Lúcifer e a conspiração dos arcanjos – Última Parte (Em comemoração ao dia do orgulho ateu!)

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Uma emboscada. – Comentou o pequeno anjo. – Como no passado. – E indicou o horizonte distante, no qual Metatron e uma pequena comitiva de potestades, querubins e serafins surgiram. A batalha final se daria ali, à margem do Lago de Fogo e dos exércitos. O necromante, Esmeralda e o anjo assistiriam de camarote. O necromante, então, sentiu as mesmas forças que havia sentido durante a debandada do palácio de Lúcifer, quando foi salvo pelos arcanjos. Elas estavam ali, perto de Lúcifer e de Metatron.

 

– O que devemos fazer? – Repetiu mais uma vez Esmeralda.

 

– Diga qual é o plano, Penélope. – Suplicou Lúcifer.

 

Penélope ignorou Esmeralda e olhou diretamente para o necromante, o que deixou a moça indignada.

 

Meu papa disse que você…

 

– Morram espiões! – Gritou um demônio de Lúcifer alçando a espada para descê-la em direção aos intrusos.

 

Entretanto, Esmeralda, sempre muito rápida e sagaz, com seu instinto de sobrevivência apurado, berrou como nunca havia berrado. O demônio, atingido pelas fortes ondas sonoras, caiu no chão e não conseguiu se levantar, pois ficou tonto. O necromante, que não era lá muito rápido para tomar uma decisão gravosa, porque pensava demais (estava refletindo se deveria matar aquele demônio ou se todos deveriam fugir), ouviu outro grito. Era o seu anjo da guarda. Penélope, assustada, havia voado assim que viu o demônio, expondo-se, com isso, a Satã e seus sequazes, bem como à comitiva de Metatron que se aproximava rapidamente. Belzebu, um dos demônios mais poderosos do Diabo, partiu em direção à menor e atirou seu enxame de moscas contra o anjo. Não admitiria intrusos ali. Seria o fim dela, não fosse a “Uma mensagem para ti” de Gabriel. O arcanjo apareceu repentinamente e pretendia salvar a vida daquela que não devia ter sido salva; daquela que devia ter morrido com seu filho em campo de batalha.

 

Fuja, filha de Miguel! Não o deixe sozinho. – Gritou o combalido arcanjo, rodeado por moscas que dilaceravam sua pele. – Fuja! – E o arcanjo partiu para cima de Belzebu, um querubim caído, com lágrimas nos olhos.

 

– Ele não tem chance. – Balbuciou o necromante decepcionado, olhando para Gabriel.

 

– Formol, acabe com o demônio! Acabe com o demônio. – Desesperou-se Esmeralda.

 

Lúcifer se voltou para o inimigo que se reabilitava rapidamente. Era agora. Depois de São Paulo, o necromante novamente mataria alguém. Não tinha como não fazer aquilo. Era matar ou morrer. Respirou fundo. A criatura transtornada havia se levantado para atacar ele e Esmeralda.

 

– Malditos humanos! Não passam de comida! – Gritou o ofendido lacaio do Diabo.

 

A esfera de energia verde do necromante cresceu em suas mãos. Era a mais poderosa esfera de energia que já havia criado. Ele mesmo se surpreendeu. Atirou. Uma grande explosão esverdeada se sucedeu, mas o demônio não foi morto pelo necromante. O inimigo havia sido morto por Miguel. Este apareceu e transpassou a cabeça do demônio com um golpe preciso, sem lhe dar qualquer oportunidade de defesa, e, de quebra, a “Retaliadora de demônios” bloqueou o golpe de Trevinhas.

 

Sofia, esposa de Miguel e mãe de Penélope, recolheu a filha que ainda estava estática em pleno ar, trazendo-a para junto do necromante e de Esmeralda.

 

Miguel, sem nada falar, foi auxiliar Gabriel que estava sendo devorado vivo pelas moscas de Belzebu.

 

Use seu poder. Levante todos os mortos que estão nesta área e ataque Lúcifer e Metatron, agora! – Determinou Sofia.

 

Esse é o plano Trevinhas. Ah!!!!!!!

 

Uma estrondosa explosão varreu uma vasta área do Inferno. Metatron e Lúcifer estavam em pleno combate. E demônios lutavam contra demônios, anjos contra anjos e um contra os outros. O campo de batalha estava confuso. Ninguém sabia exatamente o que ocorria.

 

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– Mas, mas… Tentava entender o necromante.

 

– Obedeça-a. – Berrou histérica Esmeralda que começou a lançar suas ondas sonoras em direção a qualquer um que se aproximasse deles, ainda que não os visasse como alvo de agressões.

 

O necromante obedeceu. Levantou inúmeros esqueletos flamejantes e os corpos que acabavam de tombar para que lutassem por ele. Invocou as almas que ali estavam. Sentiu-se poderoso, pois agora podia manipular centenas de corpos ao mesmo tempo.

 

– Quem eu ataco?

 

Belial, Belzebu, Moloch, Mahasiah, Lelahel, Laoviah, Hahahiah, Yeslel, Mebahel, Achaiah, Lúcifer e Metatron. – Disse Penélope precisa.

 

– Quem?! – O necromante entrou em desespero. – Não sei quem é quem. São muitos e estão em pleno combate corpo a corpo!

 

É aquele, não aquele! – Tentava indicar Penélope em meio à confusão da luta campal que desenrolava diante de si.

 

– Aquele ali sozinho?

 

Não, aquele é Belfogor!

 

– E aquele que está criando ondas gigantescas no Lago de Fogo? Eu o conheço! – Exclamou perplexo.

 

Não! Aquele é Abigor!

 

– Mas ele estava com Lúcifer na Santa Sé! – Estranhou o necromante.

 

Ataque o que está lutando contra Gabriel e Miguel! – Ordenou Sofia impaciente com a confusão que o necromante e Penélope estavam fazendo e ansiosa para que seu marido fosse auxiliado.

 

E assim fez o necromante. Lançou centenas de cadáveres, esqueletos e almas contra Belzebu, ajudando Miguel e Gabriel, quase derrotados. Logo também invocou sua esfera de energia verde e a lançou contra o grande demônio. Esmeralda saiu do esconderijo e foi para perto da luta entre os arcanjos e o querubim caído. Gritou novamente. Sofia se levantou e voou para auxiliar o marido, empunhando a “Sabedoria Feminina”.

 

Filha! Não saia de perto do necromante e não largue a sua Lança do Destino.

 

A luta contra Belzebu foi árdua. Miguel, Gabriel, Sofia, Esmeralda e o necromante despejavam tudo o que podiam na besta, mas Belzebu era muito poderoso. Era um dos sete príncipes do Inferno, integrando a elite daquele lugar, e ostentava o título de senhor da gula. Gabriel tombou extenuado. Ele estava quase sem pele. Era uma cena horrível. Além disso, a “Retaliadora de Demônios” de Miguel havia se quebrado. A “Gula putrefata” era muito poderosa e não podia ser derrotada por uma espada de um arcanjo. Miguel indefeso, pronto para morrer, ficou diante do inimigo, quando ouviu:

 

Miguel, perdoe-me. Lúcifer, use-me agora!

