Lúcifer e a conspiração dos arcanjos – Parte 12

Vide parte 11

 

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Durante o governo do arcanjo Vehuiah, o amor livre foi estimulado. Havia igualdade de sexos e era comum que anjos femininos tivessem mais parceiros sexuais do que os anjos masculinos.

 

Os olhos de Esmeralda se arregalaram.

 

A capacidade feminina de fazer amor é praticamente inesgotável. O masculino precisa fazer paradas a todo momento e consome muita energia. Tadinhos. Gozam e dormem. – Lamentou. – Eu, entre os anjos femininos, era a que mais tinha parceiros, afinal eu era uma virtude. Cheguei a morar com 57 anjos ao mesmo tempo. Eu tinha tanta energia… Nenhum dos pobres coitados me aguentava por muito tempo. – Vangloriou-se. – Sabe, tinha um com um… – E gesticulou alguma coisa com as duas mãos.

 

– Não precisa dar detalhes, mãe.

 

Desculpe-me. Então, continuando, foi uma época em que fiquei bastante conhecida no Paraíso. Minha autoestima estava no pico. Eu era a mais linda e formosa. Todos me queriam e me amavam, porque eu dava sem pedir nada em troca. Não importava se era para um trono ou se era para um anjo, pois todos tinham algo para me ensinar. Eu era carinhosa, atenciosa e contagiante. Os anjos que me visitavam tinham liberdade para dizer o que sentiam e pensavam. Nessas visitas, eu ouvia muitas reclamações sobre as esposas palpiteiras, malcuidadas, chatas, controladoras, orgulhosas e indecisas. Porém, um dia o governo do arcanjo Vehuiah acabou. O próximo governo seria de Jeliel, mas Metatron assumiu o controle. Jeliel, que era um apaziguador, sugeriu, para evitar uma guerra civil e a derrota dos quatro serafins opositores ao controle de Metatron, que o sistema de rodízio de serafins no poder fosse mantido, mas que Metatron fosse declarado deus honorário. Mas na prática, o maldito passou a ter controle sobre tudo, inclusive sobre a moral do Paraíso. Instituiu a monogamia e me acusou de devassa. Disse que sexo só poderia ser feito para engravidar e que não havia outra razão de ser. Proibiu o aborto, alegando que a vida era sagrada e que os fetos eram inocentes, mas matava anjos sem piedade quando contrariado. Pouco se importava com o planejamento familiar dos anjos menos afortunados e com a condição feminina. Em outras palavras, Metatron privilegiava fetos que mal tinham sistema nervoso, e que muitas vezes eram inviáveis, e desprestigiava os anjos já desenvolvidos. Um anjo que praticasse aborto no anjo feminino, ainda que com o consentimento dela, morria. Acabou com o suicídio assistido de doentes terminais e com a eutanásia. Preferia jogar os anjos doentes no Lago de Fogo para que lá sofressem ou preferia vê-los sofrerem, ao invés de deixar que morressem em paz, tudo para ser coerente com seu princípio de que a vida era um valor absoluto. Hipócrita. Vendo todos esses retrocessos mesquinhos e sem sentido, e acostumada à liberdade, não me calei. Enfrentei Metatron. Clamava por amor, sexo e liberdade. Liderei um movimento que teve adesão maciça dos anjos femininos e dos homossexuais. Queimamos sutiãs nas ruas do Paraíso, idealizamos a Parada Gay e exigimos o direito de todos terem uma vida sexual livre, pois ela não importava a ninguém, a não ser aos próprios anjos que faziam sexo. Afinal, era uma questão particular. Como resposta, Metatron me expulsou e mandou centenas de anjos femininos militares suprimir toda e qualquer manifestação de nosso movimento. Colocou o feminino contra o feminino.

 

machismo-religiao-aborto

 

Klepoth chorou e continuou:

 

Infelizmente, eu não sabia de nenhum podre dele, mas ele sabia dos podres de muitos anjos poderosos por meio das respectivas esposas descontentes com minha concorrência. E os anjos femininos poderosos me odiavam, pois não tão eram amadas quanto eu. As coisas ficaram ruins primeiro para os anjos femininos da militância que perderam poder e prestígio. Depois também ficou ruim para todas as criaturas femininas. Metatron, poderoso que era, tirou os anjos femininos dos postos de comando e atribuiu a elas funções domésticas e de criação dos filhos até a idade de irem para o exército celestial. Também acabou com a função de anjo da guarda para os jovens anjos. As escolhas do “antiquado” eram inquestionáveis. Entendia ele que cada sexo tinha uma função pré-determinada. Não havia discussão. É como acontece aqui na Terra com relação à religião, ela não permite questionamentos, pois se baseia em delírios, mas no caso de Metatron era pura mesquinharia e vontade de aparecer e impor seus conceitos sobre os outros, valendo-se de seu poder de luta muito superior ao dos demais serafins e querubins. Depois apareceu Lúcifer e virei a amante dele aqui na Terra… Lulu era tão sedutor. Os anjos femininos sucumbiam a seus encantos, o que desagradou muito os seres celestiais masculinos. O Céu se dividiu, pois Lúcifer era muito poderoso e um forte ponto de resistência ao controle insano de Metatron. Foi neste momento que meu nome foi manchado por toda a eternidade. Após a expulsão de Lulu, os anjos femininos sofreram nova opressão, pois o feminino foi considerado o sexo frágil, incapaz de dominar seus desejos carnais, pois se entregava ao querubim opositor de Metatron com muita facilidade. Era um perigo para as famílias e para a moralidade de Metatron. Este considerou que os anjos femininos eram uma ameaça à segurança familiar e ao Paraíso, pois Lulu poderia ter filhos tão poderosos quanto ele. Assim, Metatron determinou que as famílias adotassem um modelo patriarcal, formalizando a opressão sobre o feminino. Este modelo também foi adotado aqui na Terra pela Igreja, influenciada pelos principados do Paraíso, pelas histórias bobas por eles contadas, algumas transcritas na Bíblia, e pelo conservadorismo de velhos decadentes. Assim, as mulheres, que tinham alguma proeminência em algumas civilizações da antiguidade, nesta idade medieval, foram jogadas na fossa, tachadas de bruxas e receptáculos do diabo. Bastava ter uma pinta que ao ser alvo de uma agulhada não provocasse dor para ser acusada de ter mantido relações sexuais com o demônio. Aqui na Terra, as mulheres foram consideradas uma ameaça ao Homem Invisível onisciente, onipresente e onipotente que paira nos céus distribuindo uma suposta bondade que os primitivos humanos acham que existe fora deles.

