Lúcifer e a conspiração dos arcanjos – Parte 10

Vide parte 9

 

Enquanto os arcanjos deliberavam a alguns metros dali, Hermes foi colocado a par de tudo. Mais uma vez, seus olhos brilharam. A vontade era de indagar os arcanjos, mas, sabiamente, foi avisado por Lúcifer de que o momento não era adequado. A discussão entre os arcanjos, que começou em silêncio, em poucos minutos ficou tensa e logo agressões verbais, ironias e tergiversações foram ouvidas sem muito esforço por todos que ali estavam.

 

Uriel pode estar vivo! Pode estar preso! Pode estar sendo torturado neste momento. Precisamos fazer alguma coisa! – Alardeou Rafael, o carregador da cura, angustiado. – Lembram-se do lema? Juramos nunca esquecê-lo e sempre segui-lo. Um por todos e todos por um. – Declarou tenso e ainda ofegante.

 

Meu caro Rafael. – Ponderou Samuel. – Sei que queres salvar nosso amigo, sei que, assim como eu, ama o próximo, assim como uma mãe ama sua prole, mas não podemos nos esquecer de que estamos em uma missão. Renunciamos à nossa boa fama no plano celestial e jogamos tudo para o ar em nome de uma causa: livrar o Paraíso do totalitarismo. Uriel, ainda que esteja vivo, está fora de nosso alcance. Sozinhos não conseguiremos sobrepujar Lúcifer e seu exército. E acredito que assim como eu, como tu ou como qualquer um de nós, Uriel jamais admitiria que a missão fosse posta em perigo.

 

Miguel, tu que és o símbolo da esperança, tu que dentre os arcanjos é o mais destemido, ajude-me. Não abandone Uriel. Podemos entrar à espreita no Inferno. Vamos resgatar nosso irmão. Somos poderosos. Gabriel? Jofiel? Ezequiel? Amigos… um por todos…

 

Rafael! – Bradou Samuel. – Não torne as coisas mais difíceis. Amo Uriel tanto quanto tu, porém, por favor, precisamos seguir com o plano. Precisamos ficar de esguelha, reunir nossas tropas leais de anjos e aguardar a ordem de ataque dos nossos superiores. Lúcifer e Metatron são poderosíssimos e só podem ser derrotados quando estiverem…

 

Cale-se!!! Eu sei de tudo isso. Eu vou atrás de Uriel. Eu vou sozinho. Garanto que ele faria o mesmo por cada um de nós. Garanto que daria a vida por um amigo.

 

Rafael, não. – Disse serenamente Samuel, tentando acalmar e alcançar o amigo com as mãos.

 

Saia! – Gritou Rafael repelindo qualquer aproximação e apontando a espada, a gloriosa “Panaceia Universal”, que acabara de desembainhar, para a face de Samuel. Com a “Panaceia Universal” em riste, ameaçou: – Ninguém me impedirá! Quem tentar, morrerá!!!

 

Rafael bateu asas e voou. Os demais arcanjos ficaram estáticos. Jofiel, Samuel e Ezequiel olharam para Miguel, esperando que ele tomasse alguma atitude, como de praxe. Porém, a esperança se esboroou, pois Miguel nada fez. O sempre tempestuoso portador da “Retaliadora de Demônios” estava inerte e, de certa forma, indiferente.

 

Perdeu a coragem, Miguel? – Perguntou sarcasticamente Gabriel.

 

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Miguel sempre foi o mais determinado e voluntarioso dos arcanjos. Impulsivo e obstinado que era, sempre acreditou nos ideais do Paraíso e nos serafins. Lutou por milênios e matou inúmeros demônios e bestas ao longo de sua milenar vida. Foi condecorado e comparado a potestades em grau de poder, força e habilidade, mas, ao longo dos últimos séculos, aquilo em que acreditou perdeu o sentido. Chegou à conclusão de que o deus honorário era um delírio, um mero criador de ovelhas servis, que deveriam acreditar na palavra dele cegamente. Um verdadeiro Grande Irmão.

 

Miguel não cumpria mais seu dever por convicção, mas por obrigação, o que o tornava uma espécie de burocrata. Ele era apenas uma peça no sistema. A hierarquia imposta por Metatron, o deus honorário, consumia aos poucos a vontade dos habitantes do Paraíso. Segundo a propaganda, Metatron era onipotente, onisciente e onipresente, embora seus marqueteiros soubessem que onipotência e onisciência eram termos, logicamente, excludentes, o que revelava uma certa arrogância e desdém dos propagandistas. Com efeito, se o Deus honorário fosse onisciente, ele saberia o curso da história, não podendo mudá-lo, o que implica ausência de onipotência, sem contar que onisciência seria sinônimo de indiferença, desinteresse e mesmo da perda do livre-arbítrio do próprio Deus. Aliás, a ideia de onipotência era débil, visto que se alguém tudo podia, nada o motivaria a agir.

