Lúcifer e a conspiração dos arcanjos – Parte 13

Vide parte 12

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Venham crianças. – Dirigiu-se à Esmeralda e Lúcifer. – Quero apresentar meus bichos de estimação. Samuel e Gabriel, eu já volto para partirmos.

Volte rápido, megera, as circunstâncias urgem celeridade. – Exasperou-se Gabriel.

imperius

Klepoth gargalhou.

Gosto de você Gabriel, é tão… autêntico. Parece Lúcifer. Ah! – Olhou para o necromante, não pretendia ofendê-lo. – Não é você querido, é o outro. Você é uma gracinha. – Apertou a bochecha do rapaz que ficou se perguntando se não era autêntico.

O arcanjo Gabriel enrubesceu. Pela primeira vez em dias, quiçá semanas, transmitia algum sinal de que possuía sentimentos em seu coração.

Assim, Lúcifer e as mulheres deixaram a sala, e, então, Samuel comentou:

Nuvens negras estão se multiplicando no horizonte.

Sim, Samuel. Precisamos ser rápidos. Tu ainda achas que a depravada será útil?

Não sei, mas, ainda que não seja, talvez possa aderir à nossa causa além de nos ter dado a pedra fundamental da conspiração. Estamos muito vulneráveis em meio a dois exércitos que querem nos eliminar. Conseguimos ser inimigos de ambos os lados e ela, mesmo nessa decadência de vida, é uma virtude. Em tese, tem muito poder.

Ela é estúpida e fútil. Não creio que seja de grande valia. É provável que com suas maluquices revele nossa posição e mesmo o engodo final. Precisamos voltar logo para junto de Ezequiel e Jofiel.

Nossas tropas nada farão enquanto não nos forem dados os sinais e acredito que isso ainda vá demorar. As tropas no Paraíso ainda não começaram a se movimentar. Não sei o porquê, mas essa demora me preocupa.

E se ele falharem?

 

Prefiro não pensar nisso… Gabriel.

 

Sim.

 

Não chame mais Klepoth de depravada, ok?

O pedido de Samuel causou estranheza em Gabriel e ilações surgiram a partir daí. “Isso poderia ser um problema”, pensou o arcanjo Gabriel.

Filha querida, são tantas coisas que precisamos contar uma para a outra. Nem pude ver o seu crescimento. Gostaria de te ver envelhecer, gostaria de saber como vou ficar daqui a alguns milhares de anos. – Gargalhou a virtude caída, alegre pelo pouco de felicidade que fruía naquele dia. – Brincadeirinha. Falando sério, abandonar você com aquele assassino do seu pai foi uma decisão dolorosa, mas necessária. Tive que escondê-la de Lilith. Ela sempre quis minha cabeça e fará qualquer coisa para me atingir e nisso inclui matar meus queridos filhos. – E baixando o tom de voz, arrematou. – Puta sem vergonha.

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Esmeralda respirou fundo. Percebeu que o vocabulário da mãe não era dos melhores.

– Mãe, o que significa esses escravos? Por que tens a alcunha de depravada? E por que eles temem a senhora?

Filha, é uma longa história, vamos deixar para outra hora. – Respondeu evasiva.

– Mãe. – Começou devagar. – Isso não é certo. Acredito que deve libertar esses homens, eles…

Como ousa?! – Gritou furiosa a bruxa, em um misto de fúria e perdimento. – Eles são meus escravos. Eles me satisfazem e me auxiliam. Não posso abrir mão deles. – Disse resoluta. –  E quando eu voltar? – Klepoth podia fazer todo o serviço da casa, sozinha, pois não tinha limitações físicas nem de tempo. Não precisava usar o trabalho alheio por mero capricho. Esmeralda queria explicar isso para ela, mas a mãe era cabeça dura demais e já estava acostumada a viver no ócio, valendo-se da mão de obra barata alheia.

– Mãe! – Interveio gravemente Esmeralda.

Desculpe-me filha. Eu não sei o que acontece comigo. Acho que sou uma depravada mesmo. – Lamentou-se desanimada. – Eu estou há tanto tempo procurando por alguém especial, mas… eu não encontro. Nesses últimos séculos, a solidão foi tão grande. – Lágrimas correram de seu rosto. – Eu juro que tentei, mas todos os homens que apareciam só queriam sexo. Eu nunca quis ser um objeto sexual, mas o comportamento masculino… Eu não sei viver só. Preciso ser amada. Preciso de atenção, como eu tinha no Paraíso. – A virtude caída desatou a chorar, pois estava emocionalmente indefesa naquele momento.