 

E a conversa entre mãe e filha continuou noite adentro, só findando perto do dilúculo.

 

A madrugada foi tranquila para os guerreiros. Todos os visitantes, com exceção de Samuel, dormiram pesado e profundamente. As últimas horas haviam sido agitadas e perigosas. Lúcifer, depois de semanas de sonhos tormentosos, não teve pesadelo algum. Na manhã seguinte, acordou disposto e feliz. Achou que nunca havia se sentido assim, pelo menos não se recordava de ter uma noite de sono tão boa. Por que seus sonhos cruéis se esvaíram naquela noite? Teria paz? Olhou para o Grimório e teve certeza de que a resposta para essa pergunta era não.

 

necromancer

 

Levantou-se. Ao lado da cama havia uma bela roupa vermelha, apropriada para o tamanho de Lúcifer. Tratava-se de uma longa capa com inúmeros pequenos detalhes em relevo. Havia gravuras de anjos e demônios, de pessoas em atividade sexual e de morte. “Onde está Esmeralda?”, pensou a visita. Saiu do quarto e desembocou em um corredor com inúmeras portas. Estava no segundo andar da mansão. Dirigiu-se até a escada. Pretendia comer alguma coisa. Provavelmente Esmeralda estaria na sala. Queria vê-la. Ela e sua mãe teriam conversado sobre o quê? Sobre ele? Sorriu com essa possibilidade. Entretanto, andando pelo corredor, viu um dos escravos de Klepoth. Ele, com medo, chamou Lúcifer para dentro de um aposento. Lúcifer tentou ignorar, mas não conseguiu, o homem suplicou, parecia estar desesperado. Não tendo como recusar o chamado, o necromante seguiu o condenado.

 

– Amigo. Precisamos de você. Queremos fugir dessa mansão, mas Klepoth…

 

Lúcifer ficou impassível, pois não sabia o que fazer ou dizer. Era constrangedor saber que a mãe de seu amor, que tão bem os acolheu, era a causa do terror daqueles homens, muitos com porte de guerreiros.

 

– Bem, veja… – Nada vinha na mente do necromante.

 

– Você é nossa última esperança. Já tentamos fugir, rebelamo-nos, mas não conseguimos escapar do controle dela. Klepoth sempre se antecipa às nossas ações. Além disso, amaldiçoou-nos.

 

Logo apareceram mais homens pela porta.

 

– Ela nos escraviza. Somos escravos sexuais. Sofremos todo tipo de violações e humilhações. – Disse um homem de meia-idade de olhos apavorados.

 

– Sim, e quem se rebela contra ela ou é mutilado ou é morto. – Denunciou outro, mostrando que era eunuco. Formol quase vomitou ao ver a genitália obliterada alheia e, instintivamente, verificou se estava tudo bem com suas partes íntimas.

 

– E aqueles que fogem, morrem. Nunca houve fugas aqui. – Arrematou um quarto.

 

O homem de meia-idade tornou a falar:

 

– E aqueles que envelhecem e que não conseguem mais satisfazê-la sexualmente são descartados. – Lúcifer pensou e olhou para o eunuco e este mostrou a língua como resposta.

 

– Sem contar os maus tratos diários. – Complementou o primeiro homem que falou com Lúcifer.

 

– Por favor, nos ajude.

 

Coagido e cercado pelos homens desesperados, Lúcifer disse ainda sem convicção:

 

– Bem. – Começou o necromante. – Verei o que posso fazer. Preciso de tempo. Estou chegando agora e…

 

– Se nada for feito, haverá um banho de sangue nessa mansão. – Ameaçou o homem de meia-idade. O necromante percebeu em todos eles o desespero de uma vida arruinada e fadada à escravidão. Concluiu que os celestiais tinham uma tendência ao totalitarismo.

 

O dia parecia ser tão promissor”, pensou Lúcifer lamentando o ocorrido. Às vezes a vida era um fardo. Lúcifer deixou o cômodo um pouco apressado, desceu as escadas e permaneceu inquieto. Na sala central, por onde entraram na noite anterior, estavam Samuel, Gabriel, Esmeralda, que estava tão ou mais linda que a mãe, e Klepoth. Pareciam estar ali há horas. Provavelmente Klepoth já sabia de tudo.

 

Oi lindo! – Exclamou animada a virtude. – Dormiu bem? – Perguntou já sabendo a resposta.