 

Miguel, que sempre acreditou na estrutura hierarquizada, chocou-se ao notar que fazia parte desse sistema opressor, que cultuava a imagem de um déspota e que se valia desse tipo de propaganda ilógica. Notou que ele próprio era um obstáculo à liberdade e à felicidade de seus semelhantes. Concluiu que militares deveriam apenas proteger os civis, não governá-los, pois nem todos queriam perder a liberdade em nome da hierarquia e das imposições de Deus. Aliás, Miguel achava civis que defendiam a ditadura criaturas bestiais, pois negavam a própria liberdade, sendo que, provavelmente, mal aguentariam um tapa na cara.

 

Mas como o arcanjo batalhador podia fugir de seu dilema? Ele era um guerreiro. Devia obediência aos superiores e nada podia fazer no âmbito político. Seu desespero, decorrente do choque entre o desejo de ver seu povo feliz, sendo, por reflexo, feliz, e a crença imanente a seu âmago na necessidade de cumprir as ordens dos superiores para dar segurança ao seu povo, foi exponencialmente aumentado quando casou e quando nasceu Penélope. Percebeu que a filha era o seu bem mais precioso, pensamento convergente com o de sua esposa, Sofia. Jurou que por Perséfone tudo faria, que sempre a protegeria e que daria liberdade para ela ser feliz. Entretanto, nesses últimos dias, ela tinha passado por tantos apuros…

 

Apesar de ambos estarem vivos, ela não estava em segurança. A guerra prometia ser longa e complicada, mas do que poderiam prever. Metatron e Lúcifer não haviam se matado no primeiro embate e não foram mortos pelos demais conspiradores como desejado e esperado. Como um sentimento de ódio impregnava os corações e mentes do Céu e do Inferno, como se fossem duas religiões antagônicas, um conflito de grandes proporções sem sentido estava a caminho. Provavelmente, o campo de batalha seria a Terra, o plano que separava o Paraíso do reino de Lúcifer. Milhares de inocentes terrenos morreriam, mas o medo maior dos arcanjos era de que anjos e demônios também morressem em larga escala e que os líderes da conspiração e os detalhes de seus planos fossem descobertos a qualquer momento. Penélope não estava em segurança e Sofia estava escondida, pois havia desertado do exército há pouco.

 

anjinho

 

E o arcanjo Gabriel? Outrora, fora o mais amável dos arcanjos, mas depois que perdeu o filho em combate, perdeu a razão de viver. Essa perda de sentindo de vida durou pouco tempo e virou amargura, quando soube que Miguel tirou, furtivamente, Penélope do exército celestial juvenil, entregando a filha a um estranho que deveria conduzi-la até a vastidão do Lago de Fogo, região gigantesca, a mais inóspita do Inferno, onde anjos e demônios condenados à reclusão eram jogados sobre a superfície lacustre para ficarem por toda a eternidade, imersos nas lavas, queimando, sem poder gritar, perpetuamente.

 

Miguel foi esperto e desobediente, e por isso ainda tinha a filha, mas ele, Gabriel, que cumpriu as ordens, não colocando o plano em risco, acabou perdendo o filho. Pretendia não chamar a atenção ao continuar a cumprir as ordens oriundas do Paraíso e, sinceramente, não acreditava que o exército juvenil também fosse mandado para a Floresta Malaica com o escopo de proteger a prisão de Lúcifer. Mas foi mandado, por mais histriônica, revoltante e repulsiva que fosse a ordem de mandar batalhões de crianças angelicais para a guerra, ainda que como um teste ou como uma forma de aprendizagem. Gabriel disso não foi informado e tinha certeza de que a informação chegada a Miguel.

 

Miguel entendia que essa ferida no coração de Gabriel jamais poderia ser fechada e que jamais seria perdoado por seu antigo amigo. Com efeito, ao tirar Penélope do exército nos últimos momentos, colocou todo o plano em risco e desrespeitou a ordem natural das coisas. Não tratou todos aqueles pequenos anjos de forma igual. Miguel não teve culhões e não avisou os parceiros de que faria isso.

 

Depois de ter a coragem questionada, Miguel fez menção de atacar Gabriel. Por um momento, o velho Miguel, guerreiro que jamais admitia um desaforo, havia voltado, mas o pai de Penélope recuou e disse ao desafeto, que já estava com a espada “Uma mensagem para ti” em mãos, que:

 

Partirei com minha filha para um local distante e encontrarei Sofia. Minha filha não mais sofrerá e não mais correrá riscos. Ficará apenas do meu lado. Adeus!

 

Com os olhos cheios de lágrimas virou as costas para o círculo de arcanjos e foi ao encontro de Penélope, que estava em outro círculo, junto a Lúcifer, Esmeralda, Al Gore, Hermes e aos dois demônios amigos do ladino: Burgos e Cupidez.