 

Era Gabriel. O arcanjo Miguel olhou para o amigo agonizante e o viu tirar a própria vida. A “Uma mensagem para ti” atravessou o coração do próprio dono.

 

O necromante, com lágrimas nos olhos, não pensou duas vezes. Logo que sentiu a disponibilidade do corpo o fez alçar voo e lançou-o como um kamikaze contra Belzebu. O ataque suicida trouxe grandes dificuldades para o príncipe do inferno que acabou ferido. Suas moscas carnívoras eram inoperantes contra uma criatura que não sentia dor. Mesmo assim, o corpo de Gabriel não foi suficiente para acabar com a ameaça. A manobra apenas deu mais tempo para aquela aliança pontual.

 

Eu te mato, humano desprezível. – Rangeu os dentes Belzebu.

 

Antes que pudesse dirigir suas moscas contra o necromante, um grito repercutiu por todo o Inferno. Metatron acabara de ser derrotado pelo querubim. A “666” arrancou a cabeça de serafim. Lúcifer havia vencido o deus do Paraíso. Imediatamente, premido pela necessidade de prender rapidamente a alma do serafim, antes que ela fugisse, o querubim a extraiu rapidamente do corpo de Metatron e a aprisionou no Lago de Fogo, jogando-a sobre ele. Vitória! Lúcifer havia vencido. Metatron finalmente caiu. Lúcifer, gravemente ferido, e Belzebu sorriram, mas logo notaram algo de errado: Abigor, Azazel e Belfogor estavam lutando lado a lado com Cahethel e Haziel contra Lelahel, Laoviah e Hahahiah. Também notaram que Belial e Moloch, seus aliados, e Mahasiah, Yeslel, Mebahel e Achaiah, aliados de Metatron haviam sido mortos pelos conspiradores que ainda lutavam e por alguns que já haviam tombado também.

 

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– Traidores! Conspiradores! – O querubim percebeu imediatamente que tudo havia sido uma armação de um grupo de demônios e celestiais para que ele e Metatron se destruíssem.

 

O querubim se encheu de raiva e, para liberar Belzebu, atirou uma poderosa bola de fogo incandescente contra o desarmado Miguel, o que o fez despencar do céu em direção ao Lago de Fogo. Sofia, desesperada, mergulhou atrás do marido. Se lá caísse, não haveria volta para Miguel. Ela conseguiu evitar que Miguel caísse no tenebroso lago, entretanto marido e mulher caíram desacordados na beira da praia, depois de resvalarem na superfície da lava durante o resgate heroico.

 

Pega o corpo do Metatron, assim como você fez com o corpo de Lúcifer.  – Gritou Penélope. – Esse é o plano “B”. Ajude Abigor, Azazel, Belfogor, Cahethel e Haziel antes que Lúcifer os mate. – Suplicou enquanto iniciava seu voo em direção aos pais abatidos. – Eles não vão conseguir sozinhos.

 

Com efeito, apesar de Abigor, Azazel, Belfogor, Cahethel e Haziel estarem vencendo Lelahel, Laoviah e Hahahiah, que com a queda de seu mestre, lutavam pela própria vida, seriam facilmente derrotados por Lúcifer e Belzebu, pois teriam que se dividir e enfrentarem uma potência inigualável.

 

Morra traidor! – Falou Lúcifer para Abigor, fincando a “666” nas costas do antigo aliado que havia acabado de derrotar Lelahel. O Diabo achava que os conspiradores estavam todos no Paraíso e estavam todos a seu favor. – Traidor! – A lâmina da espada saiu gloriosa da barriga do demônio, enquanto ele deixava de ter a aparência demoníaca para voltar a ter a aparência de um celestial.

 

Retirada a espada de suas costas pelo algoz, Abigor, em prantos, voltou-se lentamente para seu antigo amigo e lhe disse:

 

Não és merecedor do poder que tem. Tu és uma aberração, assim como Metatron. Não és diferente dele. Ninguém merece tanto poder. Deuses não devem existir. São todos ruins. – E deixou a “Guerra infinita” cair de suas mãos. – Não queria que tivesse acabado assim, amigo. – E logo o corpo de Abigor mergulhou em direção ao Lago de Fogo, para lá ficar eternamente.

 

Belzebu, que também havia voltado a ter o belo aspecto de um celestial, animado, foi travar mais uma luta. Derrotaria os conspiradores com o apoio de Lúcifer de uma vez por todas.

 

Lúcifer, o querubim, sorriu. Agora seria Deus, líder absoluto do Paraíso. Muitos querubins e serafins haviam caído ali, o que significava que parte de uma possível oposição havia sido eliminada para sempre. Tolos! Com a derrota de Metatron, emergiria com mais força. Poderia, com isso, acabar com o rodízio de serafins no poder para se tornar não apenas um Deus honorário ou honorífico, mas Deus em sua plenitude. Metatron havia sido derrotado e os demônios do Inferno estavam voltando a ser anjos. A maldição de Metatron havia sido quebrada com sua queda e Lúcifer teria a gratidão eterna dos demônios e unificaria todos os anjos sob seu reinado eterno. Essa grande vitória daria mais poderes para ele do que os que tinha Metatron. Estenderia seu poder além dos limites do Paraíso. Tornaria os seres humanos ovelhas de verdade, invadiria outros mundos e acusaria e julgaria seus pares como a Inquisição humana. Não toleraria que outras potências como ele ou Metatron surgissem. Não toleraria questionamentos.

 

Para tanto, bastava acabar com Azazel, Belfogor, Cahethel e Haziel, com a ajuda de Belzebu e Laoviah e Hahahiah, antigos querubins aliados de Metatron que ali mesmo já sinalizavam uma aliança com o novo Deus, visto que estavam prestes a serem abatidos pelos conspiradores. Laoviah e Hahahiah, ao lado de Lúcifer e Belzebu, derrotariam facilmente Azazel, Belfogor, Cahethel e Haziel.

 

Lúcifer levantou a “666” e sorriu confiante, mirando os conspiradores, mas de soslaio viu uma bola de energia verde se aproximando dele. Ela era muito luminosa. A “666” o protegeu do impacto, causando uma grande explosão de luz que iluminou todo o Inferno. O querubim, então, olhou irônico para a origem daquela esfera de energia. Afastou toda a poeira verde, constituída de luz e almas, que estava em sua frente, jogando-a para os lados. Viu o necromante próximo à praia, sozinho. Lúcifer vs Lúcifer. O diabo, então, estendeu o braço para alvejar o oponente com sua bola de fogo incandescente. Notou que o necromante estava muito debilitado. Quase morto. Havia gasto muita energia para mandar aquela esfera de energia verde inútil.

 

Rodeado pela poeira verde, o Diabo destruiria toda a praia, levando à morte Miguel, Sofia, Penélope e Esmeralda. Nada poderia ficar entre ele e o poder absoluto. Devastaria tudo, de forma que não pudesse mais desviar a concentração dos últimos inimigos relevantes que sobraram.

 

Morra, humano!

 

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Porém, o poder não foi lançado, pois a “O poder das sete estrelas” atravessara o coração de Lúcifer. Logo, os braços do corpo de Metatron passaram por debaixo dos braços de Lúcifer, abraçando-o fortemente, e conduziram o querubim para um mergulho sem volta, que desceu como fogo, para o fundo do lago, de onde nenhum deles poderia sair.