 

esmeralda

 

– Sim. – Respondeu desajeitado Lúcifer, evitando olhar para o rosto dela.

 

Meus escrav…, digo, ajudantes já te incomodaram, não é mesmo? – Interrogou a megera demonstrando alegria, mas com um tom malicioso e um olhar profundo e severo recusado por Lúcifer.

 

– Não, eu estou bem. – Tentou disfarçar o necromante. Realmente aquela bruxa sabia de tudo o que acontecia na mansão. Será que ela sabia que ele havia se masturbado três vezes antes de dormir pensando em um ménage com ela e com Esmeralda?

 

– Minha mãe criou uma barreira protetora em torno da fazenda, assim você foi protegido dos pesadelos enviados por Lúcifer e seus sequazes, bem como estará protegido dos que serão enviados por Lilith.

 

– Lilith? – Perguntou exasperado o necromante, lembrando da rival.

 

lilith

 

– Sim, aquela que me agrediu antes de você me resgatar do Inferno. – Lembrou Esmeralda.

 

Puta. – Sussurrou Klepoth para si mesma. Depois arrematou, já em tom alto. – Ela virá atrás de vocês dois. Se bem conheço Lúcifer, ele não admite que uma concubina lhe seja subtraída, principalmente do nível de Esmeralda. Ele ainda me adora e certamente irá querer minha filha para ocupar o lugar que um dia foi meu. Machista de merda. Mandará Lilith resgatar Esmeralda mesmo sabendo que ela tentará matar minha filha. Quanto ao seu amigo. – Olhou para Lúcifer. – Só lhe restará a morte se pego for. Cairá no Inferno. – Disse com naturalidade mórbida.

 

Se ela me matar, não irei mais para o purgatório, mas para o Inferno?”, pensou o necromante. Aquela questão de ir para o Céu ou para o Inferno ou para o Purgatório era muito complicada e lhe trazia angústia. A cada hora lhe era dito algo diferente. Não havia regras. Era como a discussão sobre a Santíssima Trindade e sobre o consubstancialismo: não fazia sentido algum. Lúcifer resolveu fazer como alguns “estudiosos” de uma entidade atemporal e imaterial, e que, portanto, não poderia ser estudada por criaturas temporais e materiais, chamada Deus: ignorou a problemática. Com efeitos, esses “estudiosos” pregavam, conveniente, a falta de capacidade humana para entender esse “grande” mistério. De fato, não era inteligente entrar em questões filosóficas sobre algo que ninguém compreendia exatamente. Não esquentaria a cabeça por causa daquelas dúvidas quanto a seu destino, afinal o Inferno não parecia ser um lugar tão ruim assim.

 

Mas como conheço Lilith, ela tentará matar Esmeralda e a mim também. Ela é muito ciumenta e me odeia. Sou a mais bela e a predileta de Lulu, aquele cretino. – Riu o demônio retomando o seu assunto preferido: Lilith. Klepoth gostava de criticar os vestidos e roupas da rival.

 

Como assim? – Perguntou Samuel.

 

Ah, querido, um caso antigo. Mas eu já esqueci completamente aquele cachorro. Só não virei mais uma de suas esposas, porque Lilith estava insuportável na época. – Olhou para a filha rindo. – Ela não admite que exista uma esposa mais bela do que ela. Tentou me matar inúmeras vezes. Infeliz. Mesmo depois que fui embora do Inferno, ela me perseguiu por vários séculos. Por isso, tive que abandonar minhas crias pelo mundo, inclusive ti, querida. – Lamentou. – Mas agora, com o fortalecimento do Inferno, ela terá maiores chances de conseguir seu intento. Logo teremos visitas. Temos que sair daqui. – Complementou.

 

– Ela não sabe onde estamos. – Asseverou Lúcifer, ainda incomodado por aqueles inúmeros problemas que o cercavam: livro maldito; vinculação forçada à causa dos arcanjos; iminente rebelião; seu destino e o de sua família.

 

Ela nos achará, pode ter certeza disso. – Silêncio absoluto na sala.

 

Estou sentido a presença de inúmeras feras dentro da casa e lá fora. Parecem sentinelas. – Observou desconfiado Samuel.

 

Oh! Não se preocupe querido. – Riu apaixonadamente. – São meus bichinhos de estimação. – Lúcifer notou que ela queria esconder algo. – Eles me ajudam a espantar homens de Amelot e os demônios enviados por Lilith.

 

No Inferno.

 

Caim, meu filho, fruto da conjunção proibida com Eva, aquele que foi capaz de matar o próprio meio-irmão e se condenou por toda a eternidade, como andas? E Asmodeus, a criatura mais cruel e devastadora de todos os tempos, eras e lugares, filho de Adão e de Lilith, a rainha do Súcubo. Como andas tua sanha pela destruição?

 

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Diante de Lúcifer, de Abigor, de Moloch, de Mammon e de Lilith, que além de um chapéu vermelho, trajava um belo vestido vermelho, cujo material assemelhava-se ao látex e que permitia uma bela visão de seu farto decote, estavam Caim e Asmodeus. O primeiro, com a queda de Lúcifer, foi feito prisioneiro, por seu próprio irmão, Mammon, que, ao assumir o poder, afastou todos os possíveis sucessores de Lúcifer. Prendeu Caim, sob a alegação de que ele era um ser impuro, meio demônio, porquanto seu sangue era maculado pelo sangue humano de Eva. Nefilins, seres oriundos da união entre demônios e humanos, não eram bem-quistos pela sociedade infernal. Caim, decerto, pretendia se vingar do seu irmão.

