demônios e como se tornara amigo do druida. E Hermes respondeu:

 

– Al Gore! Bem, ele estava realmente matando todos que ainda estavam em sua floresta. Eu estava perdido até poucos dias atrás, quase morri várias vezes, fui atacado e perseguido por vários demônios, mas por sorte, Al Gore encontrou-me. Queria me matar, mas logo percebi que ele estava puto com a situação de sua floresta. Culpando tudo e a todos, quando tive a ideia de oferecer minha ajuda para recuperar sua floresta. Conheço algumas pessoas, em geral alquimistas, que têm interesse na preservação de florestas e no uso de suas substâncias para fins humanitários, mas que não têm como financiar suas pesquisas. Elas também têm medo de entrar nas florestas, pois alguns druidas tinham má-reputação. Disse a ele que esses pesquisadores certamente o ajudariam a recuperar suas florestas se ele os auxiliasse em suas pesquisas filantrópicas. Além disso, disse que poderia ministrar a ele lições de direito ambiental para que ele melhor preservasse os interesses da floresta frente à sociedade, pois um dia chegariam homens maus, ignorantes, pecuaristas, plantadores de cana, etc. Disse que esses homens ocupariam tudo, de uma forma burra, irracional e prejudicial a todos… se não houver o Juízo Final antes, é claro. Ele aceitou. Daí conversamos mais e mais e ele acabou falando de você. Pedi que me levasse até você, pois estava preocupado. Ouvimos as explosões e o encontramos caído e ferido.

 

Com o passar do tempo, os sobreviventes se aproximaram da Santa Sé. Apesar disso, o necromante ainda não sabia o que fazer. Estava indeciso. Não poderia dar as caras justamente no centro da Igreja que tanto o perseguiu, mas precisava sair da floresta, precisava estar em uma cidade, em um vilarejo. Permanecia há dias naquele ambiente selvagem. Suas roupas estavam imundas e rasgadas. Alimentava-se de animais e de frutas apenas. Tomava o sereno da noite diariamente. Pensou em passar alguns dias nos vilarejos próximos a Igreja, mas seria arriscado. Como ele não chamaria atenção depois de tudo aquilo? Onde deixaria Penélope? Prometeu a ela que não a deixaria nas mãos da Igreja, mas não sabia como chamar o arcanjo Miguel para devolvê-la. Se a levasse para alguma cidade, provavelmente o anjinho viraria atração de circo pelas mãos de homens inescrupulosos ou seria usado por algum religioso. Pensou se ainda deveria cumprir a missão atribuída pelo arcanjo… mas já estava tão fora da rota por ele determinada… Deveria procurar Esmeralda no Inferno ou voltar para Satânia e esquecer tudo o que havia passado até então? A segunda hipótese não era atraente e a primeira era tentadora. Penélope sabia como entrar no Inferno e sabia onde ficavam as almas. Poderia resgatar Esmeralda se tivesse sorte.

 

Os viajantes ouviram, repentinamente, patrulhas de anjos ruflar as asas sobre eles, o que passou a ser constante à medida que as horas passavam. Apesar de estarem acompanhados de Penélope preferiam ficar na surdina. Pediram a ela que não levantasse voo e que se abstivesse de chamar seus pares. O necromante ainda tinha fixo na memória o ataque dos anjos na entrada da floresta, o poder do arcanjo Miguel, o de Menadel e a cena de carnificina de anjos. Apesar de estranhar o pedido e achá-lo engraçado, ela assentiu. Sabia que em breve veria seu pai, pois aqueles anjos que patrulhavam a região, em voos rasantes, eram soldados dos arcanjos, e não das potestades. Resolveu ficar quietinha até ver seu “papa”.

 

Com mais algumas horas de caminhada, as grandes torres da catedral da Santa Sé finalmente podiam ser vistas.

 

vaticano caminho

 

Vocês não vão me mandar para lá, né? – Perguntou Penélope, convicta de que ouviria um não bem grande.

