Grandes Batalhas LXXVIII: Soberba! Atena vs Leto, a arrogância dos deuses

Soberba: O mesmo que arrogância, se sentir superior, auto-confiança em exagero.

As vítimas desse pecado demonstram as seguintes características:

1) se acham espertalhonas, pensam que só elas entendem um determinado assunto, acreditam que sempre têm a razão ou a solução para problemas;

2) não têm capacidade de perceber que isso não é verdade, mesmo que o mundo esteja desabando em funções das cagadas que comete.

Segue a enquete:

Atena vs Aracne

Numa antiga região da Ásia Menor chamada de Lídia, vivia uma jovem de nome Aracne, que tinha uma extraordinária habilidade e grande reputação na arte de tecer e bordar.

As tapeçarias que desenhava eram tão belas e perfeitas que pessoas vinham de terras distantes só para contemplá-las. Devido a tanta admiração, Aracne começou a comparar-se à Atenas – deusa das fiandeiras – e que seria capaz de derrotá-la na arte da tecelagem. Quando a notícia chegou ao Olimpo, Atenas ficou furiosa com a petulância da mortal. Sentiu-se desafiada e resolveu aceitar a competição com Aracne, para ver quem merecia de fato ser considerada a melhor na arte de bordar. Antes, porém, a deusa disfarçou-se de uma humilde velhinha e foi ter com Aracne. Pediu-lhe que a escutasse, devido à experiência de sua idade avançada: “Busque entre os mortais toda fama que desejar, mas reconheça a posição da deusa”. Aracne, entretanto, não aceitou os conselhos da deusa, e, mais uma vez, a desafiou, dizendo: “Por que motivo sua deusa está evitando competir comigo”? Nesse momento, Atenas tirou o disfarce e todos, ao redor, ficaram surpresos, exceto Aracne, que permaneceu impassível. As duas, então, deram início à competição.

Ambas trabalharam com rapidez e habilidade. Atenas representou sobre a tapeçaria os doze deuses do Olimpo em toda a sua majestade e para aviso da sua rival acrescentou nos quatro cantos a representação de quatro episódios mostrando a derrota dos mortais que tinham ousado desafiar os deuses. Aracne ousou ilustrar sobre o seu trabalho as conquistas amorosas de Zeus. Sob a forma de touro, arrebatando Europa; sob a forma de águia, abordando Astéria; sob a forma de cisne, conquistando Leda; sob a forma de sátiro, fazendo amor com Antíope; Zeus fazendo-se passar por Anfitríon para seduzir Alcmene, mãe de Heraclés (Hércules); Zeus, o pastor que fez amor com Mnemosine, mulher-titã; e, ainda, Zeus conquistando Egina, Deméter e Danae, disfarçado de chama, serpente e chuva de ouro, respectivamente. Isso deixou Atenas tão enraivecida que rasgou em pedaços o trabalho e golpeou, com o bastão de tecer, a cabeça Aracne. Ultrajada e desesperada, Aracne enforca-se.

Atenas, ao ver o que sua cólera havia provocado, compadeceu-se de Aracne e transformou a corda que ela usara para enforcar-se numa teia. Em seguida, derramou sobre Aracne fluidos retirados das ervas da deusa Hecate e transformou-a em uma aranha. Dessa forma, Aracne foi salva da morte, embora condenada a ficar dependurada em sua teia a fiar e a tecer para sempre. (Fonte: recantodasletras)