 

O necromante caiu no chão desacordado. Sua bola luminosa de alma e luz verde criou, após explodir na frente de Lúcifer, um véu de neblina que impediu o novo Deus de ver o corpo de Metatron, que havia sido tomado pelo necromante para dar o golpe final no Diabo, aproximar-se. Controlar aquele corpo monstruoso e sem cabeça, utilizando-se de sua força e velocidades máximas, consumiu todas as energias do necromante.

 

Belzebu, machucado, fugiu. Laoviah e Hahahiah se renderam e alegaram que apenas cumpriam ordens.

 

No Inferno, houve uma onda de alegria jamais vista. Os demônios estavam voltando a ser anjos após a queda de Metatron e essa notícia se espalhou rapidamente nas alturas. Os serafins que sobreviveram à batalha do Lago de Fogo se encarregaram de informar a todos que Lúcifer e Metatron haviam sido contidos. A guerra havia acabado antes mesmo de começar. O totalitarismo de Metatron também acabara e o império de violência de Lúcifer jamais seria iniciado.

 

Apesar das mágoas e da beligerância à flor da pele, não houve o confronto entre o gigantesco exército do Paraíso e o gigantesco exército do Inferno. A odiosa e inexplicável separação que dividia anjos e demônios, como se fosse uma querela religiosa em que se buscava saber qual era o amigo imaginário mais poderoso, havia acabado. No final das contas, apenas os seres humanos haviam sido mortos aos milhões, porque diferente do que se apregoava na Terra, de forma narcisista, os seres humanos não eram criaturas especiais. Sequer tinham aptidão para se considerarem as criaturas preferidas ou as escolhidas pelo suposto Deus, conforme apregoavam os religiosos daquele planetinha, em razão de suas graves limitações cognitivas. E frente à existência dos celestiais, os terráqueos não poderiam falar que o homem, e não a mulher, era a obra mais perfeita de Deus.

 

Com o fim da rivalidade entre Metatron e Lúcifer, ficou no ar que os anjos caídos, aos poucos, voltariam para o Paraíso e o Inferno tornar-se-ia um anexo do Céu. Famílias divididas pelo muro da intolerância e do totalitarismo se reuniriam novamente. Haveria uma difícil integração cultural, econômica e política entre os que nunca caíram e os elevados, como ficariam conhecidos por algum tempo os antigos anjos caídos. O poder seria plural e dividido entre a primeira hierarquia. Não haveria mais diferenças políticas substanciais entre os membros da segunda e da terceira hierarquia. Além disso, a princípio, não haveria mais intervenção nos desígnios da humanidade. O legado de Metatron foi destruído, assim como sua cabeça decepada, que, por precaução, também foi jogada no Lago de Fogo, e a memória de Lúcifer foi apagada.

 

NA TERRA

 

Após cessada a caçada dos seres humanos por anjos e demônios, Hermes e Al Gore levaram um contingente de pessoas debilitadas, machucadas, feridas e agonizantes para um templo, chamado de a “Casa dos morrediços”. Era o estabelecimento administrado por uma mulher velha, branca, de olhar bondoso, frágil e muito bem relacionada com as elites da sociedade. Hermes havia ouvido falar nela. Era tida como uma santa na Terra e recebia muito dinheiro dos governantes do mundo mais civilizado, embora ela atuasse no mundo subdesenvolvido, repleto de pessoas de cor. A mulher abrira várias franquias pelo mundo para evangelizar e domar os ímpios e ensinar os crentes com esse dinheiro. Tinha a alcunha de Madre de Lamúria, embora nunca tivesse estado lá. Hermes teve a ideia de levar os sobreviventes para aquela postulante ao cargo de santa, pois todos diziam que ela não negava ajuda para ninguém.

 

Chegando ao local, o ladino e as poucas dezenas de pessoas que o seguiam, dentre elas muitas freiras, foram pela madre recepcionados.

 

– Madre, oi, meu nome é Hermes, tudo bem? – Disse apressado. – Precisamos de ajuda e tratamento médico urgente para essa gente. Há pessoas com hemorragias e pessoas com infecções graves, pneumonias e necroses. Eu e Al Gore podemos ajudar a tratá-las devidamente. Tenho alguns conhecimentos clínicos básicos e o druida conhece muitas ervas medicinais.

 

A mulher levantou o braço e pediu silêncio. E logo todos aqueles que estavam atrás de Hermes se ajoelharam perante a mulher. A madre então mandou eles se levantarem e a seguirem. A procissão de miseráveis seguiu sua amada santa para o interior da “Casa dos morrediços”.

 

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Todos entraram. Hermes e Al Gore foram os últimos. Ao olharem o ambiente ficaram chocados. Havia dezenas de pessoas no chão, deitadas, morrendo, sem os mínimos cuidados básicos.

 

– Aquele homem está tentando se levantar. – Exclamou Hermes.

 

– Ele não pode levantar. Ninguém pode. – Interveio a madre.

 

– Ele está sofrendo! Al Gore, pegue aquele anestésico natural.

 

– Não! – Disse a madre, um tanto peremptória. – A dor é um presente de Deus. É uma forma de purificação. Aqui só damos analgésicos naturais e água. – Explicou a beata que gesticulou para que um homem fosse orar ao lado do homem moribundo.

 

– Mas…

 

– Aquela mulher está deitada na própria urina! – Apontou Al Gore. – E tem uma infecção enorme na perna. Leve-a para amputar a perna, antes que seja tarde demais. – Sugeriu o druida.

 

– Se vale para um, vale para todos e isso geraria gastos e muito trabalho. Todos devem ficar onde estão. Dor é purificação. – Respondeu com suavidade a mulher.

 

– E aquela grávida está agonizando. – Disse Hermes indignado. – Precisamos fazer um aborto!

 

– Não! A inocência daqueles que não nasceram não pode ser retirada. Ambos devem sofrer a dor. – Respondeu a mulher.

 

– Mas você deve curar as pessoas! Preservar a vida delas. A mulher e o bebê vão morrer. – Transtornou-se Hermes que teve tanto trabalho para salvar as poucas pessoas que ali trouxera. Elas teriam aquele mesmo tratamento amador e ineficaz que certamente levaria todos à morte.

 

A madre, repentinamente, sentiu uma dor na barriga e disse para uma de suas criadas:

 

– Aquela dor novamente! Leve-me para o doutor, em Bologna. – Bologna era a cidade com a medicina mais avançada daquele mundo. – Pegue vinte moedas de ouro para pagá-lo. – E logo uma multidão de miseráveis agonizantes, crentes de que estavam sendo tratados pela santa, vieram rezar pela saúde dela.

 

– Leve os enfermos com os problemas mais graves pelo menos! Há muitos que podem ser salvos com medidas simples. Com todo esse dinheiro muitos podem ser salvos! – Desesperou-se o ladino. Aquilo era um genocídio. Nem mesmo a medicina preventiva era observada ali. Preceitos básicos de higiene eram ignorados. As servas da madre não tinham qualquer qualificação para estarem ali.