 

Asmodeus era outro demônio de origem não pura. Na verdade, ele não nasceu demônio, mas foi transformado quando jovem e tempestuoso, a pedido de Lilith, já transformada em demônio e corrompida pelos prazeres da promiscuidade. Foi aprisionado também por Mammon, porém não tinha um sentimento tão revanchista como Caim. Na verdade, Asmodeus queria destruir Mammon, Lúcifer, Metatron e todos ali na sala. O importante era matar e não ser morto. Tinha sede de sangue e mataria qualquer um sem pestanejar. Ele não precisava de motivos. Era um ser que transbordava testosterona.

 

Caim. Tu terás dez legiões. Invada o reino terrestre. Conquiste aliados humanos. Piratas, mercenários, governantes avessos à Igreja e a suas legiões de bandidos, todos serão bem-vindos, inclusive membros de outras religiões, avessas à Igreja. E diga que todos serão muito bem remunerados. Mammom dará toda sua riqueza para nossa causa e integrará suas tropas.

 

Mammon engoliu em seco e Caim sorriu levemente. “Toda riqueza?” Pensou Mammon, o demônio da avareza. “A riqueza que amealhei durante séculos? Não era justo!”. Ele teve o trabalho de matar, pilhar, roubar, furtar e enganar milhares de pessoas e demônios para ter seu pé de meia e para poder se orgulhar e se embelezar com inúmeros artefatos raros; bem como para engordar também. E não era só riqueza que possuía, mas peças de colecionador. Havia sentimentos ao lado dessa abastança toda. Entendia que não era tão materialista como diziam por aí, mas se podia acumular e gastar com exclusividades e bens supérfluos, por que não fazer? Suas esposas precisavam de muitos empregados, de vestidos e outras quinquilharias. Era um modo de vida caro que precisava ser financiado.

 

Integrará suas tropas”, tremeu Mammon ao lembrar da sentença. Lamentou que ali a desculpa esfarrapada para não ir à guerra, por motivos religiosos, não seria aceita, como ocorria na Terra. É claro que Mammon não era religioso e nem acreditava, como todos no Céu e no Inferno, em divindades e esoterismos, mas era uma boa maneira de terráqueos fugirem de obrigações cívicas e nacionalistas sem serem questionados, porque, na Terra, por algum motivo desconhecido, religião não se questionava.

 

Arregimente cidades humanas para a nossa causa. A Terra será o campo de batalha principal. As cidades dos humanos nos servirão como peões e também como ponto inicial de nossas incursões rumo aos céus. Caso as cidades se recusem a nos apoiar, destrua-as. Acabe com todos, sem dó nem piedade. – Continuou o líder infernal. Não queria que humanos se aliassem ao Paraíso ou que fossem mortos por anjos, visto que suas almas serviriam de alimento para as tropas angelicais ao serem encaminhadas para o Paraíso.

 

Sim meu pai. Começarei por Amelot. Nossos demônios estão terminando de abrir o portal da Santa Sé. Basta alguns entulhos para serem removidos.

 

Distribua as milhões de almas que Mammon tem escondidas nos porões dos Inferno para abastecer nossas tropas. – As almas de Mammon eram sua maior riqueza, pois eram os alimentos dos demônios errantes e desorganizados. Estes precisavam oferecer algo de valioso para o filho de Lúcifer, normalmente quinquilharias, ouro e outros bens materiais, para que pudessem se alimentar, sem se exporem no plano terrestre e sem serem incomodados pelos celestiais. Como as almas dos mortos pela arma de um demônio iam diretamente para o Inferno, pois no plano terrestre os demônios, assim como os anjos, não poderiam delas se alimentar, Mammom criou um sistema de coleta, seleção e armazenamento de almas muito eficiente. Era o principal fornecedor de almas orgânicas para o Paraíso, ficando apenas atrás do Purgatório, órgão oficial de controle, para onde iam as almas de pessoas e animais que não eram mortas por demônios ou anjos. Assim, extorquindo demônios e vendendo almas para o Paraíso, cada vez mais consumista e exigente com relação à qualidade das almas, Mammon enriqueceu. Todavia, agora, Lúcifer determinara que seu ouro fosse dado aos seres humanos aliados e que as almas de Mammon fossem distribuídas entre os soldados infernais. Seu negócio estava arruinado. Certamente perderia as inúmeras esposas que tinha.

 

Asmodeus, filho de Adão e Lilith, demônio destruidor, tu tens alguns trabalhos especiais. Acompanha a vadia da tua mãe e traga minha mulher, Esmeralda, filha de Klepoth, a depravada, bem como a própria depravada. Destrua todos os arcanjos traidores do Paraíso, pois eles estarão com ela. Mate também Lúcifer, não eu, evidentemente, e dê o Grimório para Caim, para que seu trabalho de angariar humanos para nossa causa se torne mais fácil. Depois terás a sua disposição setenta e duas legiões para o ataque final ao Paraíso.

 

Asmodeus assentiu, sem falar nada. Queria mandar Lúcifer se foder e arrebentar a cara celestial dele, mas não tinha poderes para derrotá-lo, por isso preferiu ficar em silêncio e aceitar aquela missão que julgava esdrúxula.

 

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Vamos filho, vamos cumprir todas essas tarefas. Banharás tuas mãos em sangue. – Disse a rainha do Súcubo.