 

O necromante disse que não e que eles iriam para o Inferno destruir o Grimório, como desejava seu pai. Penélope os guiaria, o que a deixou feliz. Era melhor ir para o Inferno do que ir para a igreja. O pequeno anjo explicou que passando pela Santa Sé, rumo ao norte, havia uma pequena entrada. Aproveitando um momento que ficou sozinho com o anjinho, o necromante perguntou:

 

– Onde ficam as almas mortas, lá no Inferno?

 

As que foram julgadas no Purgatório, as suicidas ou as que foram levadas pela mão de algum demônio? – Perguntou com naturalidade Penélope enquanto se ocupava de uma flor que estava nascendo torta.

 

– As que foram levadas pela mão de um demônio. – Respondeu imediatamente o necromante.

 

Que tipo de demônio: comum, soldado raso, capitão, coronel ou general? – Seu tom continuou natural, como se aquela conversa fosse apenas mais uma, sem qualquer importância. O anjinho parecia não perceber a ansiedade de Lúcifer.

 

demônio wallpaper

 

– O demônio é Lúcifer, o Lúcifer do mal, o chefão. – Penélope levantou uma das sobrancelhas, sem, contudo, olhar para o herói, tentando entender o que ele queria dizer. O necromante se sentiu estúpido, falando algo teratológico. Ela nunca tinha ouvido falar em tal hipótese. Não era do feitio de Lúcifer matar pessoas. Isso era algo que deixava para seus subordinados. Até onde sabia, o orgulho de Lúcifer era muito grande para matar diretamente qualquer ser vivo que estivesse abaixo da primeira hierarquia angelical ou que não fosse um de seus demônios generais que houvesse cometido algum erro crasso. Lúcifer era perfeito demais para se preocupar com almas insignificantes. Lembrando disso, Penélope respondeu:

 

Lúcifer não leva pessoas para o Inferno, ele acha todo mundo insignificante. Ele manda que outros façam o serviço sujo. – Respondeu concentrada na flor que teimava em ficar inclinada.

 

– Eu o vi matando uma pessoa! – Exclamou Lúcifer.

 

Seguiu-se um silêncio momentâneo.

 

Esmeralda é sua namorada?

 

O necromante ficou surpreso com a pergunta, lembrando-se que não havia respondido a pergunta sobre Esmeralda dias atrás. Talvez Penélope fosse mais esperta do que aparentava.

 

– Sim, onde ela está? – Perguntou suplicante.

 

Não sei. – Respondeu indiferente.

 

A caminhada continuou e finalmente, do alto de uma colina, aos pés de uma montanha e ao cabo da floresta, puderam ver em todo seu esplendor a Santa Sé. Era um castelo gigantesco, branco, com grandes torres, cobertas por abóbadas douradas, muros imponentes, vitrais enormes fulgurosos e grandes varandas. Aquele edifício era o mais belo, o maior e o mais reluzente que o necromante já havia visto. Era uma visão maravilhosa que transmitia paz e imponência. Nem as nuvens negras que pairavam parcialmente sobre a Santa Sé tiravam seu esplendor. Os viajantes seguiram em direção ao castelo admirados, menos Penélope que olhava a construção com desdém. Hermes disse que pelos seus cálculos a construção possuía cerca de um quilômetro quadrado de extensão e altura em torno de 250 metros. “Muito dízimo foi cobrado e muitas chibatadas foram dadas para construí-lo”, pensou o ladino, alheio ao fato de que a Igreja também não pagava impostos e de que ela financiava seus empreendimentos vendendo indulgências (havia até uma tabela formal com o tipo de crime e o valor correspondente de cada perdão) e com a venda de lotes de nuvens no Paraíso. Conforme desciam a longa colina, cuja vegetação ficava rala à medida que avançavam, os três (Lúcifer, Hermes e Al Gore) sentiam-se cada vez mais inferiorizados diante da retumbância da construção, o que revela o caráter arrogante e patrimonialista da classe religiosa. Eram compelidos a sentir que seus desejos e anseios eram pequenos e desimportantes.