Há séculos não desabafava. Não havia conhecido uma outra mulher capaz de entender seus sentimentos. Tentar conversar com os homens era uma perda de tempo. Eles não a entenderiam ainda que tentassem. Não conversavam com ela. Queriam matá-la ou transar com ela, só isso. Seus sentimentos de nada valiam para eles. Suas palavras entravam por um ouvido e saíam por outro.

Klepoth era uma ninfomaníaca, mas ainda assim tinha seus valores e exigia respeito. Não queria ser tripudiada. Não queria ser objeto de ódio de homens, mulheres, anjos ou demônios. Queria amor e sexo, mas só conseguia este último, fosse se valendo de sua beleza estonteante e da cobiça do sexo masculino, fosse obrigando e escravizando dezenas de rapazes. Os anos se passavam e nada mudava, só piorava. Foi acumulando inimigos. Seu coração se recrudesceu e passou a ser insensível, cada vez mais. Aqueles serviçais masculinos passaram a ser vistos como meros objetos de deleite e de ódio ao mesmo tempo. Seu coração era duro como uma rocha, nem mesmo pequenos e passageiros casos amorosos rendiam amor verdadeiro. Era comum fugir de um local para o outro. Negar a rotina e correr dos ataques da sociedade moralista, machista e conservadora eram sua sina. Não bastasse isso, havia a rivalidade com Lilith. Suspeitava que a vagabunda tinha destruído a mente de muitos de seus pretendentes e possíveis amores, invadindo seus sonhos. Ela a perseguia. Nem sempre conseguia livrar a mente dos seus objetos de desejo das tramoias de Lilith. A rainha do súcubo invadia os sonhos de todos os “machos” de Klepoth, destruindo sua mente ou sussurrando mentiras e incertezas no subconsciente dos homens. Inoculado o veneno na psique, as vítimas ou fugiam ou broxavam ou repudiavam Klepoth que, indignada, acabava matando-as. Por que os homens eram tão suscetíveis aos encantos femininos? Muitos foram mortos assim, em um momento de fúria. Uma criatura que poderia viver eternamente, caso não fosse morta, entre mortais frágeis não era uma boa ideia.

Esmeralda aproximou-se da mãe e abraçou-a. Estava com pena daquela pobre alma. Klepoth, já em sonoro choro, continuou sua catarse:

Fui expulsa do céu, pois Metatron me acusou de ser uma ninfomaníaca sem qualquer senso moral. Desci à Terra, mas aqui também tive os mesmos problemas. Inocente e com a autoestima lá embaixo, procurei entre os humanos alguém que satisfizesse minha necessidade sexual e minha carência afetiva. Procurei alguém entre homens e mulheres, mas eles e elas não aguentavam. Tentei com demônios, com vários homens. Fiz várias orgias, mas nada era duradouro, nada me satisfazia completamente, nada me preenchia, sempre me sentia insegura, então me relacionei com equinos, búfalos e mamutes…

Nessa parte do relato, os olhos de Esmeralda e de Lúcifer se arregalaram. Era difícil imaginar a cena.

O choro, neste ponto do relato, era desenfreado. Agarrada à filha, Klepoth, que não podia mais ficar de pé sozinha, continuou seus lamentos:

Nos últimos séculos, a Igreja passou a me caçar. Passei a me defender (snif), mas os homens sempre voltavam para me atacar, então comecei a matá-los. Fiquei sozinha. Quase entrei em depressão. Nos últimos anos, resolvi escravizá-los e incutir (snif) o terror que eles sempre incutiram em mulheres como eu e em mulheres inocentes que foram queimadas e mutiladas covardemente em cruzadas e julgamentos simbólicos. Era uma vingança de origem histórica. Não tive apoio nem de mulheres inteligentes e feministas, que, incompreensivelmente, iam à missa escutar o discurso de um machista por definição. Acho que elas foram doutrinadas desde pequenas e tinham medo dos pais repressores. – O choro embargado passou a ser a liberação de ódio reprimido. – Todos esses homens que aqui se encontram são aventureiros ou soldados a serviço da Inquisição. Não há inocentes aqui. – Justificou-se.