 

Todos os arcanjos ficaram perplexos. Miguel negando uma boa luta?

 

Covarde. – Sentenciou Gabriel. Seu filho poderia estar com ele, mas não estava.

 

Miguel diminuiu o passo. No seu entender, aquela palavra significava a pior das ofensas que poderia ser lançada a alguém.

 

É um covarde traidor mesmo! Traiu Metatron, traiu seu melhor amigo e agora nos trai. Está nos abandonando. Está com medo da guerra que ajudou a começar. Esconde-se atrás da própria filha. Você merece morrer, maldito!

 

Miguel parou.

 

Penélope, seu pai é um covarde trai… – Continuou Gabriel a espezinhar.

 

Basta! – Berrou Samuel.

 

O ar em torno de Miguel tremeluziu. Ele estava nervoso. Covarde? Traidor? Penélope envolvida nessa questão? Desembainhou o arcanjo a “Retaliadora de Demônios”. O ar tremeluzia cada vez mais forte. Os cabelos do arcanjo guerreiro esvoaçaram. A espada, em chamas, estava pronta para retaliar. Gabriel, cheio de ódio, preparou-se para o ataque. Resolveriam suas diferenças ali, naquele momento.

 

Venha covarde!!! Vou acabar com sua reputação agora mesmo. – Gritou confiante o contendor.

 

There is a winged angel who holds a sword in his hands

 

O embate era iminente, mas Samuel, brandindo a “Força interior”, pôs-se entre os dois amigos preparados para uma batalha de mil dias. Ezequiel e Jofiel fizeram o mesmo, desembainhando a “Fogo Violeta” e “Conhecimento é poder”, respectivamente.

 

Não haverá lutas entre nós. – Proclamou Samuel. – Miguel, tu és livre para partir, mas saiba que tu não tens este direito. Sei que não tens medo da guerra e que nunca nos trairia, mas, neste momento, abandonar-nos?!

 

Adeus. – Disse Miguel resignado.

 

Dirigiu-se a Penélope que apesar de todo o rebuliço ainda estava dormindo no colo de Esmeralda. Miguel aproximou-se dela e, tocando na sua face, acordou-a.

 

Filha, nós temos que partir. Diga adeus a teus amigos.

 

Adeus? – Perguntou bocejando. – Por quê? – Entorpecida pelo sono pesado de poucos minutos que experimentou enquanto Jofiel explicava todas as circunstâncias e motivações da guerra que estava se desenhando. O pequeno ser estava acometido pelo cansaço próprio de quem há pouco invadiu o Inferno ao lado de Lúcifer, o querubim caído, de quem foi refém de Satã e de quem participou de uma fuga alucinante do reino do mal. Por isso, Penélope não compreendeu a extensão da palavra adeus.

 

Nós vamos partir para um lugar melhor. Onde não exista perigo e onde tu possas ser feliz. Vamos para junto de mamãe, querida.

 

O Trevinhas vem com a gente? – Perguntou inocente e natural.

 

Depois de um longo momento de silêncio, Miguel respondeu tristemente:

 

Não, minha filha. Dessa vez não.

 

necromante

 

Os olhinhos de Penélope, já fundos e avermelhados pelo sono que o desgaste lhes impunha, marejaram. Estava fraca e suscetível demais a emoções. Ainda assim, levantou-se do colo quente e aconchegante de Esmeralda. Entendia pela expressão cansada de seu genitor que havia muita coisa errada. Hermes, ao ver a expressão chorosa de Penélope, também chorou. Al Gore ficou impassível. Os dois demônios faziam pequenos comentários inaudíveis, mas se via claramente que estavam desconfortáveis com toda aquela situação. Da fronte de Lúcifer, correram lágrimas. Ele estava muito comovido. Teria que se separar daquele anjinho danadinho. Foi abraçado por Esmeralda. Penélope, ainda com sono, com grandes olheiras e visivelmente extenuada, correu ao encontro de Lúcifer e o abraçou longamente. Talvez ainda se sentisse culpada pela adaga que fincou na barriga do necromante ou talvez a dor da separação decorresse das muitas coisas pelas quais passou ao longo dos últimos dias.

 

Filha. – Chamou o culpado Miguel.

 

Penélope, então, com os olhos marejados, olhou fixamente para o necromante e deu seu sorriso sapeca. O que ela planejava em sua mente fecunda? Logo, abraçou longamente o copioso Hermes, abraçou Al Gore e passou reto pelos dois demônios, Burgos e Cupidez – não gostava deles, pois só pensavam em dinheiro. Por fim, abraçou Esmeralda, mais por protocolo do que por vontade, o que, evidentemente, foi notado pela perspicaz mulher. Subiu no colo do pai, que decolou e logo desapareceu entre as árvores da região. Miguel não queria ser notado nem por anjos nem por demônios, por isso evitou os céus.