 

Minha casa é maior e mais bonita. – Disse Penélope e todos olharam para ela incrédulos.

 

palácio

 

Antes que adentrassem o campo aberto e seguissem rumo aos portões da Santa Sé, por onde teriam que passar para entrar em uma das entradas do Inferno, os três homens ponderaram a situação, pois Al Gore se separaria do grupo. Ele havia levado todos para junto da Santa Sé como havia prometido e seguiria as instruções de Hermes, que indicou onde estariam os ambientalistas interessados na conservação da floresta e que se sentiriam felizes em ajudar o druida a cuidar de sua casa. Al Gore ouviu rumores de que algumas outras florestas eram derrubadas por homens inescrupulosos, cujo clã era conhecido como bancada ruralista, estreitamente ligados à Igreja e suas pautas conservadoras. Estes homens integrantes da bancada ruralista substituíam as florestas por campos de pecuária e de monoplantações. O druida também tinha conhecimento de que determinados reinos construíam grandes barragens em rios para obter energia. Com a força das águas, moinhos eram movidos, mas neste processo, a vegetação era muito afetada pela absoluta falta de planejamento. Esses reinos, amalgamados de forma espúria com empreiteiros, sempre davam um “jeitinho” de conseguir a aprovação de projetos ambientais inviáveis ou caros demais à vegetação.

 

Como Hermes explicou ao druida, não adiantaria que ele estivesse disposto a dar a vida pela floresta. Alertou que ele nada poderia fazer sozinho, que precisaria de muitas mãos e que precisaria conscientizar as pessoas. E Al Gore viu o que tinha acontecido à sua floresta; sentiu sua fragilidade diante das forças celestiais e demoníacas que varreram vastas áreas de sua floresta. Teria que deixar sua vida de reclusão e isolamento. Antes de partir para sua própria jornada, Al Gore deu um longo abraço em todos e disse que sua floresta estava à disposição caso precisassem ficar escondidos. Ele os protegeria da melhor forma possível em situação de risco. Dito isso, virou-se, subiu a colina e após alguns minutos sumiu.

 

– Pois bem. – Disse Lúcifer à Penélope. – Onde fica a entrada para o Inferno?

 

Antes que ela pudesse responder, Hermes, sempre muito atento, pediu silêncio. Viu, embora estivesse muito longe ainda da Santa Sé, algo que o chocou. Não acreditava no que seus olhos viam. O necromante, depois de encará-lo, olhou para a mesma direção. Penélope se abaixou e começou a suar. Estava com medo. E se fossem descobertos?

 

Na frente da Catedral, estavam se reunindo milhares de demônios. Havia um aglomerado grande de criaturas infernais acampadas e, ao longo do horizonte, via-se uma fileira enorme de mais soldados demoníacos a caminho do edifício. A hipocrisia teria acabado?

 

exército

 

Vamos fugir, vamos fugir! – Dizia desesperada e em voz baixa Penélope, com a Lança do Destino já entre as mãos. – Eles vão nos matar! 

 

Não era apenas a aglomeração de demônios que incomodava e impressionava aquelas três pessoas. O que causava angústia e perplexidade é que não havia sinais de violência no lugar. Nada indicativa que a Catedral esteve sob ataque em momento algum. Os vilarejos próximos à Santa Sé também estavam em pé e emitiam fumaça, como se todas as casas estivessem cozinhando milhares de quilos de comida para satisfazer os milhares de demônios e outras criaturas que estavam ali. A princípio, o necromante e o ladino pensaram que a Igreja fora corrompida e que havia passado para o lado dos demônios. Todavia, logo ouviram e viram um esquadrão de dezenas de anjos liderados por um arcanjo rasgar o céu sem fazer qualquer ato hostil contra os demônios e sem que estes se incomodassem.