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A bruxa sentou cansada. Esmeralda e Formol se entreolharam. Não sabiam o que dizer nem como consolá-la.

O PAPA NO PARAÍSO

– Metatron, aqui está o Papa, autoridade maior da Igreja, e o principado que atuava junto a ele, Daniel.

Metatron olhou com nojo para a figura do Papa, cujo nome era Bórgia. Não fosse pelo propósito escuso que o salvamento garantia, teria punido o principado por trazer um ser humano para o Paraíso. Daniel havia salvado dos escombros o chefe da Igreja, curando suas hemorragias, embora o religioso tivesse atribuído a preservação de sua vida à Nossa Senhora de Fátima, e não à Nossa Senhora da Anunciação, Nossa Senhora Auxiliadora, Nossa Senhora da Estrela, Nossa Senhora Menina, Nossa Senhora de Nazaré, Nossa Senhora do Rosário etc. – que no final das contas e para a Igreja, pasmem, eram todas a mesma pessoa. Daniel ficou um pouco chocado por ter salvado aquela vida circunstancialmente útil para o Céu e ainda assim não receber o devido agradecimento. Segundo o Papa, pródigo em flertar com o politeísmo para garantir o aumento do rebanho, a todos agradando, Nossa Senhora de Fátima havia desviado milhares de toneladas de concreto dele, de forma a causar um ferimento que pudesse ser reparado por Daniel ou por um corpo clínico qualquer.

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Afora esse desgosto por não ter o reconhecimento que merecia, Daniel também estava muito debilitado, mal podendo fazer reverência ao senhor do Paraíso, o todo poderoso Metatron, e ao seu filho, que estava sentado à direita do pai. Daniel foi trancafiado quando da invasão à Santa Sé organizada pelos arcanjos rebeldes e pelos demônios liderados por Abigor e Moloch, sendo, pois, o Papa, a única testemunha viva da totalidade dos acontecimentos. Todos os demais serviçais e todas as freiras que “trabalhavam” na Igreja, até onde sabia, foram mortos pela fuga tresloucada dos arcanjos ou pelos demônios.

O terráqueo olhava maravilhado para todo aquele lugar incrível. Durante a viagem para o palácio do Deus honorário, viu edifícios gigantescos e tropas de anjos por todos os lados. O lugar era extremamente grande, limpo e amplo. O Paraíso era uma cidade bem arquitetada e grandiosa, desenhada pela razão, não sendo um amontoado de nuvens brancas e fofas como imaginavam as criaturas subdesenvolvidas da Terra. Ao longo da cidade havia grandes jardins coloridos, de inúmeros tipos de flores, exóticas ou comuns, que não ficavam apenas em praças e em vias principais, mas também no topo das construções e mesmo flutuando entre os anjos. Viu almas e espíritos perambulando pela cidade ao lado de anjos e outros seres celestiais que não pôde classificar. Tudo era muito bem projetado. Todas as criaturas ali eram bonitas e pareciam estar em perfeita harmonia com o ambiente. Bórgia, embasbacado, balbuciou o termo “design inteligente” e sorriu para um dos anjos que o conduzia, entretanto, o condutor o repreendeu duramente.

Tudo o que o senhor está vendo, foi fruto do conhecimento e do saber científico. Precisamos de milênios de desenvolvimento e estudo para chegar onde chegamos. Tudo o que vê foi fruto de erros, tentativas, insistência e acertos. Foi fruto de trabalho duro! Assim como a evolução da vida na Terra, que durou bilhões de anos para dar origem às ovelhas, tudo o que você vê é fruto da evolução de nosso conhecimento. “Design inteligente” não existe. Basta observar as doenças genéticas que acompanham os seres vivos, que seu aparelho reprodutor está amalgamado com o excretor, assim como o digestivo e o respiratório estão juntos, que suas axilas fedem demais, pois não há ventilação adequada, e que se forma “queijo” entre suas pernas e suas bolas.