 

A belíssima Lilith deixou o salão e logo atrás dela foi seu filho, Asmodeus, o destruidor, que ameaçava de morte quem passava por sua frente. Não era incomum arrebentar, matar ou mutilar algum demônio ou qualquer tipo de criatura repentinamente, sem motivos. Se tropeçava, precisava punir alguém. Em geral, fazia ataques rápidos e letais que dilaceravam os pobres alvos de seus arroubos destrutivos.

 

Apesar de ser a mãe da criatura, Lilith não demonstrava muito afeto e não se importava com o destino dela, pois Asmodeus era uma memória viva de seu passado terrível.

 

“Adão acordou.

Os raios solares teimavam atravessar a folhagem irregular da copa das árvores, submetida à suave força eólica. O vai e vem das folhas e o cálido zunido do vento eram constantes e intermediados pelos cantos de pássaros de diversas espécies.

O sol beijava a face de Adão e lhe dava energia e ânimo para se levantar. Sentado ao chão, viu esquilos e pequenos animais selvagens em seu limiar, ao longo do horizonte verdejante e orvalhado. Os troncos das árvores eram como robustas cidadelas habitadas por milhões de insetos e dezenas de bichanos. O clima aprazível era compatível com a nudez de Adão, que não sentia nem frio, nem calor.

Depois de uma rápida ambientação, depois de sentir o perfume das flores, depois de ser agraciado pela maciez da grama exuberante e fofa, depois de contemplar o esplendor do Sol, depois de se admirar com o bem-estar que aquele paraíso lhe proporcionava, Adão, ainda sentado, passou a olhar para si mesmo.

Olhou os pés e as pernas e percebeu que podia controlá-las; olhou para suas mãos e para seus braços e da mesma forma constatou que podia controlá-los. Esses membros se moviam, parecendo obedecer a seus comandos e, de fato, após algum tempo de reflexão, chegou à conclusão de que realmente os controlava. Então viu um pequeno membro mole entre suas pernas, mas não podia controlá-lo, apenas tocá-lo. Não sabia qual a função da extensão corporal inerte. Olhou para a barriga e para o peito. Colocou as mãos no rosto. Sentiu que sua face era tateada pelas próprias mãos. Então aferiu que tudo aquilo que podia ver, membros, barriga e peito, e tudo aquilo que sentia – o toque de suas mãos no próprio rosto, a ação do vento sobre todo seu corpo, o clima ameno e os raios solares que lhe beijavam a pele – era ele.

Naquele momento Adão se reconhecia como um indivíduo, um ser pensante, um ser vivo e racional, embora não tivesse ideia das implicações disso.

Levantou-se, com certa dificuldade. Em segundos, após uma ou duas quedas, que lhe ensinaram o que era dor física, aprendeu a andar. Andou para onde os olhos miravam e subiu uma colina onde havia uma árvore carregada de maçãs. No topo dela, viu um lago de águas translúcidas. O apanhado de água despertou sua atenção. Foi de encontro ao bolsão de água cristalina.

Ajoelhou-se para tocar o líquido, mas antes que o tocasse, viu uma criatura dentro da água, assustou-se. Deu dois passos para trás. Tomou coragem e, com cautela, voltou ao pé da margem do lago. Olhou e novamente viu uma cabeça embaixo da água. Como tal cabeça era tão cautelosa como ele, foi baixando lentamente. Estendeu o braço para tocar o líquido. Assustou-se um pouco, pois notou que um braço também parecia sair de dentro da água, mas mesmo assim prosseguiu. Tocou o líquido e logo as imagens da cabeça e do braço se turvaram. Após algum tempo de interação com as águas do lago, concluiu que aquela cabeça dentro da água nada mais era do que um reflexo dele. Percebeu que aquela imagem era uma cópia sem corpo e sem alma dele próprio, o que o fascinou. Também tomou ciência de que água era algo muito bom: refrescava sua nascente sede, limpava seus membros e deixava uma deliciosa sensação de frescor quando em contato com a pele.

Passados alguns dias de aprendizado e de novidades, interregno em que aprendeu a se alimentar, a fazer necessidades, e tudo o que precisava para se manter vivo e com saúde, sentiu um vazio interno muito grande dentro do peito. Não sabia o que era. Nos seus poucos dias de vida, o homenzarrão nunca sentira aquela sensação, que não era satisfeita de forma alguma, não importava o que ele fizesse.

Além disso, aquele membro mole que tinha entre as pernas, às vezes ficava duro, mas ele não sabia a razão disso. Havia um formigamento constante quando o membro ficava ereto, mas Adão não sabia o que fazer. Por vezes coçava o membro, em outras brincava com ele, mas aquilo o irritava, pois não encontrava uma finalidade ou explicação para o fenômeno. Quando acontecia costumava mergulhar no lago até o membro amolecer. Às vezes a volta à normalidade era rápida, às vezes demorava o dia inteiro para que ocorresse.

Neste meio tempo, também notou que muitos animais da mesma espécie andavam em duplas, mas tais pares de bichanos ostentavam pequenas diferenças. Como corolário lógico, também atentou para o fato de que estas duplas copulavam. Em geral, um, aquele que tinha um membro entre as patas, montava sobre o outro. Adão achava estranho tal comportamento. Não sabia por que os animais faziam isso, apenas tinha ciência de que os que tinham um pequeno membro no ventre o enfiavam freneticamente no ânus daquele que não tinha.

E assim os dias se sucederam, até que em determinada data ouviu uma saudação vinda de alguém que se aproximava por trás:

– Oi.