 

Os heróis se entreolharam perplexos. Não sabiam o que dizer. Olharam para Penélope que também não compreendia o que estava acontecendo. Ela apenas se limitou a dizer:

 

Rafael

 

Repentinamente, pousaram em torno dos três de forma rápida e impetuosa, vários anjos. Penélope foi recolhida por um deles e o necromante e o ladino foram dominados bruscamente. Jogados raivosamente no chão. O Grimório caiu a uma curta distância do portador. Instintivamente, Lúcifer tentou alcançar o livro, esticando o braço, todavia, um pé pousou violentamente sobre sua mão.

 

Prendam-no. – Disse a voz dona do pé.

 

O necromante não conseguiu olhar diretamente para o ser, pois foi posto de joelhos e logo apagou em decorrência da forte pancada que recebeu na nuca.

 

Acordou com um forte cheiro de enxofre atacando seu aparelho respiratório. A primeira imagem denunciou que estava próximo aos esplendorosos portões da Santa Sé, mas isso não foi o que lhe chamou mais a atenção. Sem mais, sem menos, viu-se em meio a vários demônios. Muitos eram asquerosos e eram de todos os tamanhos e formas, com chifres ou sem chifres, com ou sem rabo. Alguns se agrediam gratuitamente, outros treinavam e outros uivavam. O necromante tentou se mover, mas estava preso, acorrentado pelas mãos e pelos pés junto a um tronco cortado de árvore. Assustado, olhou para os lados e procurou pelo ladino e por Penélope, mas só viu Hermes caído e desacordado. Ao lado dele, estava um demônio, com uma pequena espada, fuçando os pertences do amigo. Provavelmente, a criatura procurava algo de valor. O necromante sentiu inúmeros corpos mortos de animais e de pessoas no lugar e pensou em atacar, mas sabia que seria impossível sobreviver. Havia muitos inimigos. Olhou para o céu em desespero: sua jornada, o Grimório, Penélope e… Esmeralda. Devia ter desistido antes, quando pôde.

 

Seus movimentos, ainda que ínfimos, chamaram a atenção daquele demônio que mexia nas coisas de Hermes. A besta se aproximou e então Lúcifer pode vê-lo melhor. A pele era marrom-avermelhada, tinha grandes narinas, o rosto estava deformado, a boca recheada de dentes pontiagudos e de um líquido gosmento, os olhos eram amarelos e a língua se dividia em duas na ponta, como uma serpente. De compleição magra, e vestido com trapos sujos, a impressão que passava era a de ferocidade lúgubre. O olhar da criatura era incisivo e violento. Via-se ódio em seu olhar. A espada pequena brandia intensamente, enquanto o demônio examinava, em silêncio, o necromante. Ainda manejando habilmente a pequena espada, como se com ela brincasse, perguntou:

 

O que você tem de valor?

 

O necromante demorou um pouco a responder. Estava com medo, mas também estava irritado, estranhamente irritado. Tomou coragem e respondeu:

 

– Nada, idiota!

 

O demônio, furioso, ergueu a espada para dar cabo da vida do necromante quando inúmeros animais da floresta atacaram o agressor. Tão rápido quanto o ataque das feras, Lúcifer sentiu suas mãos soltas. As correntes que o prendiam ao chão foram quebradas pela força destrutiva e irresistível das garras de um urso gigante. Logo, o necromante atirou para todos os lados suas esferas verdes de energia e levantou os animais e homens mortos da região para a batalha. A rapidez com que fez isso o surpreendeu. Estava muito poderoso. Entretanto, os demônios eram inúmeros. Os seres mortos manipulados pelo necromante estavam sendo trucidados violentamente pelos adversários. Os animais que foram salvá-los foram encurralados. Alguns demônios já haviam tomado a rota usada pelos animais para resgatar os heróis e a bloqueado. E o número de adversários não parava de aumentar. Estavam cada vez mais próximos e pareciam estar excitados com a batalha e com a perspectiva de derramamento de sangue.