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Niobe vs Leto

O destino de Aracne tornou-se conhecido no país, servindo de advertência a todos os mortais presunçosos, para não se compararem com os deuses. Uma matrona, contudo, não aprendeu a lição de humildade. Foi Níobe, rainha de Tebas. Na verdade, tinha muita coisa de que se orgulhar; o que a envaidecia, no entanto, não era a fama de seu marido, nem sua própria beleza, nem a nobreza de sua ascendência, nem o poderio de seu reino: eram seus filhos. E, realmente Níobe teria sido a mais feliz das mães, se não se tivesse proclamado tal. Foi por ocasião das celebrações anuais em honra da Latona e sua prole, Apolo e Diana — quando o povo de Tebas se reunia, com as frontes coroadas de louro, levando incenso aos altares, rendendo seus tributos e cumprindo seus votos — que Níobe apareceu entre a multidão. Suas vestes eram esplêndidas, enfeitadas de ouro e pedras preciosas e seu aspecto belo, tanto quanto pode ser uma bela mulher enraivecida. Parando, ela contemplou a multidão, com ar altivo: — Que loucura é esta? — exclamou. — Preferir seres que nunca vistes àqueles que tendes diante dos olhos! Por que Latona deve ser cultuada, e eu não? Meu pai foi Tântalo, recebido como conviva na mesa dos deuses; minha mãe era deusa. Meu marido construiu e governa esta cidade, Tebas, e Frígia é minha herança paterna. Seja para onde for que eu volte os olhos, contemplo os elementos do meu poder. E meu aspecto não é indigno de uma deusa. Acrescentai a tudo isso o fato de que tenho sete filhos e sete filhas e procuro genros e noras à altura de minha aliança. Faltam-me motivos para ter orgulho? Preferis a mim essa Latona, filha do Titã, com seus dois filhos? Tenho sete vezes mais. Em verdade, sou feliz e feliz hei de ser! Poderá alguém duvidar disso? A abundância é minha garantia. Sinto-me demasiadamente forte para ser vencida pela Fortuna. Por mais que ela me tome, ainda me restará muito. Se eu perdesse alguns de meus filhos, dificilmente ficaria tão pobre como Latona, com seus dois únicos. Suspendei esta solenidade… tirai o louro de vossas frontes… Não prossigais este culto! O povo obedeceu, e não completou os serviços sagrados. A deusa ficou indignada. No cume da montanha cinfiana, onde morava, assim se dirigiu a seu filho e a sua filha: — Meus filhos, eu que sinto tanto orgulho convosco, e que me acostumara a considerar-me como a primeira das deusas, depois de Juno, começo agora a duvidar se sou realmente uma deusa. Deixarei de ser cultuada inteiramente, a não ser que me protejais.
Continuava a falar no mesmo tom, mas foi interrompida por Apolo. — Não digas mais nada — exclamou ele — As palavras apenas servirão para adiar o castigo. O mesmo disse Diana. Cortando o céu, escondidos nas nuvens, os dois desceram nas torres da cidade. Diante das portas, estendia-se uma planície, onde os jovens da cidade entregavam-se a exercícios bélicos. Os filhos de Níobe ali se encontravam com os demais, alguns cavalgando corcéis ricamente ajaezados, outros guiando aparatosos carros. Ismenos, o mais velho, quando dirigia seus fogosos cavalos, ferido com uma seta partida do alto, apenas teve tempo de exclamar “Ai de mim!”, antes de largar as rédeas e cair sem vida. Outro, ouvindo o sibilo do arco — como o marinheiro que vê a tempestade aproximar-se e trata de virar as velas para o porto —, soltou as rédeas dos animais e tentou escapar. A inevitável seta atingiu-o enquanto fugia. Dois outros, mais jovens, terminados seus exercícios, haviam ido ao campo de recreação para divertirem-se com uma luta. Enquanto se entretinham de pé, peito contra peito, uma seta atravessou os dois. Deram um grito juntos, juntos olharam em torno surpresos e juntos exalaram o último suspiro. Alfenor, um irmão mais velho, vendo-os cair, correu para junto deles, a fim de socorrê-los, e caiu ferido enquanto cumpria seu dever fraternal. Restava apenas um, Ilioneus, que levantou os braços para o céu. — Poupai-me, deuses! — gritou, dirigindo-se a todos, sem saber que não precisava implorar a todos. Apolo o teria poupado, se a seta já não tivesse partido e já não fosse demasiadamente tarde. O terror do povo e o pesar dos circunstantes logo fizeram Níobe tomar conhecimento do que ocorrera. Custou-lhe acreditar; sentia-se indignada vendo que os deuses se atreviam a tanto e tinham capacidade de fazer aquilo. Seu marido, Anfíon, abalado com o golpe, suicidou-se. Ah! Quanto era diferente agora Níobe daquela que, tão pouco tempo antes, afastara o povo dos rituais sagrados, e caminhava triunfalmente pela cidade, despertando inveja em seus amigos, quanto agora causava compaixão aos próprios inimigos! Ajoelhou-se junto aos corpos sem vida e beijou ora um, ora outro de seus amados filhos.
— Cruel Latona! — exclamou, erguendo os pálidos braços para o céu. — Sacia todo o teu ódio em minha angústia! Que teu duro coração se regozije, enquanto levo ao túmulo meus sete filhos. Mas onde está o teu triunfo? Despojada como estou, ainda assim sou mais rica que tu, que me venceste. Mal falara, o arco vibrou, espalhando o terror em todos os corações, exceto no da própria Níobe, tornada corajosa pelo excesso de dor. Suas filhas, em vestes de luto, choravam junto aos corpos dos irmãos mortos. Uma delas, atingida por uma seta, caiu sobre o cadáver que pranteava. Outra, procurando consolar sua mãe, calou-se, de súbito, tombando em terra sem vida. Uma terceira tentou escapar escondendo-se, a quarta pela fuga e outra deixou-se ficar de pé, toda trêmula, sem saber o que fazer. Seis já estavam mortas e restava apenas uma, que a mãe apertou nos braços, como que para protegê-la com seu corpo. — Poupai-me esta, a mais moça! — gritou. — Poupai-me uma, entre tantas! E, enquanto falava, a filha caiu morta. Desolada, ela sentou-se entre os filhos, filhas e marido, todos mortos, apática com o sofrimento. A brisa não lhe agitava os cabelos, suas faces estavam inteiramente descoloridas, o olhar fixo e imóvel. Não havia nela sinal de vida. A própria língua prendeu-se ao céu da boca e as veias cessaram de transportar o fluido vital. O pescoço não se curvou, os braços não fizeram gesto algum, os pés não deram um só passo. Ela se transformara em pedra, por fora e por dentro. As lágrimas, no entanto, continuaram a correr. E, levada, por um redemoinho de vento, para sua montanha natal, ainda lá continua: um bloco de rochedo, do qual escorre um estreito regato, tributo de uma dor sem fim. A história de Níobe inspirou a Byron uma bela comparação com as tristes condições da Roma moderna:

A Níobe das nações!
Ei-la, indefesa,
Sem filhos, sem coroa, sem ao menos
Voz para lamentar as priscas glórias,
Tendo nas mãos inermes uma urna
Vazia já. As cinzas sacrossantas
No pó se dispersaram há longo tempo.
Dos Cipiões o túmulo jaz vazio.
Cada próprio sepulcro abandonado
Foi pelo morto ilustre, herói antigo.
Hás de correr, resignado, agora,
Num deserto de mármore, velho Tibre?
Sai de teu leito e, sob a água, esconde
A vergonha de Roma, velho Tibre!

Childe Harold, IV, 79,

Há na galeria imperial de Florença, uma famosa estátua, inspirada no episódio, e que se acredita ter pertencido, originalmente, ao frontão de um templo. A figura da mãe, abraçada pela filha horrorizada, é uma das mais admiradas da escultura antiga, colocando-se ao lado de Laocoonte e de Apolo, como uma obra-prima artística. Há um epigrama grego que se acredita referir-se a essa estátua e cuja tradução é a seguinte:

Em pedra a transformaram os deuses, mas em vão:
Fê-la viver de novo a arte do escultor.

Por mais trágica que seja a história de Níobe, não podemos deixar de sorrir diante da comparação que ela inspirou a Moore em seus Versos Escritos na Estrada (“Rhyme on the Road”):

Em sua carruagem, o orgulho da poesia,
Sir Richard Blackmore, seus versos escrevia.
E se não lhe faltava engenho nem tinteiro,
A morte e a epopéia ocupavam-lhe o dia,
Escrevia e matava, alegre, o dia inteiro.
E, como Apolo, assim, em seu carro corria,
Quer cantando, gentil, como deus da poesia,
Quer matando de Níobe o filho derradeiro.

Sir Richard Blackmore era médico e, ao mesmo tempo, poeta muito fecundo e muito sem gosto, cujas obras estão hoje esquecidas, a não ser quando lembradas numa alusão irônica, como no caso de Moore. (Fonte: amitologianahistoria.blogspot.com.br)

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Veja como o Juvenal Juvêncio é “soberbo”

Eca…

Enfim, que a soberba deixe o São Paulo para que o tricolor paulista volte a ser o maior e melhor clube do país.

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5 pensamentos sobre “Grandes Batalhas LXXVIII: Soberba! Atena vs Leto, a arrogância dos deuses

  1. Adonis disse:

    Mais uma derrota… 2 a 1 para a Portuguesa. É o fundo do poço.

    • Aurora disse:

      Hoje acabei de ver que eles ganharam (ufa!!!), mas acho que ainda assim serão rebaixados…:/

      A história de Niobe e Leto sem dúvida alguma é a mais cruel…bem mais que a da Aracne/Atena (que filha da puta invejosa, hein!).

  2. Álvaro. disse:

    Sempre venho repetindo que Atena é o maior recalque divino de todos os tempos!! Eu diria até que é do mesmo nível que Hera. Transformar alguém só por que é melhor que ela? Pfft!

  3. Adonis disse:

    Atena. Se sentiu ofendida pois a convicção e competência de Aracne para bordar eram tão ou melhores do que as dela. Atena desafiou a mortal e não venceu. Não aceitando tal situação, transformou Aracne em uma aranha e amaldiçoou toda as gerações futuras da moça. 53.16% (101 votes)

    Leto. Niobe não compreendia porque Leto era tão aclamada por ter dois filhos, Apolo e Ártemis, e ela não, posto que possuía catorze filhos lindos e talentosos. Leto ofendida pelo questionamento, determinou que seus dois filhos matassem toda a prole de Niobe, a sangue frio e na frente da matriarca mortal. 46.84% (89 votes)

  4. Adonis disse:

    Atena. Se sentiu ofendida pois a convicção e competência de Aracne para bordar eram tão ou melhores do que as dela. Atena desafiou a mortal e não venceu. Não aceitando tal situação, transformou Aracne em uma aranha e amaldiçoou toda as gerações futuras da moça. 54.4% (167 votes)

    Leto. Niobe não compreendia porque Leto era tão aclamada por ter dois filhos, Apolo e Ártemis, e ela não, posto que possuía catorze filhos lindos e talentosos. Leto ofendida pelo questionamento, determinou que seus dois filhos matassem toda a prole de Niobe, a sangue frio e na frente da matriarca mortal. 45.6% (140 votes)

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