– Oi. – Respondeu automaticamente Adão ao se voltar para a origem do som. Aprendeu neste momento uma nova funcionalidade para sua boca: a fala.

Adão ficou estupefato com a beleza daquela criatura. Em certos aspectos, assemelhava-se a ele, e em outros se diferenciava. Lilith, como depois veio a ser conhecida, era menor em estatura, aparentemente mais fraca, mas muito mais bonita e com muitas curvas. Possuía membros bem torneados, um rosto encantador e cabelos longos. Também ostentava dois belos seios no peito e não tinha o membro mole que tanto lhe preocupava. Ficou mais maravilhado ainda, porque, depois de tocá-la e ser tocado, percebeu que ela não era como sua imagem no lago, ela era real. Lilith assemelhava-se a ele: era de carne e osso.

Automaticamente, aquele vazio constante que sentia dentro do corpo foi embora. Agora tinha uma companheira. Em poucos dias, ambos desenvolveram a fala – ela foi mais rápida. Fizeram muitas coisas juntos. Comiam, tomavam banho juntos, corriam e rolavam pela grama. Entretanto, a dúvida que Adão tinha foi transmitida para Lilith. Ambos não entendiam porque o membro mole de Adão às vezes ficava duro e molhado.

Lilith, curiosa e corajosa, passou a tocar o membro de Adão com força. Apertava, puxava, empurrava, achando engraçado que aquela coisa ficasse dura e mole. Adão gostava. Os testículos eram poupados, pois seu manuseio causava incomodo ou dor em Adão. Perceberam que a simples presença de Lilith deixava o membro mole de Adão rígido. Logo, Lilith passou a chupá-lo, o que trazia grande prazer e felicidade para Adão. E entre uma chupada e outra, Adão teve uma ideia. Imitaria os animais silvestres. Ele mostrou a Lilith dois castores copulando e disse que queria fazer o mesmo. Tocou no seio da moça, o que dava imenso prazer a ela, e juntou o seu corpo ao dela. Logo seu pênis, como vieram a chamar o membro mole de Adão, ficou ereto como nunca havia ficado antes. Adão deitou Lilith na grama e queria que ela ficasse de quatro para imitar os castores, mas Lilith, esperta que era, preferiu ficar deitada com as costas para o chão.

Disse, para se justificar, que o buraco da frente, ao qual posteriormente foi dado o nome de vagina, era maior do que o de trás e que deste saía excrementos. Adão, mesmo contrariado, porque não poderia imitar os animais, aceitou. E ambos conheceram o sexo.

Logo, ambos, que se gostavam muito, passaram a transar todos os dias, várias vezes ao dia, e logo vieram as variações. Todavia Adão jamais permitiu que Lilith ficasse por cima e cada vez mais insistia em pegá-la por trás, como os animais. Lilith, desgostosa, aceitou. Ficou de quatro e a dor foi imensa. De outra banda, Adão adorou, disse que a dor era só no começo, o que, de fato, era verdade. Lilith se acostumou a ficar de quatro para satisfazer a cada vez maior lascívia do companheiro. Quanto mais sexo fazia, mais Adão queria. Lilith adorava transar, mas já não suportava o companheiro. Ela queria conversar, queria se divertir e queria carinho também.

Além disso, a mulher queria ficar em cima, mas Adão era irredutível e como era mais forte, sua vontade prevalecia. A paciência de Lilith, que dia após dia aceitava as exigências de Adão, foi acabando. Não sentia mais tesão na transa e isso repercutia na ausência de lubrificação na sua vagina e, consequentemente, na dor ao fazer sexo.

Resolveu dar um basta nisso.

– Basta!

Virou as costas, mas Adão, que já andava irritado com as atitudes de Lilith, que inexplicavelmente não gostava mais de fazer sexo e que insistia em ficar em cima dele, pegou-a pelos braços. Lilith tentou se desvencilhar, mas não conseguiu, e, depois de uma breve luta corporal, Adão conseguiu controlar a companheira. Adão a achou linda chorando e se debatendo, tentando agredi-lo…

Depois do coito forçado, Lilith fugiu. Adão, cansado pelo estupro que acabara de realizar, não ligou. Tinha certeza de que Lilith não poderia ir longe e que mesmo que fosse, voltaria, pois sexo era algo tão bom na sua concepção que não entendia como sua companheira podia complicar tanto as coisas.

 

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Todavia, as horas passaram e a noite caiu e nada de Lilith voltar. No dia seguinte, Adão resolveu procurar sua mulher. Nada encontrou. No dia posterior, também não. O Paraíso, como viria ser chamado aquele lugar maravilhoso, era muito grande.

Adão estava nervoso. Estava sem sexo. Precisava de sexo. Era seu vício e sua única fonte de entretenimento naquele mundo perfeito. Os dias se passaram e nada da garota. A masturbação compulsiva, que deixava feridas em seu pênis, já não o satisfazia como antes, nos primeiros dias da ausência de Lilith. A zoofilia não dava certo. Além disso, voltou a sentir o vazio dentro do peito. Achava que esse vazio decorresse da falta de sexo, mas naquele momento, sozinho, à procura de Lilith, já não tinha mais certeza disso.

Cansado de procurar, perdeu as esperanças. Porém, algo inusitado ocorreu. Uma serpente lhe falou:

– Procura por água e alimentos em abundância e acharás o que procuras.