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O Papa sorriu um pouco envergonhado, um pouco surpreso. Resolveu deixar para lá o que o presunçoso anjo falava. Ignorante. A própria existência da criatura angelical negava aquela teoria da evolução e da tentativa e erro. O “design inteligente” era uma realidade comprovada e inquestionável.

Voltando a observar a paisagem, notou também que as ruas e vias aéreas estavam movimentadas. Não sabia se isso era normal ou se eram os primeiros sinais da guerra, que, dentro de suas limitações terrenas, entendia por apocalipse, que nada mais era do que uma visão relatada, de poucas páginas, escrita por um drogado, e que, na verdade, referia-se a um antigo império que caçava membros da Igreja primitiva. De toda forma, o Pontífice não se preocupou, pois sabia que o bem venceria, visto que Deus, em sua concepção, era perfeito e tudo podia, até subverter a lógica, o tempo, a matéria e o futuro. Era, enfim, a ilogicidade lógica. Ninguém entendia seus mistérios, mas sabia Bórgia que estava do lado certo! Enfim, Deus não poderia ser derrotado. Lúcifer era tão estúpido… Iniciar uma guerra que sabia não poder vencer. Babaca, deveria ler a Bíblia.

Em suma, para onde olhava, Bórgia se admirava, pois via uma estrutura grandiosa e complexa, fruto, segundo as palavras de seu condutor, de um grande feito da arquitetura, da ciência e da engenharia. Apesar das palavras do anjo, por alguma razão, o Papa tinha certeza de que tudo aquilo era obra de seu Deus, até porque a sua visão parecia estar envolta por uma leve névoa, como num sonho.

Mas o deslumbramento maior foi quando o Papa chegou ao palácio de Metatron, ficando perante ele. O visitante, que acreditava estar diante do Homem Invisível de quem tanto falava no plano terrestre, declarou, em puro delírio e se ajoelhando, que ficou impotente durante a invasão. Penitenciou-se.

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– Não pude fazer nada! – Tremulava de medo, temendo ser punido. E fazia o sinal da cruz inúmeras vezes, em sinal de devoção. Temia se dirigir diretamente ao chefe do Paraíso, embora na Terra tivesse por hábito ler um livro que, segundo o senso comum, que não podia ser questionado, porque religião não se questionava e legitimava tudo, inclusive discriminação; era a própria palavra de Deus.

Enquanto se penitenciava, explicou, murmurando, em meio a lágrimas de emoção, que auxiliou os arcanjos e os demônios visto que não teve outra opção e porque não sabia o que estava acontecendo exatamente. Externalizava todo o sentimento de culpa e de inferioridade idealizados por sua Igreja para arrebanhar o maior número de ovelhas passivas e pobres de espírito e de riquezas materiais. Sentiu na pele o que era ter a culpa empurrada goela abaixo.

Silêncio no salão.

– Fui obrigado! Sou um simples humano que teme o Senhor. – De tão inebriado pela emoção, mal conseguia colocar a empatia para funcionar. – Os serafins e os querubins que estavam no salão começaram a rir do convidado histriônico e de sua devoção ridícula.

Justificou-se o Papa dizendo que foi coagido e humilhado. Fez um escarcéu afirmando que teve medo da morte e pediu perdão por ter sido fraco e por não ter morrido por Deus, pelo pai todo poderoso, como deveria ter ocorrido.

– Fui coagido e humilhado… Tive medo de morrer. Perdoe-me, Senhor. Deveria ter morrido por Vossa Divindade, afinal conversamos diariamente ao longo de toda minha vida. Não deveria ter duvidado do Senhor. – Dizia o religioso enquanto se mantinha curvado. Metatron olhou para os lados encabulado e surpreso. Ele nunca havia falado ou conversado com o Papa ou com qualquer ser humano, até porque os desprezava. Então, Sitael lembrou-o de que os habitantes do plano terrestre tinham o hábito de conversar com um suposto deus, por meio de seus pensamentos, pois o considerava onisciente, onipotente, onipresente, transcendental, imaterial e atemporal, mesmo não tendo prova ou indício algum de sua existência. De fato, segundo se sabia da Humanidade, os milhões de indivíduos que seguiam a Igreja eram aconselhados a, ao invés de estudar, trabalhar e pesquisar, conversar com Deus por pelo menos algumas horinhas por dia. Ainda bem que não eram bilhões de pessoas conversando diariamente com a entidade cósmica, pois certamente ela ficaria sobrecarregada e aborrecida, pensou Metatron. Os membros da seita eram aconselhados a pedir perdão por ter cometido mais um pecado, porque eram reincidentes eternos, a pedir ajuda, a pedir um lugar no Céu e a pedir que suas preces fossem atendidas ao invés de buscar concretizá-las eles mesmos.