 

Então Hermes entendeu que a imagem daquela mulher era usada pelas elites como uma forma de dominação social. Ao mesmo tempo em que era considerada como santa pelos ignorantes, servia aos interesses mais conservadores da sociedade, a quem bajulava, e como uma forma de desencargo de consciência dos ricos. Era só dar dinheiro para ela e a classe rica sentia que fazia algo pelos pobres. Entretanto, o destino de suas doações não era fiscalizado e o dinheiro acabava revertido para a Igreja continuar seu trabalho de evangelização, não para os pobres. Em troca, a madre ganhava a alcunha de santa viva, embora também sujeita a doenças e à força do tempo. Também ganhava benesses e viagens, além de ter meios para expandir e levar a adoração pela dor e pela morte a outros.

 

A madre virou as costas para o ladino e foi levada por algumas de suas seguidoras.

 

Hermes, aproveitando-se de que a mulher havia ido embora, suplicou para uma das seguidoras da madre que ali ficou:

 

– Podemos ajudar! Podemos salvar essas pessoas.

 

– Não precisamos de ajuda. Damos conforto às pessoas.

 

– Assim vocês estão matando pessoas inocentes. Isso é loucura! Estão negando a própria vida humana. – Insistiu Hermes.

 

– Gente como a gente não faz isso, somos honestas e dignificamos Deus. Retire-se e nos deixe em paz.

 

Hermes saiu dali horrorizado e impotente. Ali, um mero corte na pele era sinônimo de morte. Aquele era o pior tipo de matança que existia, pois as próprias vítimas, imersas em ignorância e fascinadas pela propaganda religiosa, entregavam suas vidas à falta de cuidados, acreditando que a dor era um presente de Deus, como afirmava o rosto pacífico e acolhedor da madre.

 

O druida sacou algumas ervas medicinais de seus bolsos e bolsas. Pretendia ajudar as pessoas que ali estavam. Algumas tinham alta possibilidade de serem salvas. Não se importaria com aquelas mulheres. Nada poderiam fazer contra ele. Pediu, então, para que uma das ajudantes da madre trouxesse água quente. Não obteve resposta. Outras ajudantes da madre começaram a chegar e todas elas empunhavam uma cruz. Rezavam obstinadas e com cada vez mais fervor religioso. O druida, temeroso e ofendido, retirou-se dali, pois se sentiu excomungado. Não teria apoio nem mesmo dos enfermos.

 

Al Gore irritado seguiu o amigo impotente, lembrando que frequentemente curava os animais das florestas. A porcentagem de cura era de quase 100%. Já protegidos pela floresta, ambiente natural do druida, Hermes explicou a Al Gore que antes da Igreja, pessoas como o druida eram tidas como sábias, visto que vinculadas à natureza, mas depois foram demonizadas e acusadas de bruxaria, porquanto alteravam o curso natural da vida com sua medicina à base de ervas e substâncias provindas do meio ambiente. Era uma forma de controle social sem sentido da Igreja, visto que os religiosos atribuíam a culpa por tudo aquilo que não compreendiam e que lhes parecia inadequado àqueles que tinham conhecimentos medicinais oriundos da natureza, não acessíveis ao clero, porque os membros da Igreja não pesquisavam, não estudavam e não ouviam ninguém a não ser eles mesmos, que passavam o dia orando, enfurnados dentro de templos escuros e insalubres. Pessoas como o druida, normalmente mulheres, utilizavam-se de grandes panelas e caldeirões para fazer temperos, medicamentos e chás e, por isso, foram marcadas, ganhando a alcunha de bruxos e bruxas.

 

Ambos igualmente decepcionados, resolveram procurar o necromante e Esmeralda. Torciam para que ambos estivessem bem. Queriam saber o que havia acontecido. Tinham a impressão de que o mundo fora abandonado por anjos e demônios repentinamente.

 

Nas ruínas da Santa Sé

 

O Papa Bórgia retornou à Terra alguns dias após o confronto titânico entre as duas maiores potências que existiam, pois o Céu estava cheio de problemas sucessórios e populacionais para resolver. O Paraíso não precisava mais de seus serviços. Os principados foram orientados a instigarem os líderes terráqueos a pararem a matança daqueles que não cumpriam os desígnios do caído Metatron, o que deixou os governantes e religiosos um pouco decepcionados, e as armas celestiais foram recolhidas (e quem não as devolvia era espancado ou morto). Ainda assim, demorou muito para a sangria desatada findar, pois havia interesses mesquinhos em jogo, bem como antigas rivalidades sendo resolvidas. A sede humana de sangue era muito grande.

 

Enfim, Bórgia foi trazido por anjos e desceu em meio às ruínas da Santa Sé. Havia muita gente ali naquele momento, orando e rezando, esperando alguém salvá-los ou dizer o que deveriam fazer. O Pontífice, conhecedor de seu público, olhou para a multidão de forma maliciosa. Seus seguidores estavam todos admirados e maravilhados, pois seu líder espiritual havia voltado do céu, carregado por anjos. Muitos choraram compulsivamente e outros se ajoelharam, pois sabiam que suas crenças estavam certas. Finalmente tinham uma prova da existência de Deus para esfregarem no rosto dos poucos céticos que tinham coragem de se declararem ateus. “Quem ri por último, ri melhor”, pensavam. A crença de que deveriam viver se culpando, porque religião, no final das contas, é só isso, ouvindo a palavra do Papa e de um bando de religiosos, era verdadeira. Tinham certeza de que Deus preferia aqueles que se martirizavam e que oravam àqueles que questionavam, pensavam, pesquisavam, estudavam e trabalhavam. Era tudo passageiro mesmo.

 

Bórgia sentiu isso em sua população. Há alguns anos vinha pensando em buscar cientistas e dizer que todas as teorias cientificas eram compatíveis com Deus, mas tal proceder tinha o perigoso potencial de esvaziar o significado de Deus, tornando-o mais plurissignificativo do que já era, o que certamente descontentaria as alas mais conservadoras da Igreja, que eram as mais numerosas e mais ricas. No entanto, Bórgia percebeu que mais do que nunca, as ovelhas, como os celestiais chamavam os seres humanos, estavam em suas mãos. Estava fácil. Teria poder absoluto. Seria praticamente um Deus na Terra. Ainda assim, o Papa hesitou. Ele lembrou da conversa que teve com o filho de Metatron há alguns dias:

 

EU SOU O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA!

 

Tu és o líder religioso daqueles que seguem minha palavra?

 

Jesus… – Murmurou emocionado o Papa.

 

Está disposto a largar tudo para ser meu seguidor, como fizeram os meus apóstolos?

 

Sim. – Respondeu o Papa com os olhos brilhantes.

 

Quando desci à Terra, queria transmitir meus ensinamentos, só que não pude terminar meu trabalho.

 

Use-me! – Gritou histérico o interlocutor, em absoluto sinal de reverência. – Tu és meu pastor e nada me faltará.

 

Jesus ficou orgulhoso e feliz. Gostava de ter o ego massageado. Sempre queria que os celestiais e os humanos seguissem seus ensinamentos, mas há muito isso não acontecia, em razão do totalitarismo de seu pai e da repulsa de Metatron pela Humanidade.

 

Venha, vamos andar um pouco.