Adão, então, procurou Lilith em todos os lagos, lagoas e rios do Paraíso e, à margem de um desses rios, encontrou a fugitiva. Estava furioso e ávido por sexo. Pretendia lhe dar uma bela lição para que não fugisse mais e para que cumprisse com sua obrigação de lhe dar prazer sem frescuras, de forma submissa e sem reclamações.

Lilith estava de costas para seu algoz, mas um milagre, ou o sexto sentido dela, fê-la perceber no último momento a aproximação do malfeitor. Por meio de um rápido movimento bateu em Adão com um pesado galho de árvore. Adão, surpreendido, protegeu-se com o braço, que foi severamente danificado. Mesmo assim, levantou-se e investiu contra a moça, que tentou dar um segundo golpe nele, sem, contudo, obter sucesso. Adão caiu sobre a moça que, intencionalmente ou não, no calor da batalha, acertou-lhe um chute nos testículos. Adão rolou para o lado de dor. Tentou se levantar mas caiu. Lilith, célere, correu, com sua arma improvisada, para a árvore mais próxima. Escalou-a. Adão, ainda com certa dificuldade, veio no encalço da heroína e tentou subir a árvore, porém, ao tentar se apoiar em um dos galhos da árvore, teve a mão atingida por um poderoso golpe, que quase lhe quebrou um dos dedos.

E assim ambos ficaram: Lilith sobre a árvore, munida de seu galho, e Adão, cheio de machucados e dores, embaixo. A vítima, por um segundo, gostou dessa situação. Finalmente estava por cima e, de certa forma, conseguiu retribuir as agressões de Adão se valendo de seu galho e de seu joelho.

Mas logo, a situação mudou. Adão era quem sorria e Lilith entrava em desespero.

– Uma hora você terá que descer. – Avisou Adão.

Adão, sempre com um olho em Lilith, dirigiu-se ao rio. Tomou água, cuidou de suas feridas e se alimentou. Também pegou um galho, mais pesado do que o de Lilith, e algumas pedras. Levou-os para o pé da árvore. Lilith, cansada, a tudo observava, apreensiva e apavorada. Adão andava de um lado para o outro carregando dois ou três pedregulhos, sorrindo maliciosamente. Fazia menção de que em breve, caso Lilith não desistisse de sua loucura, atiraria pedras na sua propriedade até que ela saísse ou caísse do baluarte improvisado.

Adão virou uma criatura perversa e possessiva.

Lilith estava acuada, sem saída, mas Adão cometeu um erro. Certo de que estava tudo sob controle, certo de que logo daria uma lição em Lilith e certo de que logo teria sua escrava sexual novamente, deitou-se ao pé da árvore, para tirar um cochilo. Antes avisou a Lilith que assim que acordasse de seu breve sono, ela deveria sair da copa da árvore, pois caso contrário seria derrubada a pedradas.

– Burro! – Sussurrou Lilith.

Poucos minutos depois que Adão se deitou convicto de sua vitória, ela pulou sobre o peito dele. A queda foi grande. Adão, ao ser atingido, retorceu-se de dor. Sua costela trincou, faltou-lhe ar e de sua boca saiu sangue. Lilith caiu com os dois pés sobre o seu algoz, entretanto, a aterrissagem não foi perfeita. Pousou desequilibrada e torceu o pé, mas mesmo assim correu, mancando, o mais que pode. Estava apavorada. Seu galho ficou para trás junto com a fúria de Adão que a jurava de morte, enquanto, ainda com muitas dores e tresloucadamente, tentava atingi-la com as pedras que havia recolhido. Por sorte, estava sem forças e pontaria.

Depois disso, Adão nunca mais viu Lilith nem a serpente que o ajudou. Nos primeiros dias, pretendia matar sua ex-parceira, mas com o tempo a sensação de vazio voltou a seu peito, peito aquele em que se encontrava sua costela ainda trincada. Eram duas sensações insuportáveis. Logo, Adão percebeu que precisava de Lilith e que a sensação de vazio era a solidão, a falta de afeto e de amor.

– E ela só queria ficar em cima. – Pensava angustiado e aflito.

Adão não comia e não bebia água. O Paraíso, antes belo, agora lhe parecia morto e sem finalidade. Sentia inveja e tristeza quando via animais copularem. A masturbação virou sua companheira impiedosa. O que antes era um passatempo para ele e para Lilith, agora era uma necessidade que o fazia sentir culpa cada vez que ocorria.

Foram meses, talvez anos, de solidão, sentimento de culpa e buscas frustradas por Lilith. Queria pedir perdão. Sentia a falta não só do sexo, mas da companhia também.

Caiu de joelhos no chão, gritou o mais alto que pode, pediu por ajuda, ergueu os braços e logo desmaiou. Quando acordou, levantou-se disposto. Não sentia mais dores no peito. A costela trincada lhe fora retirada. Mas isso não foi a causa de maior surpresa. A sua frente viu estendido o corpo de uma mulher.

– Lilith!

Correu em direção à moça e, com os olhos marejados, ergueu a cabeça da mulher, afastando os cabelos que lhe escondiam a face. Espantou-se ao perceber que não se tratava de Lilith. Era outra mulher, tão bela como sua primeira namorada. A misteriosa garota abriu os olhos e sorriu delicada.

– Oi. – Disse displicente.