 

Basta! – Trovejou uma voz imponente. Todos os demônios recuaram imediatamente. Suas espadas foram embainhadas. Em poucos segundos, estavam todos os agressores se afastando rapidamente. O necromante olhou para trás e viu um demônio gigantesco que transbordava poder e que lhe era familiar. Ao lado dele estava o arcanjo Miguel e, abraçado à perna dele, Penélope, com o rosto horrorizado. Embora com o olhar vítreo nas figuras conhecidas que se posicionavam na sua frente, o necromante notou, ao seu lado, que o urso se transmudava: era Al Gore.

 

Vossa Senhoria descumpriu minhas ordens! – Bradou o arcanjo Miguel. – Deveria pagar com a vida!

 

arcanjo miguel 3

 

– Você mentiu para mim! Você não queria que…

 

Silêncio! – Voltou a gritar o arcanjo e lançou uma descarga de energia que fez o necromante voar alguns metros.

 

Adoro dramas. – Comentou o grande demônio em meio a gargalhadas.

 

– Por quê? – Tossiu. – Por quê? – Indagou o necromante, levantando-se com dificuldade.

 

Ele nos será útil. – Disse o demônio de voz trovejante para Miguel. – Basta que aprenda a usar o poder contido no Grimório. – O demônio estalou o dedo e por detrás dele três freiras e um padre apareceram. – Levem-no para a Santa Sé. – Continuou a falar, agora para os quatros membros da Igreja. – Ele deve estar pronto em uma hora.

 

Lúcifer resistiu ao toque delicado das freiras servis que já pretendiam levá-lo. Olhou para Al Gore e seus animais, bem como para Hermes, caído no chão, ainda desacordado, não obstante o grande alvoroço que acabara de ocorrer. Eles estavam em meio a muitos demônios e diante do arcanjo Miguel, aquela figura desprezível e traiçoeira. Não queria deixá-los sozinhos, porém contra o arcanjo e contra aquele demônio gigantesco nada poderia fazer.

 

Nada acontecerá aos teus amigos. Em breve eles estarão ao teu lado. – Disse o arcanjo Miguel, com seu peculiar ar de arrogância. O demônio, ao lado dele, sorriu satisfeito. Parecia ser mais confiável e bondoso do que Miguel, embora fosse uma montanha de músculos, com pele avermelhada, chifres enormes e olhos inteiramente negros e ameaçadores. O ar que o envolvia sempre estava tremeluzindo e seguia em direção ao céu. Era ar quente. Sua pele o esquentava. A besta deixava pegadas negras no solo por onde passava. A relva, as pedras e tudo que a sola do pé daquele monstro tocava enegrecia e emitia fumaça, como se fosse carvão sendo queimado.

 

Até mais… mestre. – Disse ironicamente o demônio, rindo da situação.

 

Sim!“, o necromante pensou. Sabia de onde conhecia aquele demônio. Ele havia lutado contra Menadel na floresta, antes de Lúcifer ser libertado.

 

Dentro do templo, sentiu-se mais calmo. Talvez fosse o esplendor e pompa da construção daquele recinto que pregava a humildade e valores imateriais para os outros. Esqueceu dos olhares ameaçadores dos demônios com que acabara de lutar. Havia ferido gravemente dois deles na pequena rebelião. Lembrou do olhar do demônio que o interrogara e que o ameaçara de morte – sabia que estava em sua lista negra.