 

Um arcanjo morto, um arcanjo precipitado e agora um arcanjo covarde. Estou começando a acreditar que este plano todo foi a maior loucura da minha vida. – Disse o amargurado arcanjo Gabriel. – Nem sabemos como as coisas estão indo lá no céu. E nossos cúmplices? Podem estar todos mortos agora. Metatron sabe que fomos ajudados. Sabe que não poderíamos ter feito tudo isso sozinhos.

 

Gabriel, o que está feito é imutável. Lúcifer e Metatron estão em guerra, como queríamos, e a guerra não será longa, pois temos aliados poderosos dos dois lados. Além disso, baixas eram previsíveis e inevitáveis. – Asseverou Samuel tentando animar seus companheiros.

 

E Rafael? – Perguntou Jofiel.

 

Ele voltará. – Respondeu Samuel tentando ser otimista. – Continuemos com nosso plano.

 

– E qual é o plano? – Perguntou curiosa Esmeralda.

 

– Sim, qual é o plano? – Perguntou ainda mais curioso Hermes.

 

– E minha mãe? Quero conhecê-la. – Complementou Esmeralda impositiva.

 

Precisamos que o necromante fique conosco até o fim. Vocês devem partir. Não são necessários. – Sentenciou Samuel.

 

Vão embora! – Determinou Gabriel de forma rude.

 

Lúcifer sentiu que sua liberdade estava sendo cerceada por Samuel, uma criatura querida. Era como se estivesse casado ou em união estável. Esmeralda ficou indignada, tanto com Samuel, como com Gabriel, e, olhando para o necromante, exigiu algum posicionamento. Como Lúcifer nada disse, a bela falou:

 

– Quero saber onde está minha, mãe! Levem-me até ela.

 

Um silêncio ensurdecedor se fez ouvir entre os arcanjos.

 

– Falem covardes! – Determinou a mulher.

 

O arcanjo Gabriel se sentiu insultado e partiu para cima de Esmeralda.

 

Demoniazinha de merda. Deveria nos agradecer…

 

Gabriel, chega! Esmeralda, sua mãe está próxima a Amelot. Não está longe daqui. Ela é bem conhecida por lá. – Declarou o arcanjo Samuel.

 

– Venha Lúcifer, vamos atrás de minha mãe! – E Esmeralda pegou o parceiro pela mão.

 

Conduzido pela moça, o necromante não opôs resistência. Queria se livrar daquela bagunça que tornara sua vida.

 

Ele deve vir com a gente! – Disse peremptório Samuel.

 

O necromante sabia que não podia lutar contra os arcanjos, mas também sabia que não poderia deixar Esmeralda sair de sua vida novamente. Hesitou. O que fazer? Por que ainda precisavam dele? Olhava de soslaio para as criaturas celestiais enquanto era conduzido por sua dama. Gabriel alçou voo e pousou na frente de Esmeralda, de forma a impedir a evasão.

 

– Saía da frente! Lúcifer, diga alguma coisa! – Exigiu a mulher irritada. – Não deixe eles fazerem o que bem entendem com você! Eles precisam de você! Não podem carregar o livro. – Declarou a moça, exercendo uma função conscientizadora no necromante, o que era uma característica própria do gênero feminino.

 

Gabriel sacou a “Uma mensagem para ti” visivelmente irritado.

 

– Formol!

 

O que fazer? Pensou Lúcifer. Aceitar passivamente as ordens dos arcanjos como uma ovelha acéfala ou se mostrar independente, correndo o risco de ser golpeado e de ser levado à força?

 

ovelha

 

– Eu vou com ela. – Disse finalmente o necromante transpirando, em tom baixo, quase pedindo desculpas aos arcanjos. Ser corajoso era difícil, mas precisava ser coerente. Nada valia mais para Lúcifer do que sua independência e Esmeralda, pelo menos naquele momento, em que a paixão pela moça tomava conta de suas entranhas. Com efeito, a independência do necromante fazia com que ele não se ligasse a grupos religiosos ou políticos, não fazendo questão de agradar ninguém, a não ser as poucas pessoas que amava. A única convicção do necromante era de que deveria seguir o próprio caminho, por mais difícil que ele fosse, mesmo que suas convicções negassem as crenças de uma sociedade opressora e sem lógica; mesmo que tivesse que ficar sozinho.

 

Samuel lamentou a escolha do ponto de vista pragmático, pois isso tomaria tempo dos arcanjos, mas respeitou-a do ponto de vista moral. Com efeito, diferente do Deus da Igreja, Samuel valorizava pessoas corajosas, e não pessoas subservientes ou que viviam entocadas em templos pedindo perdão. Gostava de celestiais e pessoas que valorizavam a vida que tinham, pois trilhões de outros seres, possíveis segundo a genética, não nasceram e jamais nasceriam. Enfim, Samuel gostava de pessoas que não precisavam de um agente provocador que justificasse sua existência e conduzisse por meio de terceiros suas vidas, servindo de justificativa para tudo.