 

O Papa o seguiu. Notou que Jesus tinha asas como todo e qualquer anjo, e não eram muito imponentes como as que havia visto em outras criaturas. Além disso, a tese da consubstancialidade era falsa. Ficou um pouco decepcionado, havia brigado tanto por esse entendimento. Inclusive havia desenterrado um desafeto que o humilhou anos antes de se tornar Papa apenas para dizer ao cadáver que a tese da consubstancialidade prevaleceria. Deixando as memórias de lado, para Bórgia, o importante era que Jesus existia e, sobre a consubstancialidade, pensaria em algo depois, pois não daria o braço a torcer, como todo bom religioso.

 

Sabe, desci à Terra para ensinar a um determinado povo exclusivista, que se achava especial, a ser coerente e se respeitar. Tentei ensinar que o que queres que os homens façam por ti, deve ser feito igualmente para eles. Era parte do meu trabalho de sociologia na faculdade. Queria demonstrar que os seres humanos era uma raça que tinha potencial.

 

Os olhos do Pontífice se arregalaram. “Trabalho de sociologia?”

 

Notei que os membros daquele povo eram mais capazes de se respeitarem e de tornar a raça humana mais evoluída, pois já estavam abandonando o politeísmo, cultuando apenas dois deuses. Depois de algum tempo e de muito sangue, o deus Baal foi esquecido e eles deram um passo na evolução: o monoteísmo.

 

O religioso sorriu, porque o monoteísmo era a verdade.

 

– Tinha que ser eles! No entanto, o Deus cultuado tinha graves falhas de caráter: tinha um forte ciúme de outros deuses tribais, baixa autoestima, era sociopata, manipulador e incendiário, conforme demonstrado no antigo testamento.

 

O Pontífice nada entendeu.

 

Sim, porque depois do monoteísmo, logicamente, vem o ateísmo, que é o estágio ético e moral mais avançado de um povo, como ocorre aqui no Paraíso.

 

Choque. O Papa começou a suar frio.

 

Aliás, aqui a religião foi banida e o livre-arbítrio deve ser justificado, sendo tudo passível de questionamento. Só a razão, a filosofia, o método e a ciência reinam. A religião e a crença no sobrenatural davam muitos problemas e geravam mortes desnecessárias.

 

Livre-arbítrio? Posso crer no que eu quiser, não posso?

 

Sim, mas arque com as consequências. Se acredita em algo irracional e absurdo, deve suportar os questionamentos racionais, pois é sabido e intuitivo que aquele que acredita em algo absurdo, faz coisas absurdas. Além disso, não é possível combater irracionalidade com mais irracionalidade, isso gera morte, membros quebrados e desinteligências. Aqui no Paraíso não aceitamos crenças, que são absurdas por natureza, pois não queremos cruzadas, atentados terroristas e julgamentos pelos acusadores com base em “verdades”. Nossos problemas aumentariam muito se assim fosse. Ah, e livre-arbítrio desde que acredite em Deus não é livre-arbítrio…

 

Mas tu não desceste à Terra para se martirizar por nós e nos salvar? – Perguntou embasbacado, como se o chão tivesse sido retirado debaixo de seus pés. Estava encurralado. Jesus falando essas coisas para ele. Era humilhante.

 

Hã?

 

Tu não morreste na cruz? – E mostrou a cruz pendurada no pescoço, com a imagem de um homem morto e preso pelos pulsos nela.

 

Jesus fez cara de nojo. Reprovava a glorificação daquele símbolo de tortura. Acreditava ser estranha aquela necessidade humana e primitiva de ter um salvador. Morrer por um bando de marmanjos? E ainda torturado? Aquele culto ao sacrifício humano era desagradável. Uma pessoa fora daquele contexto certamente reprovaria este símbolo religioso, visto ser depressivo e de evidente mau gosto. Além disso, a representação da morte na cruz estava equivocada. Não havia sentido pregar as palmas da mão, pois certamente se rasgariam com o peso do corpo; os pés eram colocados de cada lado da estaca, não um sobre o outro; e antes da crucificação, apenas a parte da cruz que ficava na horizontal era carregada, pois a estaca ficava permanentemente fincada no chão para ser reutilizada. O filho de Metatron resolveu não contar isso, pelo menos por ora, porque sabia que religiosos eram teimosos, porque os inúmeros equívocos bíblicos eram ignorados e porque diriam que o importante é o significado ou mensagem do texto.

 

 

 

Se fosse o Deus em que eles acreditavam, o filho de Metatron ou os perdoaria de imediato ou faria com que eles mesmos expiassem por seus pecados. O pior era que as ovelhas achavam que Jesus e o Deus onipresente, onipotente e onisciente deles eram as mesmas pessoas, o que levava à conclusão de que Deus era masoquista, pois se martirizou na cruz sem necessidade, que Ele se preocupava com os pecados de um povinho primitivo e que necessitava de atenção de sua própria criação, que ficava escondida em uma das bilhões de galáxias do Universo em meio a bilhões de estrelas, acompanhadas de trilhões de planetas e luas. De fato, nada disso fazia sentido, sendo, portanto, um comportamento estranho, quiçá, uma patologia.

 

Na verdade, não fui eu quem foi crucificado. – Sorriu vexado, voltando de suas reflexões. – É uma longa história, mas… – Lembrou-se do homem mulato que foi em seu lugar, nunca entendendo porque ele foi retratado como um branquelo modelete de olhos azuis.

 

E os milagres, os ensinamentos, a ressureição, o perdão? Milhões acreditam em tu. – Desesperou-se o Papa.

 

Jesus parou. Lembrou saudoso dos truques de ilusionismo para fazer milagres (não romper a tensão superficial da água foi o milagre mais trabalhoso) e da base filosófica que usou para se destacar entre centenas de outros candidatos, também chamados Jesus, nome comum à época, a salvador e dono da “verdade”. Lembrou-se de que teve ajuda da imaginação daquela gente desocupada e de que a verdade era a história ou a opinião que sobrevivia. Recordou-se dos testemunhos de sua ressureição, dados por mulheres que, naquela época, eram analfabetas, discriminadas, histéricas e marginalizadas, tanto ou mais como hoje.

 

Com efeito, a Bíblia, de onde derivavam suas lendas, era um conjunto de retalhos de evangelhos escolhidos ou confeccionados por autoridades eclesiásticas ou mesmo colocados de última hora no livro “sagrado” por algum espertalhão ou por alguém vaidoso e que raramente retratavam o que de fato havia ocorrido. Ele mesmo havia se surpreendido com algumas histórias e frases suas… É certo que há uns trezentos anos, houve um concílio que escolheu, democraticamente, quais evangelhos fariam parte da Bíblia, mas isso também não importava, pois não havia registros seguros da origem de nenhum desses evangelhos. Jesus esperava que novos evangelhos, por exemplo, o de Maria e o de Judas substituíssem ou integrassem a Bíblia, pois eram mais factíveis e verdadeiros. Tinha certeza de que a Bíblia não ficaria do jeito que estava por mais mil anos.

 

Entretanto, uma lembrança incomodava Jesus: “Paulo teve a ideia de universalizar minhas ideias”, disse para si mesmo um pouco frustrado. “Eu poderia ter tido essa ideia”. Lamentou-se, pouco se importando com a fama que tinha entre as ovelhas.