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Metatron ficou imaginando como seria esse deus se ele realmente existisse. Imaginava que a entidade deveria ser onisciente, onipotente, onipresente (como já era apregoado em sua propaganda de Estado), transcendental, imaterial, atemporal, pessoal e necessária, mas concluía que tais características, todas juntas, não era algo possível. Com efeito, pelo menos uma parte desse Deus do qual tanto falava o Papa deveria ter uma parte de material e temporal, pois do contrário ele não poderia intervir com onisciência, onipotência e onipresença em um universo material e temporal, e, assim sendo, deveria se submeter, pelo menos na parte material de seu ser, às leis da física. Do contrário, sem possuir uma parte constituída de matéria, como intervir no universo material? Como captar os sinais de energia, sendo assim onisciente, sem um receptor material? E esses sinais deveriam estar limitados à velocidade da luz! Seriam necessários infinitos receptores para que a onisciência fosse possível, então? Se assim fosse necessário, tudo ou quase tudo que estava no universo deveria ser um receptor? Assim a característica da imaterialidade estaria afastada? E como ser onipresente, se não constituído de matéria? Não havia como se detectar a presença do Deus da Igreja pelos seres temporais e materiais! Como tinham tanta certeza de que o Homem Invisível existia? Com esses questionamentos, Metatron chegava à conclusão de que ou o deus da Igreja é onisciente, onipotente, onipresente e material e temporal ou é imaterial, atemporal, inconsciente, ausente e impotente. Perguntava-se por que essa estranha gente, de sentidos limitados, não se restringia a ficar impressionado com a beleza do universo, buscando entendê-lo, sem precisar evocar uma entidade divina para “explicá-lo”. De fato, responder à questão de onde viemos com o argumento divino só complicava mais as coisas. Não só deveríamos agora explicar a natureza e sua origem, mas também a existência de Deus. Suas motivações ou falta delas, sua origem ou falta dela, seus objetivos ou falta deles. Teria ele nascido ou surgido já complexo? Sempre foi complexo? A pergunta é relevante, porque, para criar um universo complexo, o criador dever ser necessariamente complexo. Enfim, justificar as coisas com a palavra Deus, que tudo aceitava, porque plurissignificativa, nada significando, portanto, não contribuía em nada para desvendar a origem do universo.

Bórgia, ainda em sua catarse, afirmou que pretendia se redimir de seus pecados, oferecendo toda a estrutura da Igreja (cruzados e inquisidores) e toda a informação de que dispunha (registros públicos) sobre tudo e sobre todos. Por fim, ofereceu a própria vida em sacrifício.

– Colocarei os cruzados à sua disposição, a Inquisição tornará as nuvens negras se for necessário e nossos registros públicos, com informações valiosas, estarão disponíveis aos seus seguidores.

Ué, Metatron não era onisciente? – Um anjo engraçadinho questionou cochichando nos ouvidos de outro anjo. Risadas suprimidas sobrevieram. Era a típica necessidade dos religiosos de ser e parecer bom sem, no entanto, refletir e medir as consequências de seus atos.

Com os olhos marejados e vermelhos, quase que beijando o chão e com o braço carente de cartilagem estendido em direção aos ouvintes, Bórgia disse que amava e temia Deus. Esclareceu, emocionado, que dedicou toda a sua vida ao Senhor.

– Eu te amo e te venero. Minha vida é sua. – Balbuciou o velho, em meio a uma poça de saliva e lágrimas. “Amar um desconhecido… essa gente tem problema”, pensou algum celestial do recinto.

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Depois de toda essa verborragia insana, da submissão medieval, da demonstração de respeito e de amor incondicionais, Metatron, vexado e perplexo, disse:

Parabéns humano, tu és a primeira criatura terráquea a colocar os pés no meu palácio. Espero que essa contaminação do belo e do puro se justifique, pois, do contrário, será expulso imediatamente por ter sido covarde e auxiliado o inimigo na hora que eu, seu Deus todo poderoso, mais precisei de você. – Fez uma pausa e sorriu quase que imperceptivelmente com malícia. Adorava ser irônico. Achava patética aquela demonstração de devoção.