 

Gabriel, de outro lado, passou a caminhar em direção aos dois, ameaçadoramente. Queria impor sua vontade e não tolerava que seres inferiores o contrariassem. O futuro dos celestiais estava em jogo e o destino e as vontades dos seres humanos não deveriam ser considerados. Eram meros alimentos.

 

Espere Gabriel! – Alertou Ezequiel. – Venha cá. Samuel, por favor. – E chamou ambos os amigos para uma conversa particular. Depois de muita conversa e reclamações de Gabriel, Samuel se dirigiu ao casal.

 

Eu e Gabriel levaremos vocês dois até Klepoth, mas precisaremos voltar no máximo até amanhã. Logo, fogo cairá do céu e muitos anjos e demônios morrerão. Precisamos estar alertas. Precisamos agir rápido.

 

Esmeralda, Lúcifer, Hermes e Al Gore se sentiam incomodados com o tratamento de indiferença destinada aos humanos, mesmo sabendo que as almas humanas não passavam de alimentos para anjos e demônios. Às vezes, os efeitos da indiferença eram muito piores do que os do ódio.

 

Os arcanjos sentiam esse incomodo, mas o que podiam fazer? Precisavam se alimentar. Viviam em um plano superior, repleto de conhecimento científico, alheios ao misticismo que ainda reinava nos corações e mentes da maioria dos humanos.

 

Terá respostas às tuas perguntas. – Arrematou Samuel, dirigindo a palavra a Esmeralda.

 

– Eu vou com Samuel e o Lúcifer vai com Gabriel, o grosso. – Estabeleceu Esmeralda empertigada e sempre pensando muito rápido. Queria garantir distância do arcanjo amargo.

 

– Bom, então vamos. – Disse lentamente e sem convicção o descontente necromante que olhou de soslaio para os companheiros. Sentia que estava perdendo a direção da própria vida.

 

– Ei, e nós? – Exasperou-se Hermes.

 

Samuel olhou para o ladino com bondade, mas nada disse. Antes que decolassem, Hermes se adiantou e deu a seu amigo necromante um saquinho cheio de moedas de ouro e disse:

 

– Se cuida irmão.

 

O voo, assim como o de Miguel, foi raso, entre as árvores, abaixo das copas, e isso deixou as vistas do necromante e da bela cansadas. Às vezes, era melhor ficar de olhos fechados, pois a sensação de ver uma árvore enorme se aproximando sem poder fazer nada para desviar dela era horrível. Durante a curta viagem, passaram ao lado da Santa Sé destruída. Nela havia muitos vapores subindo e um cheiro forte de enxofre. Provavelmente, as tropas de Lúcifer reabririam aquela entrada e avançariam sobre a Terra rumo Paraíso.

 

Os alados subiram pelas montanhas Alpinas nas quais o frio era intenso. Preferiram passar pelo caminho mais difícil, pois por ali, provavelmente, não se encontrariam com inimigos. O frio intenso, embora por um curto espaço de tempo, trouxe grandes prejuízos à saúde dos transportados. Esmeralda ainda trajava sua roupa de cortesã, com poucos tecidos, e o necromante estava com seus pesados mantos negros rasgados. Ambos sofriam tanto que Samuel, menos suscetível às intempéries, resolveu, após breve parada, dar sua túnica branca para Esmeralda e protegê-la do vento gelado, colando-a, respeitosamente, junto ao seu corpo largo e musculoso e cobrindo, com as mãos gigantes, a cabeça da beldade, de forma que o vento frio e cortante não chegasse até ela diretamente. Ela nunca havia visto tantos músculos e seu espanto causou um leve ciúme em Lúcifer. Gabriel não fez o mesmo pelo necromante, como era de se esperar. Além disso, Lúcifer preferia passar frio, sofrer como um idiota, pois, ainda que o ar gélido e cortante estivesse acabando com sua saúde, o preconceito imposto pela Igreja contra o homossexualismo era tão arraigado na sociedade humana que mesmo nessa situação extrema falava mais alto do que o medo de uma possível hipotermia. Ninguém é uma ilha e mesmo bobagens tradicionais perpetradas por uma maioria “pegavam” na minoria independente, ciente de que a lembrança do futuro evitava tragédias.

 

lavagem-cerebral

 

Depois do pouso no destino, o arcanjo Gabriel foi criticado pela bela por essa falta de cordialidade para com um humano sujeito ao frio das altas montanhas, mas o arcanjo deu de ombros. Pouco se importou com os espirros de Formol e de sua pele quase azulada, repleta de camadas de gelo.

 

Ele que tome um placebo. – Disse debochado. Gabriel acreditava que a autoenganação humana era ridícula. Com efeito, os seres humanos acreditavam que placebos, curandeirismo e preces faziam alguma diferença na recuperação da saúde física, e não meramente psicológica. Sem falar que acreditavam em milagres, que nada mais eram do que a ocorrência de um evento aparentemente inexplicável.