 

Na verdade, meu nome é Lecabel e sou uma dominação. – Mudou de assunto.

 

O Pontífice ficou atônito.

 

Mas você é da segunda hierarquia então, não poderia….

 

Segundo sabia, só anjos, arcanjos e principados poderiam ter contato direto com os humanos e normalmente só resolviam questões particulares ou locais. A segunda hierarquia, na qual as dominações se inseriam, deveria se preocupar com questões de Estado e conjunturais. Lecabel olhou para o seu novo discípulo e disse:

 

Venha, tu precisas aprender o caminho da verdade. Para isto eu nasci e vim ao mundo, para dar testemunho da verdade; todo o que está pela verdade, ouve a minha voz. – Disse humildemente. – Siga-me. – Voltando a ficar animado, pois alguém que o escutaria. – Conheça a verdade e ela te libertará. – Concluiu satisfeito.

 

Ambos caminharam para o interior do palácio.

 

Jesus pouco se importou com o espanto do pupilo. Era difícil mudar. Religiosos não eram como cientistas, que por amarem o conhecimento e o que faziam, rendiam-se a novas evidências e melhores teorias, ainda que o orgulho e a competição acirrada pairassem no âmbito cientifico e acadêmico, pelo bem da ciência. Já religiosos, por mais que se demonstrasse que não havia qualquer fundamento em suas crenças, eram fundamentalistas. Eram teimosos e por vezes se recusavam a discutir, permanecendo em sua santa ignorância. Queriam certezas. É certo que muitos tinham medo de serem excluídos do convívio social e familiar que sempre tiveram e por isso se mantinham religiosos, escravos de imposições sociais irracionais e inquestionáveis. Tendo isso em consideração, Jesus resolveu ser ético e colocar as “cartas na mesa”. 

 

Vou lhe revelar a verdade e como devemos amar o próximo como amamos a nós mesmos. Está pronto para abandonar tudo? – Alçou os braços aos céus.

 

Sim. – Respondeu com pouca convicção, demonstrando que preferia ter poder sobre pessoas na Terra do que o poder do conhecimento no Paraíso.

 

Eis a verdade! – E abriu uma porta.

 

Bórgia olhou para dentro da gigantesca sala. Era, na verdade, uma biblioteca, repleta de livros de biologia, de ciências naturais, de sociologia e de filosofia. Havia um microscópio eletrônico e um gigantesco telescópio também. Jesus mostraria para o Papa, por exemplo, que existiam bactérias e vírus no mundo, visto que sabia que só o fato de dizer que existiam não adiantaria. Lamentava o fato de que o argumento de que não via barreiras de corais no deserto não fosse suficiente para afastar o argumento dos religiosos de que nunca viram um protozoário, sendo, portanto, um ser inexistente.

 

Eu, eu não entendo.

 

O que diferencia celestiais e humanos de outras espécies é a razão. Aqui tu aprenderás como a vida surgiu e como a mutação e a biotecnologia nos deram asas. – Empolgou-se Lecabel, tentando de plano afastar o preguiçoso argumento religioso de que a evolução era apenas a continuidade da criação de Deus, visto que este havia deixado informações dentro dos animais ancestrais de forma que se diversificassem. De fato, a criatividade e a teimosia religiosas não eram limitadas nem mesmo pelo senso do ridículo. – Ali, podemos ver o Universo. Posso lhe explicar como abrimos novas dimensões e como podemos encontrar novos mundos e civilizações para estudarmos. O progresso cientifico é uma verdadeira manifestação de amor à razão e ao mundo em que nascemos e crescemos. Só ele pode fazer da Terra um lugar melhor. Posso te explicar como aconteceu o processo inflacionário que deu origem a tudo há catorze bilhões de anos! Não há nada de criador! Não podemos explicar algo fantástico, como surgir matéria de flutuações quânticas, dando origem ao nosso universo, com algo mais fantástico, como a existência de um Deus pessoal que se importa com nossos pecadinhos. Esqueça o nada. Não há nada, mas sim vácuo quântico! – Olhou sincero para os olhos do pupilo. – A energia positiva da matéria é balanceada pela energia negativa do campo gravitacional… Posso te explicar como a Terra se formou há cinco bilhões de anos. – Sorriu confiante, certo de que precisaria começar por algo mais intuitivo.

 

evolucao

 

A Terra não se formou há seis mil anos? – Perguntou irritado o discípulo. Para ele era um absurdo aquele número tão alto.

 

Não! – Exaltou-se Jesus, lembrando-se de que os dinossauros viveram há sessenta e cinco milhões de anos e que mesmo demonstrando esse fato por meio de datação radioativa, um método científico rigoroso, para os religiosos, estes inventariam algum argumento absurdo como o de que dinossauros e seres humanos, embora tivessem vivido juntos, não foram enterrados no mesmo local ou ainda levantariam a hipótese de que cada um (humanos e dinossauros) ocupava um ambiente isolado. Lecabel sabia que os religiosos, quando encurralados por provas e evidências ou mesmos por seus argumentos estapafúrdios e contraditórios, que nem mesmo a eles convenciam, diriam que Deus era compatível com a ciência. – Tudo o que tu sabes está errado! Venha! Eu demonstro com provas e evidências! – Exclamou esperançoso, esperando que o Papa entendesse que o amor poderia vir da razão, e não de uma suposta divindade, como teimavam dizer padres e clérigos.

 

Sabe o que faz a Terra girar em torno do Sol? – Continuou Jesus, em seu ímpeto de revelar a verdade.

 

Deus? – Respondeu perguntando o Papa ressabiado.

 

Não! Sabes por que o universo é grande?

 

Deus?

 

Não, esqueça esse “Deus das lacunas”. Pesquise para entender! Vá atrás da informação! Não seja preguiçoso! Não negue sua racionalidade. O universo está aí para ser conhecido. Precisamos de mais e mais pessoas questionando, estudando e trabalhando para a Humanidade se tornar uma sociedade melhor. O universo é fantástico por si só.

 

O Pontífice começou a suar de raiva. Sentia-se ridículo. Nunca havia sido tão humilhado como naquele dia. Estava acostumado a ser bajulado e ouvido. As nações, os senhores feudais e os reinos, sempre que visitados por ele, pagavam a hospedagem, a comida e tudo o que era necessário para manter a sofisticada comitiva papal, não se importando com o caráter público do dinheiro e se abrigavam povos miseráveis.

 

Quero te mostrar como funciona a energia escura. – Falou entusiasmado.

 

“Energia escura”? Não!!!! – “Energia escura” era demais para o Papa. Um verdadeiro absurdo!

 

Mas foi a grande descoberta científica dos últimos três mil anos! – “Pena que não descobri antes de Belfegor, o senhor das descobertas, mas eu teria conseguido”, pensou decepcionado consigo mesmo. Receava que Belfegor deixasse de ser um anjo caído e voltasse a competir com ele pela primazia das descobertas científicas.

 

Não, não posso ser o seu discípulo. Preciso cumprir a missão de Deus. Com licença. – E o Papa deixou Lecabel sozinho com seus pensamentos.