No seu íntimo, Adão sabia que alguém lhe dera uma segunda chance, oportunidade que não pretendia deixar passar. Emocionado, jurou a si mesmo que respeitaria as sugestões e desejos de sua nova consorte…

Por seu turno, Lilith, depois da fuga, andou dias e dias. Comeu mal e evitou ficar próxima a rios, lagos e lagoas, até encontrar os limites do Paraíso. Embora a paisagem de fora fosse avermelhada, nebulosa e em muitas partes sombrias, saltou para fora dos portões sagrados daquele lugar em que vivera momentos mágicos e aterradores com Adão.

Manca, esfomeada, nua em um ambiente cujo clima era frio e chuvoso, assustada, sem esperanças e em território estranho, tormentoso e nocivo, Lilith avançou sem rumo e agonizante depois de tantas provações. Nos últimos lampejos de vida, caída sobre as raízes de uma árvore, foi cercada por demônios. Estes a levaram para uma caverna onde ela recobrou suas forças e sua beleza para, então, depois de muitas orgias, nas quais sempre ficava em cima, ser apresentada a seu futuro marido, Lúcifer. Este lhe atribuiu a beleza e a juventude eternas.”

 

verdade

 

Enfim, Lilith foi parte de um experimento sociológico terrível das criaturas celestiais, lideradas por Metatron, que deu origem a Asmodeus. Não era para ter tido aquele rebento, hoje sinônimo de destruição. Acreditava o demônio feminino que o filho era violento e mau-caráter em razão da herança genética oriunda do pai. Para ela, o amor maternal não existia, pois lhe trazia péssimas lembranças. Há milênios, limitou-se a pensar em si própria e em suas necessidades, normalmente supridas por Lúcifer.

 

Tamanha carga emocional, oriunda de um capricho de Deus, tornou a história da outrora mulher em lenda no Paraíso e no Inferno. Na Terra, porém, essa história não era considerada uma lenda, mas sim uma verdade inquestionável e uma justificativa irracional da Igreja para o domínio masculino sobre o feminino.

 

 

religiao-2

Caim também deixou a sala e lançou um olhar de morte para Mammon. Sua vingança seria longa e dolorosa. Em condições iguais, o demônio da avareza não tinha qualquer chance contra ele.

 

Moloch, as entradas para o Inferno? – Exigiu a informação o soberano.

 

Estão todas muito bem vigiadas, meu senhor. Não temos contingentes em todas elas, mas, nas entradas menos importantes, temos demônios espiões que nos informarão rapidamente sobre qualquer tipo de tentativa de invasão. Saliento que as entradas principais estão todas bem guarnecidas por um contingente enorme de legiões que cresce a cada minuto. Todos os demônios, dragões e seres que de alguma forma odeiam o Paraíso estão se deslocando rapidamente para as entradas de teu reino. Em poucos dias, triplicaremos o nosso exército.

 

Ainda assim temos problemas. Metatron, mesmo rodeado por inimigos, tem um exército muito numeroso, maior e mais bem preparado que o nosso. Por enquanto, não poderemos atacá-lo frontalmente de igual para igual. Teremos que conquistar inúmeros aliados e estabelecer uma forma de resistir a eventual invasão ao Inferno. Infelizmente, nestes séculos em que estive ausente, o Inferno teve um regente incompetente, que enfraqueceu a unidade dos anjos caídos, que provocou a evasão de tropas e que pilhou seu próprio povo. Mammon, – disse Lúcifer sem olhar para a cara de seu filho – seu patético e hipócrita sovina, abra os cofres e entregue a Caim suas riquezas para que o fratricida corrompa os corações humanos. Vá, gordo nojento.

 

Sim, querido amo. – Respondeu o tartufo demônio.

 

Mammon saiu contrariado do salão. Odiava o pai, mas o temia e seu temor era maior do que seu ódio e sua competência para fazer qualquer coisa contra aquele titã. Maldito corrupto.

 

Abigor, general maior das tropas satânicas e segundo no comando, como andam os preparativos para a guerra?

 

Mestre, eu estou treinando o máximo de guerreiros que posso e nossos vulcões trabalham no nível máximo. Estamos, inclusive, forjando armas no Lago de Fogo, para que elas sejam mais resistentes e poderosas. Porém, temo pela falta de comida para alimentar este crescente contingente de soldados, se a guerra se alongar por muito tempo. Ela deve ser rápida.

 

Isso não será problema a médio prazo, Caim teve ordens para eliminar todos os seres humanos que não aderirem à nossa causa. Logo, as almas destes cairão automaticamente no Inferno assim que mortos por nossas legiões e nos servirá de alimento. Haverá fartura de alimentos para nossas tropas. Agora me diga sobre o Lago de Fogo.

 

Senhor, as armas que são forjadas lá ou as que são reformadas com sua lava possuem maior poder. Tal lição passou a existir entre nós, demônios, há pouco tempo, cerca de duzentos anos. A lição nos foi passada por Klepoth, a depravada, detentora de inúmeros conhecimentos científicos herdados de cientistas e engenheiros celestiais e demoníacos que caíram em seu leito e que lá morreram. A “O poder das sete estrelas” lá foi banhada. Precisamos banhar a “666” o mais rápido possível. – Lúcifer olhou para a espada trincada, danificada pelo embate inicial que teve com Metatron. Ele tinha uma vantagem.

 

Sim, se a “666” ficar mais poderosa, tenho certeza de que poderei sobrepujar Metraton e “O poder das sete estrelas”. – Depois pensou na virtude.

 

espada-666

 

Nos últimos anos, antes de seu retorno, muitos demônios forjaram e banharam suas armas no Lago de Fogo. – Relatou Abigor.

 

Klepoth…

 

CONTINUA…

 

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