 

Como resultado da falta de empatia de Gabriel, os viajantes precisaram parar por algum tempo para que o necromante se restabelecesse.

 

– Por que você não pediu que ele fizesse o mesmo por você, seu banana? – Indagou a moça irritada. O necromante ficou em silêncio.

 

Depois de parcialmente recuperado, os quatro se dirigiram às redondezas de Amelot e lá chegando, Samuel comentou:

 

Segundo meus informantes, Klepoth, a depravada, vive por estas bandas.

 

Ainda não creio que aquela depravada nos seja útil. Acredito que estamos perdendo tempo aqui. – Resmungou Gabriel de forma arrogante, lembrando as palavras de Ezequiel.

 

A depravada pod…

 

– Por que chamam minha mãe de depravada?! – Indagou indignada a moça, cortando Samuel, que ficou constrangido.

 

Bom, não a conheço pessoalmente, mas dizem que ela é um pouco diferente das demais criaturas.

 

– Como você pode falar mal de uma pessoa que não conhece?! E diferente em que sentido?

 

Bom. – Começou constrangido Samuel. – Há rumores de que ela…

 

Ela tem hábitos sexuais dos mais diversos e os pratica sem qualquer pudor. Em suma, ela é uma depravada. – Arrematou Gabriel friamente.

 

Esmeralda ficou sem palavras. Não conhecia sua mãe, mas… ela era sua mãe e isso deveria significar alguma coisa até mesmo para Gabriel. Seus olhos ficaram marejados. Queria matar Gabriel, de verdade. O que acontecia com ele? Por que tanta amargura? Por que queria sempre machucar e atingir as pessoas que estavam a sua volta? Olhou para Samuel buscando algum afago, alguma palavra amiga.

 

Logo, tu conhecerás tua mãe. Ela é um demônio muito poderoso. Era uma virtude no Céu. Tem a forma de uma lindíssima mulher. É idêntica a ti. Usa de sedução e tenta os homens para conseguir o que quer: conhecimento. Possui todos os conhecimentos de artifícios e ardis para subjugar homens, anjos e demônios masculinos, o gênero mais tolo. Conhece profundamente o rei das Trevas. Pode ser útil à nossa causa. – Disse Samuel.

 

– Um demônio?! – Perguntou em voz alta para si mesma. – Eu pareço um demônio?! – Ainda confusa e em tom baixo e introspectivo. – Por que acha isso?  Por que acha que ela pode nos ajudar? O que é uma virtude. – Perguntou curiosa e em tom normal de voz.

 

Não tenho certeza, mas acredito que ela tenha motivos para odiar ambas as partes em conflito. Pode nos dar proteção, informações e nos auxiliar em combate. Foi a principal concubina do Diabo por muitos anos após ser jogada na Terra por Metatron que repudiou seu comportamento sexual no Céu, ainda quando era muito jovem, milênios atrás. Como virtude, é capaz de armazenar e transmitir muito conhecimento, bem como tem o dom de orientar. – Explicou Samuel. – Foi de um conhecimento adquirido e transmitido por ela que delineamos um dos inúmeros planos para acabar com Lúcifer e Metatron.

 

Esmeralda estava estupefata com a história, mas orgulhosa de sua mãe. Era uma situação tão nova e aterradora que, apesar de ter muitas perguntas para fazer, não sabia por onde começar e também não sabia se era a hora para fazê-las. Samuel, diante da garota encabulada, sabendo que ela precisava de tempo para assimilar tudo aquilo e tudo o mais que veria e ouviria, determinou:

 

Lúcifer, vá até o centro da cidade e descubra onde reside a mãe de sua namorada. Rápido!

 

– Atchim!!!! – Foi a resposta do necromante, refém da coriza. Lúcifer, em razão da viagem truculenta com o arcanjo Gabriel, estava gripado. Sentia o ouvido doer, o nariz escorria cada vez mais e não parava de espirrar.

 

Em que pese a situação clínica do manipulador de almas, a observação de Samuel causou constrangimento em Lúcifer e Esmeralda. Namorados?! E o silêncio constrangedor reinaria entre o quarteto, com exceção, é claro, dos espirros e das fungadas do herói, se não fosse a reivindicação de Esmeralda.

 

– Eu vou com ele. – A garota não esperou Lúcifer falar qualquer coisa. Essa era a oportunidade dela. Teria mais liberdade com o amigo e poderia adquirir informações de outras pessoas sobre a mãe antes de falar com ela diretamente. Tinha esperança que falassem bem dela e que aquela história de “depravada” fosse uma idiotice celestial.

 

Samuel achou perigoso, mas talvez um auxiliasse ao outro, ainda mais considerando o estado de saúde do manipulador de almas. Gabriel sorriu desdenhosamente. Esmeralda não gostou da atitude de Gabriel, mas não brigaria com ele, pois nada adiantaria. Ele não iria mudar.