 

Espere! – Determinou Lecabel um pouco decepcionado. – Tudo bem, entendo tuas limitações e que tu tens livre-arbítrio. Não é necessário que seja meu discípulo, pois sou muito exigente. Eu exigiria tudo o que posso de ti e posso muito. Todavia, faço-lhe um pedido.

 

Qual? – Perguntou o religioso na defensiva. Precisava sair dali imediatamente.

 

Desça à Terra e leve minha palavra. Acabe com a Igreja, desenvolva a pesquisa e a educação científica. Não deixe que crianças sejam rotuladas como pertencente à religião x ou y. Deixe que elas cresçam, estudem muito e, conscientes de seu lugar no mundo, escolham entre a razão ou o obscurantismo e, neste caso, qual deus irá seguir. Amor é tudo e conhecimento é amor. A Humanidade está muito atrasada em termos de desenvolvimento social e tecnocientífico e avançada em apedrejamentos. Está perdendo tempo com guerras desnecessárias.

 

Mas todas as guerras derivam da religião? – Indignou-se a autoridade terrena.

 

religiao-e-isso

 

72,048% e as demais têm origem em questões racionais, como disputa por recursos naturais e sistemas econômicos, ou personalistas, como a que opõem Metatron e Lúcifer. Tenha piedade de seu povo. Acabe com a religião e com a crença em um Deus improvável e desnecessário após a guerra entre o Céu e o Inferno. E não se preocupe, pois os ateus vão para o Céu, caso seu Deus exista, pois privilegiam a humanidade e o próximo. Lembre-se de que esta questão é muito complexa e que até um animal doméstico pode especular sobre um cientista. Desenvolvam-se, porque depois das últimas batalhas, caso tudo ocorra bem, não interferiremos mais na dimensão terrestre, a não ser que exista algum grave desabastecimento. – Sorriu vexado. – Tudo estará em suas mãos e tenha em mente que o maior inimigo do conhecimento não é a ignorância, mas sim a ilusão do conhecimento. Prometa-me que atenderá meus pedidos. – Pediu, gesticulando com esperança.

 

O Papa assentiu sem olhar nos olhos da dominação e deixou Lecabel. O Pontífice estava sem ar e totalmente ofendido; ultrajado. Estava louco para sair do Paraíso.

 

Eu sou o caminho, a verdade e a vida! Aquele que crê em mim nunca estará sozinho! – Gritou a dominação e fez um sinal de positivo e de esperança. – Eu sou a luz do mundo, aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida!

 

Lembrou o Papa de todo esses momentos com Jesus. Recordou-se da missão dada por Metatron, do ateísmo reinante no Paraíso e da queda de Lúcifer e do Deus Honroso. Considerando todas essas memórias, diante daquelas centenas de pessoas, Bórgia subiu em um amontado de ruínas e, convicto, discursou:

 

– Deus me disse: “eu vos amo! Obedeçam! Sejam piedosos! Leiam a minha palavra e contribuíam para o reerguimento do meu templo. Doem suas riquezas”.

 

Os olhos da plateia, que tinham dificuldade de olhar para a frente, porque submissos, brilharam sob os mantos opressivos que usavam. Os fiéis não questionavam por que o Deus todo poderoso deles precisava de seus parcos recursos.

 

– E os demônios foram derrotados! – Bradou. – Agora nos cabe honrar o esforço do Homem Invisível. Oremos! – Era o momento de não fazer nada, acreditando estar fazendo algo.

 

Depois de muita reza, período no qual improvisou um discurso, o Pontífice iniciou o sermão, pedindo, antes, silêncio. Não haveria espaço para a dialética ou questionamentos:

 

missa

 

– Deus não é indiferente ou longínquo, como acabaram de ver. Não estamos abandonados. Saibam que a Igreja é a carícia do amor de Deus neste plano material. Sabemos que a família é a base da sociedade e onde as crianças aprendem os valores dos pais, assim sendo, reforcem a palavra de Deus, pois não há paz sem justiça e sem perdão. – Bórgia esperava que não houvesse um doutor em letras ali, pois estava improvisando. – Nós não precisamos de crentes não praticantes, mas sim em tempo integral, portanto trabalhem apenas para a Igreja, pois rico, de fato, não é aquele que tem, mas aquele que dá dinheiro para a Igreja. – Brincou o Papa, percebendo que as pessoas estavam perdendo a atenção no monólogo monótono. De fato, era comum perguntar aos fiéis sobre o que havia sido dito durante a missa, e nada lembrarem. – Lembrem-se de que quem ama, não utiliza, e que a pior prisão é ter um coração furtivo. Deus me disse que a inclinação homossexual não é um pecado, mas, mais ou menos, uma má moral, oriunda de desordem mental. Só a Igreja detém a moral, que deve influir inclusive no plano político e moral. Precisamos impedir modismo e as últimas novidades da ciência e das artes não-religiosas. Precisamos guiar o rebanho para essa fé. – As pessoas ali não se incomodavam em fazer parte de um rebanho e por isso pouco se importavam com o discurso desconexo. – Tenham em mente que a fé é a convicção nas coisas invisíveis, pois estas são mais importantes que as visíveis, inclusive moedas de ouro. Por isso, rezo todos os dias para que eu fique cada vez mais pobre. Não se intimidem quando poucos duvidarem de Deus. Eles estão errados! São a minoria! São fundamentalistas! Eu estive lá e falei com Ele. Não deem a outra face, mas obriguem o cético a descobrir a verdade.

 

Alguém bateu palmas interrompendo, assim, o discurso papal:

 

– Quem bate palmas na missa está aplaudindo os algozes de nosso salvador. – Disse pedagógico e bravio Bórgia. Depois de encarar a ovelha desordeira, continuou:

 

– Só Deus confere dignidade, assim, defendam Deus e, como corolário lógico, defendam o homem. Não quero aplausos, eu só quero a verdade. Nosso salvador estará conosco até o fim dos tempos. Também estive com ele. A consubstancialidade está correta! Ele me disse que santo também peca, então fiquem tranquilos, se pecarem, é só se confessarem. – Brincou de novo o Papa com o rebanho e chamou uma jovem moça.

 

– Cante, minha jovem! Cantemos para o senhor. Ele está nos ouvindo. – Exaltou o Papa.

 

E a moça começou a cantarolar:

 

“Glorifique Deus e reprima sua vida;

Glorifique Deus e reprima sua vida;

Glorifique Deuuuuuuuuus e reprima sua vidaaaaaaaa!”

 

Durante a cantoria, o Papa pensava como iria retirar todas as riquezas religiosas debaixo das ruínas. Em meio a pensamentos e durante a cantoria, gritava:

 

– Acredite! Acredite! – Evocava o mantra sagrado daquela gente.

 

– Eu acredito! – Respondia o público em meio a palmas.

 

Tenho que pregar mais do que nunca a pobreza para que não levem as peças de ouro e as pedras preciosas”, concluiu suas reflexões. Depois da cantoria, o Papa lembrou aos cristãos:

 

– Nós devemos pedir perdão o tempo todo. Re…

 

– Isso quer dizer que não precisamos trabalhar? – Perguntou um vagabundo qualquer que estava todo animado com a fala do Papa.

 

O Papa olhou de forma diabólica para o vadio, pois não gostava de ser interrompido, e nada respondeu.