Os olhos do religioso estavam brilhando e a essa altura já fitavam, esperançosos e diretamente, o seu Deus. Não era exatamente o que esperava, pois Metatron parecia um anjo marombado, feito de matéria bariônica, mas ele, o Papa, estava na casa de Deus, o único ser vivo que esteve lá e essa proeza começou a fazer sentido dentro de si. Nem se deu ao trabalho de se perguntar o que havia ocorrido com todos os outros crentes da Igreja que já haviam morrido, pois, em tese, já deveriam estar ali também. Estava tão tomado pela emoção que nem raciocinava. Estar diante de Deus era uma sensação única e ele era o único ser vivo a senti-la. Sua devoção ao criador havia dado certo. Finalmente ele estava no Paraíso, local do qual acreditava que nunca mais sairia. Com efeito, apesar de ter puxado o tapete de muita gente para chegar onde chegou, potencializar o genocídio da Igreja, de promover festas luxuriosas com o dinheiro dos dízimos e de se entregar aos prazeres da carne, acreditava que estava perdoado, pois, para subir aos céus, bastava acreditar no Homem Invisível. “Ele”, por algum motivo, sempre perdoava se, e somente se, as pessoas acreditassem nele. Segundo a Igreja, não era determinante para comprar a passagem para os céus ser um bom cidadão, pois sempre havia o perdão, bastando acreditar naquilo que era imposto goela abaixo pelos religiosos. Sim, o deus da Igreja era egocêntrico e seus seguidores bajuladores, qual o problema? Se pecasse, bastava se confessar com o padre. Sempre haveria um ali para passar a mão na cabeça do pecador, o que, evidentemente, estimulava-o, ainda que inconscientemente, a praticar novos ou os mesmos pecados, a raiz da corrupção. De fato, a simples necessidade de acreditar para ser perdoado e de sempre existir um religioso disponível para ouvir e perdoar era um fator de corrupção e hipocrisia.

Volte para a Terra com Daniel, invoque os humanos para nossa causa e acabe com aqueles que se aliarem à causa de Lúcifer. Não podemos deixar que os demônios matem animais e seres humanos. Precisamos deixá-los sem provisões de alimentos. Meus generais entregarão armas especiais para seus exércitos que farão com que as almas de suas vítimas sejam enviadas diretamente para cá, e não para o purgatório, como se vocês fossem nossos anjos da morte. Mostre que você é temente a Deus e cumpra sua missão.

Muitos duvidavam da existência de Deus. O próprio Papa já havia duvidado inúmeras vezes. Por anos foi mortificado pela necessidade de ignorar argumentos racionais, e mesmo os mais simples eram irrespondíveis, e pela exigência velada de muitos que o rodeavam de alguma prova da existência do Homem Invisível, porque se não houvesse prova, o que impediria as pessoas de crerem em outros deuses. Para os menos perspicazes, Bórgia pedia que provassem a não existência de Deus e para os mais perspicazes dizia que não era possível provar a existência ou a não existência, devendo, portanto, ficar por isso mesmo e cada um na sua, dando a entender que acreditar ou não era uma questão de escolha, e não de evidências. O Pontífice, inclusive, teve que brigar com grupos de feministas que, sabe-se lá porquê, diziam que Deus era uma mulher ou era assexuado. Pouco importava se existia ou não, o que importava era seu sexo ou a inexistência do gênero. Essas poucas feministas queriam corrigir inúmeras agressões da Igreja ao corpo feminino que ocorreram ao longo da história.

Bórgia vivia uma sina ridícula de dar murros em pontas de faca. Dizia-se entre os céticos que a fé impunha inúmeras provações, até a maior delas, que era acreditar em algo sem sentido, ainda que por mero condicionamento social. Era importante que Bórgia fosse teimoso para manter a Igreja, isso porque Deus não era autoevidente, motivo pelo qual, logicamente, deveria ser ensinado e, se precisava ser ensinado, não podia ser pessoal. Os religiosos sabiam que as pessoas simplesmente não tinham contato com ele, Deus, e nem o sentiam, a não ser que, em tenra idade, fossem condicionadas e lobotomizadas pela Igreja ou por imposições sociais oriundas de um passado alheio ao conhecimento e ao saber científico. Se não se manifestava, precisando ser ensinado desde a mais tenra idade, era porque não passava de uma mentira; uma lobotomia institucionalizada.