 

Lúcifer e Esmeralda seguiram para a cidade. O primeiro com roupas negras, surradas e rasgadas que mal cobriam o corpo. A segunda com roupas finas, semitransparentes e sensuais. Temiam que a inadequação de seus trajes chamasse a atenção de companhias desagradáveis: religiosos moralistas.

 

Por sorte, Amelot era uma grande cidade e tinha um grande centro comercial. Não teriam dificuldades em comprar roupas comuns. Usariam o dinheiro dado por Hermes. Assim, vestidos adequadamente, poderiam buscar de forma segura e reservada informações sobre o local onde Klepoth residia.

 

A cidade estava localizada aos pés da montanha, o que favorecia a defesa de ataques piratas e de outras cidades. Era uma região fria, muito em razão da altitude, que se elevava a cerca de setecentos metros sobre o nível do mar, e possuía inúmeras subidas e descidas. O seu terreno era irregular, o que, a princípio, impediria que uma cidade tão grande e próspera surgisse.

 

Em que pese a irregularidade do terreno, muito próximo à cidade, à sua frente, estava o mar e um grande litoral propício à construção e manutenção de portos, de onde partiam missionários para o novo mundo com o objetivo de evangelizar os nativos, fazendo-os esquecer de sua cultura e de seus deuses, oferecendo consolo e a vida após a morte enquanto a escravidão e a matança se desenvolviam de forma exponencial. Dizia-se que os nativos perdiam territórios em troca de Bíblias e que os missionários ganhavam terras ao entregarem livros sagrados. Do lado oposto ao litoral, estava um pequeno deserto que, ao ser percorrido, dava acesso a cidadelas próximas a uma grande cadeia vulcânica, cujo solo nas redondezas era propício ao cultivo de inúmeras culturas. Essas cidadelas alimentavam Amelot e eram abastecidas por produtos manufaturados oriundos do além-mar e do interior do continente, que ficava atrás das montanhas Alpinas, onde se encontrava a Floresta Malaica, a Santa Sé e inúmeras outras cidades grandes como Satânia. Em outras palavras, Amelot era um grande entreposto comercial.

 

Além do comércio, Amelot, até por ter sido erigida próxima à Santa Sé, era um centro religioso. Ali a Igreja reinava soberana. Detinha poder sobre a governante, uma fervorosa seguidora da Igreja, Elisa Báthory, que se casou com o rei de Amelot e que tinha muita influência sobre o seu marido, um capacho servil. Por meio dele, ao longo dos últimos anos, a mulher tornou a religião da Igreja a oficial da cidade e declarou satânica todas as demais. A Inquisição tinha sua sede administrativa ali, sendo Elisa Bárthory uma de suas conselheiras, embora tal cargo não fosse formal – não se admitiam mulheres na cúpula da Igreja e sequer podiam dirigir missas. Sua influência era velada e decorria do grande controle que tinha sobre as questões religiosas em Amelot. Nesta cidade, as crianças eram doutrinadas desde tenra infância para odiar e delatar membros de outras religiões, mesmo que estes fossem seus entes queridos.

 

Adentrando a cidade, Lúcifer e Esmeralda notaram que existiam muitos mendigos nas ruas e que eles iam se multiplicando à medida que o centro da cidade se aproximava.

 

Existiam também pessoas solitárias, ou cercadas por bandos de pobres, pregando ou berrando alucinadas:

 

– Ele está voltando! Ele está voltando! O fim está próximo! – Todas essas pessoas carregavam uma Bíblia e, entre um berro e outro, liam, com os olhos esbugalhados e espumando, um trecho qualquer do livro, como se fosse pertinente para aquele contexto, como se os fatos se subsumissem às palavras daqueles alfarrábios.

 

ele-esta-voltando

 

– A intuição em Deus é uma prova de que ele existe! – Gritavam alguns.

 

– A fé pressupõe a não demonstração! Morte aos ímpios. – Esgoelavam outros.

 

– O comportamento promíscuo da mulher causa terremotos! – Ensinava outro.

 

Era comum que esses mendigos e pregadores orassem ou portassem sinais religiosos. O necromante e Esmeralda notaram também que havia muitas gaiolas (chamadas de “Caixão da Tortura”) e hastes de madeiras queimadas, rodeadas por feno igualmente queimado, pelo centro da cidade. Nas gaiolas, viam-se esqueletos de pessoas, corpos em putrefação, pessoas agonizando ou rogando por perdão e ajuda. Aqueles esqueletos, corpos em decomposição e pessoas confinadas, todos comprimidos em pequenas gaiolas, chocaram Esmeralda. Ela, que nunca havia ido para uma dessas grandes cidades, achava que já havia visto todo tipo de barbárie, mas aquilo era repulsivo. Pior que o Inferno. A moça perguntou ao necromante o que significava aquilo. Lúcifer não estava surpreso. Para ele era até uma visão normal, não só porque andara por inúmeros centros urbanos, mas porque manipulava os mortos.