 

– Rezemos um “Homem Invisível” e uma “Aff mulher”. – Continuou. – Ajoelhem-se. – Determinou glorioso.

 

E a moça que havia cantado começou a queimar incenso para, segundo a tradição, sem base fática alguma, afastar os maus espíritos. Passava entre as pessoas que, por estarem cansadas, esfomeadas, sangrando, velhas ou debilitadas pelo caos que havia se instalado naquela região, tinham grande dificuldade de se ajoelharem.

 

Depois das orações, o Papa já cansado, disse:

 

– E para finalizar, eu tenho uma grande novidade!

 

Silêncio imediato. Ninguém quis bater mais palmas. A expectativa era muito grande em torno do homem que subiu aos Céus, falou com Deus e que foi trazido por anjos depois do desaparecimento dos demônios.

 

– Eu estou abolindo o Limbo! – E sorriu confiante, transmitindo muita sinceridade no olhar.

 

E a plateia comemorou. Não foi uma comemoração efusiva daquela gente sofrida, mas imersa em choro, soluços, gritaria, penitências e orações. Estavam todos comovidos e tocados. Uma verdadeira histeria coletiva se abateu sobre o rebanho, embora a maioria não soubesse que o Limbo era o lugar para onde os não batizados eram mandados, embora ninguém soubesse por que o Papa estava falando aquilo naquele momento e embora nada fosse dito sobre o destino das almas que estavam naquele lugar.

 

O necromante e Esmeralda, que assistiam à cena à distância, entristeceram-se. Nada havia mudado na Terra e não havia expectativa para mudar. O necromante ainda sentia o cheiro de morte no ar e milhares de pessoas sofrendo e com medo. Sabia que Bórgia não as ajudaria, mas sim se aproveitaria delas. Desolação e lamentação.

 

Depois da batalha final, segundo Esmeralda, que permaneceu o tempo inteiro consciente, ambos foram levados para a Terra por Miguel, Sofia e Penélope. Em seguida, a família de anjos desapareceu. Dias haviam se passado e ambos nada mais souberam sobre as questões celestiais. A breve descida dos anjos na Terra, para trazer de volta o Papa, foi a primeira vez, desde o retorno do Lago de Fogo, que viram algo relacionado ao Paraíso. Depois disso, ficaram com a sensação de que não veriam anjos novamente tão cedo.

 

– Por que não abole o Inferno?! – Questionou irônica e revoltada Esmeralda ao ouvir o pronunciamento do Papa, virando as costas para aquela massa de teístas.

 

O necromante pouco se importou. Pensava no que teria acontecido, com Hermes, Al Gore, Klepoth, Lilith, Asmodeus, Mammon e com os arcanjos. Também pensava no pai de Esmeralda e em seus pais. Queria saber se Penélope voltaria com suas peripécias e se Miguel traria uma nova missão para ele. Também tinha curiosidade em saber como ficou o Paraíso com seus novos e antigos habitantes, mas em seu íntimo, achava melhor não saber as respostas para essas questões e curiosidades.

 

Para ele só tinha sobrado Esmeralda… o que seriam deles agora?

 

O Grimório e a Lança do Destino de Penélope ainda estavam com Lúcifer, para sua infelicidade. Fobos ainda estaria vivo? Lamentou estar desacordado no momento em foi transportado do Inferno à Terra, pois queria ter jogado pelo menos o Grimório no Lago do Fogo. Agora deveria protegê-lo de pessoas e criaturas que certamente buscariam o diário de Lúcifer e seus poderes. Aquele livro ensinava, inclusive e com base na ciência, a lançar maldições.

 

Considerando isso, resolveu não ficar ali, embora também não soubesse para onde iria e o que faria. Talvez virasse nômade. Queria se afastar inclusive de Esmeralda, para o bem dela.

 

Apesar de jovem, o necromante já estava se cansando da vida, afinal quase morreu inúmeras vezes, perdeu e temeu perder seres e pessoas que amava, desceu ao Inferno, viu massacres, guerras, a Inquisição em ação, a corrupção da Igreja, lutou contra e derrotou o ser mais poderoso que já havia existido e livrou a raça humana de uma verdadeira indústria da morte e de seu pretenso pastor. Mesmo passando por tudo isso, ninguém o seguiria e ninguém reconheceria seus feitos, não que ele quisesse prestígio e reconhecimento, mas era um detalhe que o incomodava.

 

Sentia o necromante que tinha adquirido tantos poderes e possibilidades que poderia ser considerado um deus na Terra… Não! Isso era uma maldição para a Humanidade. Haveria mais guerras e deveria lutar contra o Deus do imaginário coletivo das pessoas e seria visto como um ser sombrio por seus pares; um falso deus. Seus seguidores caçariam os seguidores da Igreja e esses os seus.

 

A pedomorfose, presença das características infantis na fase adulta, ainda era uma característica rudimentar latente da espécie humana e também incompatível com sua permanência ali. A curto prazo, não havia como combater o imaginário das pessoas, pois só a evolução e a educação podiam derrotar a loucura da Humanidade. Com efeito, os amigos imaginários das crianças se transformavam na figura do Homem Invisível com o passar do tempo, tão bem utilizada pela Igreja. Lúcifer comemorava o fato de nunca ter tido um amigo imaginário, mas sim uma namorada imaginária, parecida com Esmeralda, e, talvez por isso, tenha se livrado do deus da Igreja por tanto tempo e talvez por isso estivesse apaixonado pela companheira. Queria protegê-la e, para tanto, precisava partir.

 

– Preciso deixá-la. Procure sua mãe e seu pai. Farei o mesmo. Seja feliz! Adeus! – Disse com cara de piedade, sem encarar a divina moça.

 

– O quê? – Estranhou Esmeralda.

 

– Você jamais estará segura perto de mim. É para seu próprio bem. Preciso encontrar meu próprio cami…

 

– Só eu sei o que é bom para mim e mais ninguém. – E Esmeralda, que não era uma mulher cheia de frescuras, preconceitos e enrolação, beijou longamente o necromante antes que ele começasse a dizer o que era certo ou errado para ela, como se fosse um pastor pilantra. O necromante sentiu que mais uma vez perderia sua liberdade, mas dessa vez seria por vontade própria. Queria ficar com Esmeralda e ela queria ficar com ele e ambos pretendiam viver felizes para sempre.

 

raiva

 

FIM!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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3 pensamentos sobre “Lúcifer e a conspiração dos arcanjos – Última Parte (Em comemoração ao dia do orgulho ateu!)

  1. Marcus Vinicius disse:

    Uma ótima estória. gostei. Utilizei muito bem o tempo que gastei lendo desde o primeiro capítulo. Fui bem recompensado. Parabéns.

    • Adonis disse:

      =) Valeu!!!! Escrevei o livro para meu amigo judeu e para minha esposa católica. Eles gostaram. Já haviam visto antes essa história. Mês que vem ficarão prontas cem cópias físicas que vou distribuir/doar/permutar/vender entre meus amigos, familiares e interessados. Vou mandar para algumas editoras também, para ver se alguma delas se responsabiliza pela divulgação, o que acho difícil em razão do tema de fundo do livro. Dá mais trabalho divulgar do que pesquisar e escrever. Leia “A Nova Teogonia” também! Abraços!

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