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A matança que Bórgia e seus antecedentes promoveram contra os pagãos e contra aqueles que não acreditavam na existência de um Deus, nos moldes da Igreja, não era capaz de elidir a dúvida que consumia suas entranhas, na verdade sempre foi um pretexto para se manter no comando, mas, agora, seu Deus estava ali. Ele venceu! Ele tinha razão, afinal! Tudo bem que seu Deus era material, temporal e estava lhe pedindo ajuda. Era estranho, mas, pelo menos, ele existia e era isso o que importava. Tinha a prova de que Deus existia, pois estava diante de uma figura que emanava um poder sem igual e isso era o que importava.

– Conte com a Igreja, Criador!

O Papa estava deslumbrado com tudo e fez reverência a Deus. Quando levantou a cabeça, não viu Metatron e seu séquito. Todos haviam mergulhado prédio abaixo, com exceção do filho do ditador.

Assim, com a aceitação tácita de Metatron, a Igreja se aliou a um regime totalitário e intolerante.

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CONTINUA…

Leiam A Nova Teogonia Livro I e Livro II, de minha autoria.

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Um pensamento sobre “Lúcifer e a conspiração dos arcanjos – Parte 13

  1. Adonis disse:

    Olá, estou passando para avisar que nesta semana vou mandar imprimir algumas cópias deste livro, Lúcifer, mas não deixarei de publicar a história aqui. Esta é a minha contribuição para a Humanidade – infelizmente não virei cientista, então minha forma de ajudar é escrevendo. Vou dar alguns exemplares para alguns amigos, em especial para meu amigo judeu que é a razão imediata deste livro, e vender a preço de custo ou mesmo abaixo dele os demais para as outras pessoas (farei permuta também, rs). Não vou mandar fazer muitas cópias desta vez, pois dá trabalho para vender (é mais fácil escrever um livro do que vendê-lo) e porque não tenho um “mecenas” para me financiar nem arranjar contratos.

    Demorei para publicar este capítulo, pois ganhei um videogame recentemente (XBOX ONE) e acabei me viciando em um jogo, rs. Ele chama SMITE e é sobre mitologia antiga, não sobre mitologia judaico-cristã. O jogo tem tudo a ver com “A Nova Teogonia”, embora não se aprofunde muito no tema mitologia e malgrado se limite a promover lutas entre os deuses. É tão bom mudar a rotina e sair de um contexto que não progride e não se altera ao longo dos anos…

    De todo modo, muito em razão desse jogo, estou pensando em escrever algo sobre as mitologias chinesa, maia e romana no porvir, pois não abordei diretamente elas na “A Nova Teogonia”.

    E sobre “A Nova Teogonia”, em breve irei postar um trecho aqui. Além disso, a boa notícia é que das poucas pessoas que leram essa história, apenas minha mãe não gostou. Ela disse que uma amiga professora está adorando e que irá divulgar no blog dela. Tive inclusive parecer positivo de um arqueólogo.

    Vou na editora nesta semana e pedirei para abaixar o preço do livro no site da editora. Está muito caro. Eu mesmo não compraria um livro de um autor desconhecido e sei que pessoas com muito dinheiro, mas muquiranas, não comprariam também. Aliás, estas não compram mesmo conhecendo o autor e gostando da história.

    Enfim, abrirei mão de lucros e mesmo de venda a preço de custo, em determinadas circunstâncias, pois quero “A Nova Teogonia” circulando por aí =) No futuro farei o mesmo com “Lúcifer e a conspiração dos arcanjos” e com os demais livros que pretendo escrever, inclusive, com a “Space Opera” que dedicarei para meu pai, um amante da astronomia, assim como eu. Ele merece, pois sempre me ensinou a estudar e a ser resiliente.

    Bom, vou jogar SMITE, pois esta semana tenho muito trabalho. Não tenho tempo para ficar olhando o teto e fazendo poesias.

    Abraços!

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