 

Todavia, Lúcifer também ficou impressionado com a excessiva quantidade de gaiolas e pontos de cremação. Aquilo não era normal mesmo para uma das maiores cidades daquele tempo. O comum era três ou quatro gaiolas e um ponto de cremação para toda a cidade. Todavia, já haviam contado sete gaiolas e dois pontos de cremação e ainda estavam longe do centro. Lúcifer explicou:

 

– As mulheres são queimadas quando acusadas pelo julgador de bruxaria. Basta terem um mamilo torto para que digam que elas tiveram o peito chupado por Satanás e para serem tachadas de bruxas. Os homens, normalmente, são torturados e condenados por blasfêmia, apostasia ou por idolatrar ídolos de outra religião, mas também podem ser condenados à morte por trabalharem em dias sagrados.

 

– O que é apostasia? – Indagou curiosa.

 

– Abandonar ou trocar de crença. – Respondeu impassível o necromante. Apesar de tentar ser crítico e racional, às vezes, Lúcifer, tamanha a quantidade de barbáries que já havia visto, relatava fatos escabrosos com muita naturalidade. Presenciara tantas pessoas passarem pelo “Berço de Judas”, pela serra, pelo “Estripador de Seios” e pelo “Balcão da Tortura” que aquele cenário deprimente não o consternava mais. O ser humano tinha a capacidade de se acostumar com tudo, até mesmo com a barbárie. – Apedrejamento de mulheres por terem traído seus maridos também é bem comum. Basta a palavra do homem. – Comentou, talvez querendo demonstrar uma atitude concreta e reprovável que devesse ser punida de algum modo, embora acreditasse que nem mesmo a infidelidade devesse ser sancionada com a perda da vida. É certo que a infidelidade também era uma questão pessoal e particular, como a apostasia e a idolatria, mas tinha o condão de produzir algum reflexo prático, como a ruptura de um relacionamento.

 

– Os homens também são apedrejados se traírem? – Esmeralda e seu lado feminista e conscientizador perguntaram.

 

– Raramente. Só quando um rival poderoso consegue amealhar algumas provas da infidelidade. O homem manda e a palavra da mulher não vale nada. – Evitou olhar para os olhos verdes e severos da parceira. Sabia que ela nunca aceitaria isso.

 

Esmeralda pensou no pai. Talvez ele não tivesse sido tão cruel por apartá-la daquele mundo cheio de misticismo e sangue. Quiçá fosse melhor viver na ignorância, como aquelas pessoas religiosas, do que pensar ou lutar contra aquelas bizarrices sem sentido que dificilmente seriam mudadas pelos donos do poder. Velhos poderosos e conservadores, quando questionados sobre o tema, argumentavam que aquilo tudo que viviam não era só religião, mas sim uma cultura, cuja tradição já era secular. Mudar para quê? Dá muito trabalho. Deixe como está. Aceite. É o que diziam.

 

A confusão entre Estado e a Igreja era intrínseca àquela sociedade. Segundo entendia o necromante, o Estado devia se manter absolutamente neutro em relação a questões religiosas, não podendo beneficiá-las nem as prejudicar.

 

religiao-o-que-e

 

Para sorte de Esmeralda, o dia já estava se esvaindo e ficaria mais difícil para ela notar as expressões de horror e agonia daqueles que estavam nas gaiolas ou mesmo daqueles que usavam a “Máscara da infâmia”, uma espécie de capacete metálico repleto de ofendículos que pequenos delinquentes eram obrigados a utilizar.

 

– Mais uma coisa. – Disse o necromante.

 

– O quê? – Perguntou a moça temerosa. Sabia que coisa boa não vinha.

 

CONTINUA…

 

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4 pensamentos sobre “Lúcifer e a conspiração dos arcanjos – Parte 10

  1. Marcus Vinicius disse:

    A descrição da entrada da cidade me fez lembrar de Warhammer 40k.

    • Adonis disse:

      Olá. Não gosto muito de jogos em primeira pessoa e de tiro, prefiro os RTS, mas gosto muito das histórias de fundo dos games, como God of War, Age of Mythology, Dante’s Inferno, Darksiders e outros.

      • Marcus Vinicius disse:

        Me referia ao RPG, aos livros dos joguinhos de miniaturas. Me fez lembrar das cidades do Imperium of Mankind. O lema do WH40k é “There is only war”, mas ta mais pra um cenário de miséria, fanatismo religioso e decadência. As pessoas “normais” vivem uma vida miserável pra baixo, e fanáticas, escravas da igreja. Me senti assim naquele trecho das gaiolas, foi uma ambientação muito boa.

      • Adonis disse:

        A praça da sé foi minha inspiração.

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