 

A construção era enorme, aparentando ser maior por dentro do que por fora. Também era muito alva e silenciosa. Não se ouvia ali o alvoroço que a assembleia de demônios fazia lá fora. Nas paredes brancas e nas imensas colunas, havia várias figuras de anjos, arcanjos e outras belas criaturas que jamais vira. Nem imaginava o que podiam ser. Era muita ostentação. Havia cruzes folheadas a ouro por todos os lados, bem como outros móveis cravejados por belas pedras preciosas, tais como safiras, rubis, diamantes e… esmeraldas. Lembrou-se de sua amada. Até então tinha esperança de encontrá-la, mas esse sentimento estava se esvaindo, da mesma forma que a areia dentro de uma ampulheta. Não sabia o que o demônio quis dizer com a expressão: “ele nos será útil”. Não sabia o que deveria fazer e também não sabia se estaria disposto a fazê-lo. Seria mais uma vez manipulado?

 

Andou por um longo corredor que o levava a um trono. Nele estava sentado um demônio magro, quase anorexo, feio, assimétrico e que não aparentava ter grande poder. Ao lado dele estava o Papa da Igreja, de pé, em posição servil. Tal imagem deveria causar surpresa ao necromante e a qualquer pessoa que a visse. Era uma circunstância singular e que nem em sonhos seria factível, porém, para o necromante, aquilo já não lhe causava mais estranheza. Logo, as freiras e o padre o deixaram a sós com o demônio e com o Papa.

 

– Você deveria queimar aqui dentro. – Falou o necromante ao demônio, sentindo sua irritação voltar.

 

O demônio riu da suposição do necromante de que as dependências de qualquer igreja construída por mãos humanas tivessem o poder de queimar demônios. Após a risada, jogou o Grimório diante do necromante. Então, o Papa ordenou a Formol:

 

– Leia. – No rosto daquele Papa, não se via a face de bondade construída e forçada, própria dos Papas. O necromante estranhou. A Igreja, instituição que supostamente representava Deus na Terra, mesmo sem que houvesse algum instrumento procuratório para tanto ou mesmo na ausência de qualquer pedido, ainda que informal, da divindade, deveria, em tese, ser dirigida por alguém bom. Com efeito, um mínimo de coerência entre a bondade defendida pela Igreja, mas não praticada, e as atitudes do Papa deveria existir.

 

Papa Bento XVI

 

O demônio que estava ali olhou diretamente para os olhos de Lúcifer. Era como se fosse uma ratificação da ordem do Papa, porém era algo muito mais profundo e ameaçador. Algo que não podia se recusar. O olhar lançado pelo demônio causava terror e ansiedade, mas ao mesmo tempo impelia o necromante a ler o livro.

 

Desde que o pegara, o necromante não tinha folheado suas páginas. Ao longo de sua jornada atribulada não teve muito tempo para lê-lo, mas esse não era o único motivo: a princípio estava desinteressado, porque pensava só em Esmeralda. Depois vieram as confusões de Penélope que implicaram grande dispêndio de tempo e de atenção. Por fim, com a morte de São Paulo, o medo de abrir o livro ou de vê-lo matar seus amigos, impediu-o de compulsar suas páginas. Essas foram as razões que aventou em seu íntimo para não tê-lo consultado antes. Agachou-se e leu os curtos excertos. Por mais de meia hora, o livro ficou aberto sobre o colo de Lúcifer.

 

Muitos trechos estavam incompletos. Havia muitos rascunhos também. Trevinhas analisou os mapas, mas nada compreendeu. Os textos tratavam de histórias pregressas. Fábulas infantis e simplórias, que nada diziam, como as da Bíblia, embora não fossem tão desagradáveis quanto aquelas do livro dito sagrado. Seria um diário? Estava escrito em muitas línguas, sendo que a maioria era desconhecida pelo herói. Era uma linguagem abstrata, sem sentido e sem pé nem cabeça. Os mapas, pouco elucidativos, referiam-se a lugares desconhecidos para o necromante. À medida que lia, sentia medo e aflição. Seria questionado? Por que deveria ler o livro? Seria morto caso não tivesse uma boa leitura e compreensão ou se não fosse inteligente o bastante para entender aquelas poucas palavras? No entanto, um texto em particular chamou sua atenção:

 

CONTINUA…

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